quinta-feira, 30 de julho de 2015

Transparências

Parecia não ouvir uma palavra das minhas interpelações, enquanto jogávamos futebol. Ele fazia-o com muita arte, mas de forma quase displicente. Parecia estar com a cabeça em todo o lado menos naquele campo improvisado. Facilitei, de forma bem disfarçada (achava eu!) a entrada de um golo seu, para puxar pela competitividade. Nesse exato momento, aquele menino, aparentemente alheado, pára, olha-me nos olhos e diz-me: tu deixaste entrar o golo de propósito! 
Fiquei gelado. Acho que nunca, até esse dia, tinha percebido tão bem o quão somos todos tão competentes a lermo-nos uns aos outros. Por mais desatentos que possamos parecer à primeira vista...


Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal. 

A saúde mental faz bem ao PIB.

A Maria faz parte dos quadros da função pública há mais de 20 anos. Não está na secretaria por estes dias. Já conta com 3 baixas psiquiátricas no currículo. Depressão diz o relatório. O Jovenal, mais sonolento a cada dia que passa, não dorme 3 horas seguidas vai para um ano. À noite, apaga a luz e acende-se a angústia. As preocupações, que o cansaço e a ocupação vão adormentando durante o dia, vêm em catadupa, aos trambolhões, na hora de dormir. Parte da fatura tem sido paga pelas máquinas industriais: a rapidez e eficiência com que sempre as reparou e afinou têm vindo a diminuir a olhos vistos. As linhas de produção ressentir-se-ão em breve. E, com elas, a faturação da empresa. 

Vinha correndo bem a vida ao jovem Inácio. Os contratos avultados de exportação que conseguiu fechar aceleraram-lhe o futuro promissor na gestão. Mas a ascensão meteórica está agora entalada. No 1º semestre do ano, não conseguiu um único novo cliente internacional. Não, não perdeu a visão estratégica nem o tato para o negócio. Mas as horas antes das reuniões com os clientes passaram a ser ocupadas por 1001 estratégias para não ter de lhes apertar a mão. As horas depois, com 1001 estratégias para que ninguém percebesse que as ocupava, quase na totalidade, a lavar as mãos com tudo o que é desinfetante. 

A promoção da saúde mental (através da psicoterapia, nomeadamente) é, antes de mais, uma questão de humanidade e equidade social – justificação muito mais do que suficiente para a implementação de uma estratégia integrada de saúde mental. Mas, na era em que tudo cabe num indicador económico, é bom lembrar o mais recente relatório da OCDE sobre esta matéria. Dele parece decorrer que os gastos com uma estratégia sustentada de promoção da saúde mental não são bem custos. Serão antes investimento com retorno. Às poupanças com baixas e prestações sociais, junta-se um aumento significativo da produtividade do trabalho. Nós não andávamos a precisar desesperadamente de fazer crescer o PIB?!



(Inspiração: http://www.oecd.org/employment/fit-mind-fit-job-9789264228283-en.htm)


Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue -  sendo, por vezes, inspirado em histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal. 

Violências



Capas de jornal. Aberturas de noticiários televisivos. 
Foi assim, durante dias, há um par de meses: a mediatização de casos de natureza, contexto e gravidade diferentes, mas com um padrão que os liga: a violência.
Nunca, em contexto profissional, conheci ninguém com comportamentos reiteradamente violentos (sejam crianças, adolescentes ou adultos) que não tivesse uma história marcada por um sofrimento muito significativo. Nunca. 
Uns, tão habituados a um registo omnipotente, quais principezinhos do quero-logo-acontece, que nunca tinham aprendido (por falta de sinais claros e consistentes de STOP ou de quem os tivesse ajudado a configurar a dor da frustração) a expressar de modo adequado a dor aguda da “derrota”. Quando ela, mais tarde ou mais cedo, acontece, a violência impulsiva surgia assim como uma resposta mais ou menos inevitável.
Outros que, sentindo-se quase invisíveis de tão pequeninos se sentirem, nas mais variadas circunstâncias (por acumularem experiências repetidas de amesquinhamento e humilhação, por exemplo), apanhavam a boleia protetora do grupo ou de qualquer outra capa de poder para, através da violência sobre os mais frágeis se sentirem, nem que fosse por breves momentos, os todo-poderosos (talvez seja isso que acontece com alguns grupos de delinquentes que se mascaram de adeptos de futebol, com alguns abusos violentos em algumas praxes académicas, com alguns casos de bullying ou com um ou outro caso de violência policial perfeitamente injustificada). 
Outros, ainda, bem ao jeito do Fight Club, pareciam sentir-se tão zombies (quantas vezes com história de episódios repetidos como vítimas de violência) que (à falta da liberdade interior de verem o coração bater mais forte com um pôr do sol em Santorini, um filme, uma música, um olhar ou um abraço) a dor dos murros e pontapés que dão e levam parece ser das poucas coisas que lhes liberta adrenalina nas veias, fazendo-os sentir um bocadinho menos adormentados, um bocadinho mais vivos, paradoxalmente.

Estou, com isto, a querer desculpabilizar este tipo de comportamentos? De modo nenhum. As regras parentais, as normas sociais e os regulamentos legais - assim como as consequências (firmes, coerentes e proporcionais) que devem decorrer da sua violação - são essenciais para proteger aqueles que estão numa posição mais frágil e para parar quem não parece conseguir gerir minimamente a sua agressividade. 
Sendo a perspetiva punitiva essencial, talvez já não faça é muito sentido dividirmos o mundo rigorosamente a meio: bons para um lado, maus para outro. Tendo a violência uma dimensão muito significativa de responsabilidade individual à qual ninguém deve poder fugir, a verdade é que parecem haver condições ambientais (a qualidade dos cuidados parentais em primeiro lugar, claro está, mas também a aposta clara em saúde mental, ou as oportunidades para educar a expressão emocional – pelo brincar livre, pela expressão artística e corporal, pela rivalidade dentro de um quadro de regras claras, que muitos desportos proporcionam, etc, etc.) que a podem tornar bem menos provável.

Perdoem-me a “lamechice”, mas não resisto a citar, a este respeito, o Nélson Mandela (ele que sendo, com inteiríssima justiça, um dos símbolos maiores do melhor que a humanidade alguma vez foi capaz de fazer, não deixou, durante um curto período do início do seu percurso público, de ser um defensor da violência feroz como arma contra violências maiores): “Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.

Auto-lesões


Numa leitura mais apressada, as autolesões podem ser vistas como mais uma forma de chamar a atenção. Mas são (quase sempre) muito mais do que isso! 
Chamadas de atenção serão, tenho para mim, movimentos muito mais saudáveis de crianças (e adultos!) que nos tentam vencer pelo cansaço (muito ao jeito do “já chegámos?” do burro do Shrek), de adolescentes que marcam as suas posições de forma mais ou menos inflamada, ou de adultos que se aperaltam impecavelmente para tentarem brilhar numa festa. Não! Magoar-se a si próprio não é uma simples chamada de atenção! Ninguém se magoa a si próprio – tenho para mim - à margem de uma dor tão difusa e tão sem lugar, que não está a conseguir encontrar em nenhum colo, em nenhum olhar, a capacidade de a acolher, de a deixar chorar, de a legendar e de a reparar, por fim. Tal qual um beliscão na mão nos distrai, ainda que só por breves momentos, de uma dor de dentes mais ou menos insuportável, uma autolesão pode servir, assim, como uma anestesia momentânea para uma dor mental mais ou menos aguda. Não! Quem se magoa a si próprio, de forma reiterada, não está a fazer uma mera chamada de atenção! Sim! Precisa de ajuda (urgente)!

(Inspiração: http://www.alert-online.com/pt/news/health-portal/autolesao-aumenta-entre-os-jovens-portugueses)

Porque é que as pessoas deprimem?

Abundam as explicações. Umas sublinham o papel de desregulações bioquímicas no cérebro. Outras – com as quais mais me identifico - relevam especialmente o papel das experiências e relações interpessoais. Claro que os neurotransmissores intervirão no processo. Não há muito como imaginar, à luz das neurociências do século XXI, que as experiências e as relações muito marcadas por mal entendidos, que nos fazem sentir mais ou menos abandonados, mais ou menos medrosos, mais ou menos incapazes, mais ou menos incompreendidos e mal-amados … não se reflitam na bioquímica nervosa. O mesmo acontecerá, naturalmente, com as experiências mais ou menos traumáticas. Mas, se as pessoas deprimem (ou, pelo contrário, se agarram à vida) também em função da qualidade das suas experiências e relações interpessoais, talvez não faça, de facto, muito sentido imaginar o tratamento da depressão (ou da ansiedade, por exemplo) à margem de um espaço que lhes permita, ao olhar para dentro, encetar um rearranjo sustentado de padrões relacionais.
(Inspiração: http://psychcentral.com/news/2013/05/29/hundreds-of-studies-back-benefits-of-psychotherapy-for-depression/55370.html)

Plasticidade cerebral

Há muito que se intuía. A investigação com técnicas de imagiologia cerebral tem, aparentemente, vindo a confirmá-lo, estudo atrás de estudo: a ausência de vínculos relacionais sólidos parece alterar aspetos muito significativos da arquitetura do sistema nervoso.


(Inspiração: http://www.iflscience.com/brain/neglect-childhood-leaves-marks-brain)


E as psicoterapias?

Tempos houve em que, com a vertigem positivista, se chegou a pensar que o sofrimento mental (nas suas várias intensidades e apresentações sintomáticas) e, por contraste, os rasgos de felicidade, se resumiriam a neurotransmissores e circuitos neuronais. Foram, porém, os avanços nas neurociências que vieram ajudar a demonstrar que, felizmente, somos muito mais do que picos de dopamina ou serotonina: as relações humanas (também as psicoterapêuticas, em algumas circunstâncias) serão essenciais na reparação das feridas que outras relações foram abrindo de forma mais insidiosa ou mais abrupta. É, parece que um sistema que acarinha a saúde mental tem um espaço (muito mais do que marginal) para as psicoterapias.


(Inspiração: http://www.bbc.com/news/health-30150746)