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domingo, 11 de dezembro de 2016

Talvez o Natal seja só quando o Homem puder... querer!

   As luzes dão um brilho especial à Baixa da Cidade. Os mercadinhos de Natal, a pista de gelo, as ruas cheias de gente, os vendedores de castanhas e a árvore estrategicamente posicionada bem no meio da praça completam o cenário. Mas nem a vista privilegiada que a grande janela do seu escritório abre para toda esta beleza ajuda a Maria a reconciliar-se, um bocadinho que seja, com o Natal. Tudo a irrita nesta época: as filas intermináveis para o trabalho (que culpa tem ela que o escritório seja mesmo no centro da cidade?!), o entusiasmo da Marta (a sua colega da secretária em frente) com o espirito natalício, os filmes que invadem todos os canais de televisão. Chega o 1º de dezembro e já só suspira por janeiro!
    A magia do Natal parece, para ela, ter morrido com a avó paterna, quando tinha apenas 10 anos. A lareira enorme e os presentes ajudavam, mas eram as rabanadas da avó (“nunca mais comi umas rabanadas assim”! recorda com a voz embargada) e o seu colo (sobretudo o seu colo!) que faziam renascer, a cada ano, o espírito natalício. Depois disso, o Natal foi perdendo cor… muito à boleia da tristeza profunda da mãe que, ano após ano, fazia da consoada uma espécie de romagem de saudade à memória dos avós da Maria. O seu pai, talvez por ficar sempre muito atrapalhado com a tristeza do outro, parecia refugiar-se, cada vez mais, numa distância mais ou menos impenetrável. Anos mais tarde, os Natais na família do ex-marido eram bem mais parecidos com os que via nos filmes, em miúda. A casa estava sempre cheia: de gente, de comida e de presentes. Mas talvez o que mais a impressionasse fosse mesmo sentir a casa cheia da alegria de estarem juntos. Uma alegria em que todos (a começar pelo ex-marido) se esforçavam para a incluir. “Sabe, o ambiente era mesmo de alegria. Eu não tinha o direito de o estragar. Mas… o Afonso (ex-marido) parecia um miúdo com os olhos a brilhar. Pareciam todos. Eu fazia um esforço… mas irritava-me tanto não estar feliz. Eu acho que me irritava a capacidade do Afonso para se encantar. Ele era assim: encantava-se com o Natal, as viagens, as festas de família, o futebol, a música, os filmes… Até as habilidades do Madjer (o labrador que adotaram no canil municipal) o encantavam! Acho que foi por isso que o meu casamento acabou: há muito que não me conseguia encantar”!
   Este ano o Martim ia passar o Natal com o pai. Sem a única pessoa que a faz investir tempo e imaginação num presente (todos os outros são corridos a vales da Fnac e da Zara) os Natais são ainda mais dolorosos. Como se não bastasse ter o filho a 200 Km de distância, este ano teve de partilhar a mesa da consoada com a prima do Algarve com quem a mãe sempre a comparou. À boleia desta “intrusa”, pela primeira vez em anos, toda a família foi à missa do Galo e, depois, à festa comunitária que irradia alegria a partir de uma fogueira enorme, bem no centro da aldeia dos pais. O sorriso da mãe tantos Natais depois (resgatado pela prima do Algarve… e não por si ou pelo seu Martim), as correrias das crianças, as famílias a celebrar reencontros, os casais de mão dada… era tudo o que lhe faltava para desabar num desamparo sem fim. Chorou, desalmadamente, noite dentro até, por fim, sucumbir ao cansaço num sono sobressaltado.
   De regresso ao trabalho, foram o brilho e as histórias da Marta a fazer rebentar o dique uma vez mais. Caiu num choro desamparado mesmo ali, bem no meio do escritório com vista privilegiada para o cenário festivo da praça. Mas, desta vez, não chorou sozinha. “Chorei no abraço da Marta. E soube-me tão bem. Sabe, acho que foi o melhor abraço que tive em anos … Fez-me lembrar o abraço da minha avó”.

   Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez precisemos (todos) de quem nos mostre que, muito mais do que nunca ficar triste, vale a pena não desistir de encontrar o caminho para os abraços onde se pode chorar sem perder o chão. Talvez, assim, fiquemos (todos) muito mais aptos para nos reconciliarmos com o Natal... e com a vida! 

Feliz Natal!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O Natal tem um lado B?

Gosto muito do Natal. Sempre gostei.
Mas ao lembrar-me de algumas histórias, em que a melancolia e o sofrimento parecem andar lado a lado com o Natal, não posso deixar de me perguntar: porque é que, para tantas pessoas, parece haver uma espécie de anti-Pai Natal que, no saco, traz tudo menos magia?
Quase todos os filmes de Natal que via em miúdo tinham, de uma forma ou de outra, uma cena que sempre me impressionou muito. Tanto que as fui condensando a todas numa única imagem: um tipo a vaguear sozinho pela cidade. De passo arrastado e olhar baço, segue sem rumo. Até que pára mesmo em frente à janela de uma casa. Lá dentro, bem entre a árvore e a lareira (não vão os presentes fugir!) os miúdos ouvem as histórias que só o avô sabe contar, enquanto os pais, os tios e os primos mais velhos britam nozes, comem doces e brindam com o melhor vinho tinto da garrafeira da família. Os olhares brilham. Todos os olhares brilham. É noite de Natal!
Mas porque é que há alguns olhares que teimam em fazer de tipo que olha de fora da janela, e ficam ainda mais baços no Natal?!
 Mas porque é que a “magia” do Natal parece acentuar o desamparo no olhar de quem, na melhor das hipóteses, tem quem lhe embrulhe, com enfado, o mesmo presente todos os anos, mas nunca, nunca, é capaz de lhe “contar histórias” ou de lhe arrancar um “brilhozinho nos olhos”?!
Mas porque é que, às vezes, o Natal parece pôr a nu uma fratura demasiado profunda entre as luzes, o presépio, o senhor de barbas brancas que carrega um saco vermelho do tamanho dos desejos das pessoas de todas as idades… e o acumular dos imensos pequenos grandes nadas de quem nunca se sente olhado nos olhos?!

Mas, se até o avarento e gélido Mr. Scrooge, do Dickens, se deixou contagiar pela magia do Natal, talvez o Pai Natal, a esperança e o menino Jesus renasçam um bocadinho de cada vez que dois olhares desembrulhados olham bem dentro um do outro.