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domingo, 3 de setembro de 2017

Norma 4.0: o insustentável peso do dever!

  Sempre recaíram sobre si grandes expectativas e, em boa verdade, uma espécie de pressão alta para não manchar o bom nome da família. Talvez por isso, a Sofia foi crescendo mais habituada aos quadros de honra e aos elogios de professores e contínuos, do que às correrias do recreio. Não viriam a ser muito diferentes os tempos da Faculdade: dominava as sebentas e os apontamentos, mas sobre a organização do curso (contestada por muitos dos seus colegas), a subida das propinas ou o corte nas bolsas, que atirou alguns dos seus colegas para fora da Universidade, não tinha muito a dizer. Apesar de ser a distribuidora oficial de resumos impecavelmente organizados e, de com isso, ter aproximado muitos dos seus colegas (que, de resto, a olhavam com um certo respeito) parecia guardar sempre uma distância de segurança. Era agora (que estava longe dos pais), mais do que nunca, assolada por uma espécie de fantasma mais ou menos omnipresente: O que é que as pessoas iam dizer? Como se não se sentisse no direito de ir além, um bocadinho que fosse, do escrupuloso cumprimento das expectativas que, desde cedo, se habituou a seguir sem (aparentemente!) questionar.
  A conclusão do mestrado levou-a a uma empresa de renome. E a nunca menos de 12 horas de trabalho diário, mal remunerado (bem-vinda a este enorme “avanço” civilizacional em que se tem transformado o mercado de trabalho para jovens, no século XXI). Sempre disponível (muito mais do que qualquer um dos colegas com quem entrara na empresa) – para trabalhos (não remunerados) ao fim-de-semana, tarefas extra e telefonemas fora de horas, vivia exausta. Dava, ainda assim, por si a ser a primeira a oferecer-se para qualquer tarefa suplementar. E a zangar-se furiosamente (para dentro, claro está!), de cada vez que não sentia o seu esforço reconhecido. Toda esta ira, todavia, rapidamente se transformava num misto de contentamento e culpa (e em maior disponibilidade para o trabalho…), sempre que surgia um elogio das chefias; ou num sentimento de exaltação, sempre que os pais expunham, junto de tios e primos, o seu percurso académico e profissional sem mácula (ainda que, claro, não lhe pagasse as contas…). O ciclo (vicioso) ia-se renovando a cada ano, até que, o afastamento da Filipa (única amiga que ia mantendo por perto) a promoção da Carla (para a função que ela própria ambicionava) e a transferência do Francisco para a mesma função (bem remunerada, agora) numa empresa da concorrência, parecem ter ajudado a precipitar uma queda depressiva que a todos surpreendeu. A todos menos à Sofia que (fosse com as insónias; as constantes dores musculares e de cabeça que nenhuma condição médica, felizmente, justificara; o olhar cada vez mais mortiço; o distanciamento dos amigos e colegas; a hiperatividade laboral ou a ausência de fontes de prazer) há anos dela dava sinais mais ou menos encriptados. A todos menos à Sofia que (fosse com a distância de segurança que, ao deixá-la cada vez mais sozinha, em bom rigor, a foi expondo mais do que protegendo do sofrimento; fosse com o modo como foi pondo sempre o cumprimento da norma e da expectativa à frente da subjetividade e da autonomia, ou com a exaltação narcísica que retirava de cada elogio ao seu percurso certinho) há anos dela procurava fugir.

  Talvez seja sempre um bocadinho assim quando, invariavelmente, nos “protegemos” do que nos magoa e assusta com aquilo que, ao mesmo tempo, nos afasta do melhor das nossas competências. Esta espécie de patologia da adaptação (com que Sami-Ali enfatizou os perigos da substituição do imaginário e da subjetividade pela norma e pelo banal) ou de falso self (com que Winnicott enfatizou a força patogénica da adaptação excessiva à norma) até pode aportar, num primeiro momento, ganhos académicos e profissionais (e injeções de autoestima a eles associados). Mas parece, a prazo, desvitalizar a relação com o outro e com o mundo, deixando as pessoas mais à mercê do imenso e profundo vazio que este ciclo vicioso parece ir, paulatinamente, cavando (e que quaisquer circunstâncias dolorosas de vida acabarão, provavelmente, por desnudar). A ser assim, talvez só as relações que (re)criam mais do que repetem (a norma e a expectativa) possam preencher esse vazio com (inter)subjetividade, imaginário, espontaneidade, autonomia, conflito, diferença, desejo, esperança, projeto e ação intencional, preenchendo de vida (e de Amor!) as vidas!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 23 de julho de 2017

Mas afinal, para que servem as férias?

  Muitos são os que, por esta altura, vão suspirando pelas férias, enquanto vagueiam pelas fotos de areias finas e águas cristalinas, que teimam em invadir as redes sociais.  
   Com o Bernardo parece ser um bocadinho diferente. Casado e pai de duas filhas, não gosta das férias: “tirar férias é um tormento. Todos os anos vamos de férias para o Algarve. Quinze dias. A minha mulher e as miúdas querem ir para a praia, passear na marina à noite, fazer churrascos, essas coisas… Eu não aguento!Tenho de trabalhar! As coisas ficavam atrasadas. Quinze dias sem fazer nada é muito tempo. E elas depois andam sempre de má cara porque quero ficar em casa a trabalhar. Não entendem”.
   O Bernardo é um profissional de sucesso. Trabalhador incansável, tem uma vida financeira estável, que lhe permite manter uma boa casa, um carro familiar de alta cilindrada e um outro utilitário, uma casa de férias no Algarve, colégios caros e atividades extracurriculares para as filhas.
  Mas não só as férias que o inquietam. Os sábados passa-os a trabalhar. Aos domingos, depois do jogo de vólei das filhas (passado, claro, a responder a e-mails de trabalho no i-phone) e do almoço na casa dos pais ou dos sogros, esquiva-se para o escritório lá de casa, adiando, uma vez mais, o passeio de mão dada com a mulher, ao entardecer.
  À noite, por muito cansado que esteja, tem quase sempre grandes dificuldades em adormecer. Ao ar amuado da mulher por (quase) nunca o sentir ali, realmente perto dela, juntam-se as mil e uma preocupações de trabalho. Estão sempre presentes, mas teimam em agudizar-se quando apaga a luz.

  Talvez o que o Bernardo queira dizer com o seu apelo, mais ou menos encriptado, seja qualquer coisa como: transporto tanta angústia dentro de mim, que temo que a única forma de a ir fintando seja esta espécie de hiperatividade funcional. Parar (seja para estar na praia ou numa esplanada a gozar a brisa do entardecer) é ser, brutalmente, invadido por ela. Talvez o que o Bernardo queira dizer com o seu apelo, mais ou menos encriptado, seja que este registo agitado e hiper-funcional em que tem estado mergulhado, ao mesmo tempo que vai (cada vez menos) fintando a angústia, o vai afastando, cada vez mais, de quem (a mulher, as filhas, os pais, os amigos…) o pode ajudar a transformar a angústia em palavras, as palavras em histórias e as histórias em vida. Talvez o que o Bernardo queira dizer com o seu apelo, mais ou menos encriptado, não ande longe de um: ajude-me a entender e a transformar toda esta angústia, para parar de, à boleia do trabalho, fugir dela e, com isso, afastar quem (a mulher, as filhas, os pais, os amigos, etc.) me pode ajudar a desfrutar do trabalho, da esplanada, do pôr-do-sol… da vida.

  Num mundo muito centrado na ideia de sucesso, corremos o risco desta espécie de hiperatividade funcional ser valorizada. Num primeiro momento até pode, de facto, representar ganhos de produtividade. Mas é insustentável a prazo. Correr por gosto não cansa. Já correr por medo (o medo de que à falta de um registo híper-funcional que a sustenha, a angústia tome conta de tudo), tenho para mim, dá maus resultados, a prazo. Talvez por isso o ócio (dos passeios de mão dada na brisa da tarde, às jantaradas de amigos, passando pelas reuniões familiares ou pelo dolce fare niente) seja fundamental para nos apaixonarmos pelo trabalho, pelo prazer, pelas pessoas e pela vida!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais, está muito longe de corresponder a uma descrição literal.