domingo, 27 de março de 2016

A vida é um milagre!

   A Sara entrou na copa e com aquele olhar brilhante só dela pergunta-me, do nada: “acreditas em milagres?”. Na altura, os milagres eram, para mim, quando muito uma espécie de bruma de um passado que não volta. Entre as saudades imensas de uma grande paixão que acabou (muito contra a minha vontade) com a transparência cristalina com que começara, e o namoro com a Francisca que, valha a verdade, começou a morrer mesmo antes de nascer, aquilo que mais se aproximava de um milagre na minha vida, por aqueles dias, eram os longos cafés com a Sara, superados só, claro, pelos intermináveis, mas cada vez mais raros, telefonemas com a Inês (a grande paixão que terminou muito contra a minha vontade, com a transparência cristalina com que começara). Ainda assim, servindo-me descaradamente do filme do Kusturika, que tinha visto uns meses antes, atirei, com o meu ar mais sedutor (se é que se pode ser sedutor sem acreditar em milagres): A vida é um milagre! Se eu, na altura, fosse tão transparente como a Inês me mostrou, de uma forma visceral, que era possível ser (ser-lhe-ei eternamente grato por isso) não me teria acanhado quando, a caminho da praia, para mais um café de fim de tarde com a Sara, passou no rádio do carro aquela música extraordinária do Martinho da Vila com a Kátia Guerreiro, dando o mote para uma proximidade impossível de disfarçar. Se eu não tivesse, na altura, tanto medo de milagres… Sabe, acho que vinham daí as minhas insónias, a minha tristeza, a minha insegurança… acho que vinham do raio do medo de ir além dos meios milagres. Mas sabe, eu agora acho que já acredito mais vezes em milagres. E então agora que é desta que parece que nos deixámos de tretas e me entendi de vez com a Rita. Sabe, acho que ela é uma espécie de síntese para melhor de tudo o que de bom tinham as minhas outras namoradas. Pode parecer estúpido, mas percebi isso quando ela se sentou ao meu lado, no sofá do hotel, bem agarradinha a mim, a ver o jogo de futebol comigo, com aqueles olhos grandes a brilhar, a brilhar. E esta semana, no sábado, fez-me uma à filme: pediu-me para ir buscar o vinho à dispensa enquanto ela nos servia o jantar. Quando cheguei, pronto a fazer um brinde, tinha no meu prato os bilhetes de avião e dois bilhetes para o Nick Cave em Londres, enquanto ela trauteava o Into my arms. Com uma mulher destas posso lá eu não acreditar em milagres?!
Lá no Banco é que eu acho que não vão muito em milagres e as rescisões vão mesmo avançar! Fiquei com uma fúria! Andei estes anos a virar-me em masters e pós-graduações, a dar couro e cabelo por aquele banco e agora o melhor que mereço é a azeda oficial dos recursos humanos a dizer-me: tem sorte enquanto vai ter indemnização e subsídio de desemprego! Entre partir-lhe a cara e ir, de vez, fazer a viagem dos meus sonhos com a Rita… é desta que vamos à Argentina. Comprámos os voos ontem, via Barcelona. Ficamos cinco dias em Buenos Aires. Eu sempre quis dançar tango em Buenos Aires! E depois descemos de autocarro para a Patagónia, Estreito de Magalhães, Terra do Fogo… desde que vi um documentário com o meu pai que sempre fui dizendo… um dia, um dia. Pois hoje é o dia!
  Uns meses depois, tinha, na caixa de correio do consultório, uma carta com remetente de San Martin de los Andes (uma cidadezinha da Patagónia Argentina, soube, depois de pesquisar no google). Era um postal do Luís que dizia: “Depois de tudo, começar a arriscar desarrumar a minha vida ajudou-me a deixar-me de meios milagres. Vista dos Andes, a vida é (ora mais simples, ora mais dura) mesmo um milagre!”. Meses mais tarde, agora por e-mail, o Luís conta-me, orgulhoso, que conseguiu um bom emprego numa consultora financeira, em Londres, e a Rita um lugar bem pago, num hospital a meia-hora da cidade. 

   Acho que o Luís, ao me ter dado o privilégio de assistir, ao vivo e a cores, à construção lenta (com muitas dúvidas e dor à mistura) do seu milagre, me ajudou a acreditar mais vezes em milagres! Fico-lhe muito grato por isso!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

terça-feira, 15 de março de 2016

De tanto querer bater baixinho…o meu coração não pára de me sobressaltar!

A Maria é enfermeira no Serviço onde entrara há 14 anos, com a insegurança natural do primeiro emprego. Já assistiu a recuperações quase milagrosas e já se enterneceu com os gestos de bondade e gratidão dos seus doentes e familiares, ou com a solidariedade desprendida de um outro colega. Mas, vezes sem conta, já se sentiu atropelada por uma tristeza sem fim, ao assistir, impotente, ao desmoronar, lento ou súbito, de vidas e famílias. Vezes sem conta, já se sentiu profundamente magoada pela ira de doentes ou familiares ingratos ou de chefes prepotentes. Vezes sem conta, já se sentiu invisível na hora de receber os louros que, por elementar justiça, seriam também seus. E vezes sem conta, calou a tristeza, a raiva ou o medo. É preciso correr. Passar no supermercado. Ir buscar as miúdas à escola. Fazer o jantar. Dar um jeito à casa até, por fim, entrar de novo no hospital, para mais uma noite entre gemidos de dor e desamparo. Muito cansada prefere, ainda assim, os turnos agitados. O silêncio e a calma trazem-lhe de volta a tristeza, a raiva, o medo… e, com eles, a culpa, como se, por algum motivo, não estivesse autorizada a sentir!
   Ao António sempre inquietou a ideia de dor e de morte. Imaginando o ruído que a proximidade diária com elas poderia causar na paz interior da mulher por quem se apaixonou ainda na Faculdade, tentava, com insistência, dar colo e espaço para a Maria “chorar” as perdas do Hospital, e as outras, as da vida. Mas isso foi há muitos anos. A Maria nunca foi muito de se abrir. Assustava-a a ideia de se confiar a um colo… mesmo que fosse o do marido, que sempre soube ser confiável. Desde pequenina que se foi habituando a guardar para si as tristezas, as revoltas, as mágoas e os azedumes. Desde pequena que se foi habituando a ser paciente e calma, a nunca perder a cabeça um bocadinho que fosse. Um bocadinho ao jeito das crianças pequenas que, quando começam a brincar às escondidas, tapam a cara com as mãos, na esperança de que deixem de ser vistas, a Maria foi agindo como se acreditasse que ao fingir com muita força que não sentia, talvez as tristezas, as raivas, os desamparos, as culpas e os desencontros desaparecessem, como que por magia. Foi assim durante anos e anos a fio. Até que, subitamente (quase nunca é subitamente!), e sem nada que o fizesse prever (como se anos e anos a tentar reiteradamente fintar o que sente não trouxesse, mais tarde ou mais cedo, uma fatura a pagar… para além da que se vai pagando dia após dia), a Maria calma e paciente parece uma bomba relógio, pronta a rebentar ao mais leve deslize das filhas, ao mais bem-intencionado apelo do marido ou à mais natural interpelação das colegas do Hospital. Como se isso não bastasse, vieram as crises de angústia, em catadupa, e com elas, os medos, uns atrás dos outros.

 Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez sempre que façamos, insistentemente, por amordaçar a sabedoria do corpo, sinalizando como perigosas as emoções que nos protegem e que (qual GPS de última geração) nos guiam os passos, tarde ou cedo, ela acabe por se fazer ouvir! Até podemos varrer as emoções continuadamente para debaixo do tapete (onde causam muito mais ruído do que nos iluminam o caminho) durante algum tempo mas, quando assim é, creio que de tanto as tentarmos domar (em vez de as pensar e gerir), acabamos (à custa de muito ruído) domados por elas! O grande desafio talvez seja, então, o de encontrar o espaço relacional que as possa viver sem soçobrar. O grande desafio talvez seja, então, o de encontrar o espaço relacional que as possa pensar e integrar (ligando os fragmentos dispersos das histórias que vivem dentro de nós), para que possam recuperar, primeiro, e refinar, depois, o seu papel de farol que nos ilumina o caminho. 

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

As vidas têm pessoas dentro!

   Fomos aprendendo (muito em especial com os psicanalistas das relações de objeto) que o que somos deriva, em boa medida, da forma – ora mais serena, ora mais turbulenta – como dialoga a complexa rede de pessoas diferentes que guardamos dentro de nós.
Umas fazem de figurantes com mais ou menos pinta; outras de estrela polar ou de farol; umas fazem de pirilampo, outras de papão; umas fazem de assombração ou alma penada. Umas fazem-nos sentir, na melhor das hipóteses, entre o purgatório e o inferno. Outras mostram-nos o caminho para o céu. Outras, (melhor ainda!) fazem-no acontecer.
Acho que algures dentro de nós há um sítio, uma espécie de praça enorme e cosmopolita, onde convive toda esta gente. Umas nas filas da frente, outras no meio da multidão, outras ainda com o rosto desfocado já. Mas estão lá todas.
Moram lá as pessoas que, quais pirilampos, tão depressa nos tratam com uma gentileza desconcertante, como a seguir conseguem ser de uma frieza gélida. Moram lá as pessoas ao pé das quais, invariavelmente, nos fomos sentindo pequeninos, presos, medrosos… bem longe do melhor de nós, portanto. Moram lá as pessoas que, em tempos, nos fizeram brilhar os olhos ao indicarem-nos, à distância, o caminho para o céu, mas que se perderam pelo caminho. Moram lá as pessoas que foram tão visceralmente transparentes connosco, mesmo em circunstâncias muito difíceis (ligando, com uma humanidade à prova de bala, aquilo a que Bion chama os vínculos do amor e do conhecimento), que – mesmo tendo bifurcado caminhos - nos acompanham (por dentro) vida fora, qual estrela guia, para nos lembrarem que o céu existe mesmo. Moram lá as pessoas cujo brilho nos olhos não ia muito além do reflexo do brilho do nosso encantamento por elas (muito ao jeito do retrato de Dorian Gray, mas ao contrário). Moram lá as pessoas que, tendo sido muito importantes para nós, acabaram, por um ou outro motivo, por nos decepcionar profundamente. Às vezes, insistem, ainda assim, em pairar sobre (quase) tudo, qual fantasma mais ou menos omnipresente. Outras, felizmente, vão direitinhas das primeiras filas para uma espécie de despensa, de onde reaparecem de vez em quando, ora para nos lembrarem (qual sinal de STOP) tudo o que não queremos para nós, ora para nos recordarem (qual sinal de avançar a todo o vapor) todos os aspetos que admirávamos em si. 
 Moram lá as pessoas que, de descuido em descuido, são despromovidas devagarinho até se tornarem numa espécie de figurantes com rosto desfocado. Moram lá as pessoas que, de gesto de bondade em gesto de bondade, sobem a pulso das distritais até à Champions das nossas vidas. Moram lá as pessoas que, com o seu amor e admiração, nos fazem sentir o "special one", ao mesmo tempo que, de cada vez que abusamos na vaidade, nos põem no lugar e nos lembram que somos só um em milhões com o coração no sítio e os neurónios a funcionar. Moram lá as pessoas que foram tendo inúmeros atos generosos para connosco, dos quais não soubemos, à época, estar à altura e, por isso, só sossegámos dentro de nós, quando fomos capazes de um pedido de desculpas sentido, honesto, transparente. Moram lá as pessoas que, já estando na linha da frente, ainda têm a capacidade de nos surpreender com a sua transparência e bondade, saltando das 1ª filas para o centro do palco, com todos os holofotes sobre si. Moram lá as pessoas que, lendo-nos até às entranhas, nos puxam para si com tal amor que fazem brilhar o nosso olhar no delas, mostrando-nos que o céu, muito mais do que uma questão de fé, somos nós, juntos.


 Acho que somos decisivamente influenciados por esta espécie de globalização que acontece, a cada momento, dentro de nós. Talvez seja a forma como permitimos que este diálogo cosmopolita se torne cada vez mais fluído, inclusivo e transparente - pondo todas as personagens (tão diferentes entre si) do nosso mundo interior (e exterior) à discussão – que faz realmente a diferença nas nossas vidas. Talvez seja isso que nos faz correr para quem nos ajuda a encontrar e a construir o caminho para o céu, e nos afasta de quem, na melhor das hipóteses, nos deixa às portas do purgatório. Talvez seja isso que nos afasta da saudade depressiva do: “o melhor da vida já lá vai” e nos empurra para a ânsia de viver aqui e agora, com saudades do futuro. Afinal, o melhor da vida está mesmo ali, ao fundo da avenida. Mais coisa, menos coisa. 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

E se falássemos do medo?

  A Maria tem medo. O Manuel, o Francisco e o vizinho da frente também. Mas a Maria parece tolhida, dominada por ele. Tem medo de perder o emprego. Apesar de ter uma situação contratual estável, de ser uma profissional competente e de ser um quadro valioso para a empresa, tem medo que o novo chefe lhe faça a folha. Tem medo do terrorismo. Por isso, com uma culpabilidade do tamanho do mundo, não conseguiu ficar feliz quando o marido colocou no tabuleiro, em que lhe levou o pequeno-almoço à cama, bem entre os croissants e a meia de leite, dois bilhetes para Paris. O medo de andar de avião transformou-se em pânico. Por isso, trocou a viagem à Capadócia que o marido tinha ganho como prémio de produtividade, por uns dias na aldeia onde crescera. O gozo que lhe dava aproveitar a lareira e o abraço do marido, enquanto a chuva batia violenta nas vidraças, transformou-se numa espécie de estado de alerta permanente, que a faz acordar, assustada, a cada rajada de vento mais forte. O prazer (que misturava serenidade com cabelos em pé) de ser mãe tem-se vindo, paulatinamente, a transformar em culpa e em medo: medo de falhar, de não ser suficiente, de ser ausente, de não ser capaz. O gozo de fazer compras no centro comercial ou na Baixa da cidade já foi, também ele, tomado pelo enorme desconforto que começou a sentir no meio das multidões.
 “O medo está-me a roubar a vida! Tenho medo de tudo!” sintetiza a Maria.

  O medo é um recurso inestimável. Graças a ele, a Humanidade foi, desde sempre, escapando aos mais variados perigos (dos animais da selva aos grupos de bandidos que atacavam em lugares ermos). Graças a ele, poupamos, todos os dias, uma série de disparates. Mas, se o medo pode ser protetor nas mais variadas circunstâncias, tornar-se-á paralisante sempre que mina, por dentro, o entusiasmo, a iniciativa e a esperança. Lembro-me sempre, a este propósito, de uma cena muito bonita de O Talentoso Mr. Ripley : uma pianista prodigiosa e muito aclamada senta-se ao piano para dar início a um concerto muito importante. Ao perceber que o companheiro não está na plateia fica profundamente triste e muito, muito insegura. Minutos depois, quando ele chega, já atrasado, ganha uma “nova alma”, e volta a ser a pianista talentosa, criativa, segura e entusiasmada que a faz ter admiradores por todo o mundo. Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez a questão nem sempre deva ser: como é que se pode deixar de ter medo? Talvez faça sentido pararmos para perguntar: como é que nos podemos (re)encontrar com as histórias que moram dentro de nós, a ponto de percebermos ao pé de quem (dentro de nós) é que nos sentimos suficientemente seguros para, apesar do medo, das dúvidas e das inseguranças, avançarmos com bravura?

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O balão do João: coragem e outros medos!

  O João tem uma mão cheia de Kgs a mais e é demasiado preso de movimentos para ser bom a jogar à bola. Nas aulas, o rubor toma conta de todo o seu rosto só de imaginar que um Professor o pode interpelar para ler um texto em voz alta, ou para ir ao quadro resolver um exercício. O Manuel e o Francisco, intuindo o pouco à vontade do João, não perderam tempo. Começaram a ridiculariza-lo, levando consigo uma parte muito significativa da turma. Chamavam-no vermelhão, a princípio. Depressa recuperaram o hit da Fafá de Belém, cantando em coro: “vermelho, vermelhusco, vermelhão” de cada vez que o João passava. Estenderam, depois, os mimos à pouca destreza física que o João expressava nas aulas de Educação Física e, daí, à forma atrapalhada como se relacionava com as raparigas.
  A cada dia que passava, mais o caminho para a Escola parecia uma espécie de via verde para a “tortura”. O João ia procurando ocupar o menos espaço possível (quem lhe dera ser invisível), mantendo o seu sofrimento em segredo. Tinha vergonha. Muita vergonha. A sua autoestima andava, por aqueles dias, pelas ruas da amargura. Até as notas que, apesar de tudo, a iam alimentando começariam a ressentir-se em breve. Temia, porventura, sentir-se mais ridículo, fraco e desamparado ainda, se procurasse ajuda nos pais ou num ou noutro Professor. Sentia-se uma fraude, “um fraco”, “um pilinhas”. Tudo o que queria era ser um vencedor aos olhos dos pais. E da Joana, do canto da sala que, por mais que uma vez, ousou defendê-lo contra as investidas de boa parte dos colegas.
 Para além disso tudo, inevitavelmente, alimentava um “odiozinho” de estimação silencioso para com o Manuel e o Francisco, dois franzinotes com ar de rufias.
           
  O João precisa de ajuda. Precisa de quem o proteja, em primeiro lugar, pondo no lugar quem usa e abusa das fragilidades do João para esconder e acalmar as suas. Precisa de quem, ao ajudá-lo a descodificar o que sente, o ajude a perceber que só se é verdadeiramente um vencedor para alguém quando há, na relação, um lugar para expor e olhar de frente as fragilidades. Precisa de quem o ajude a perceber que, sem esse espaço de intimidade, até se pode fingir bem, mas talvez nunca se seja verdadeiramente seguro de si. Precisa de quem, ao ajudá-lo a descodificar o que sente e a passar daí às ações intencionais, o ajude a perceber que, mesmo com todas as fragilidades e medos do mundo, tem mais do que qualidades para ser o vencedor junto dos pais, das Joanas que lhe aparecerão vida fora e de todas as pessoas que se vão deixar encantar pelas suas qualidades e fragilidades. Precisa de quem, ao ajudá-lo a encontrar-se no que sente e a daí retirar contrapartidas práticas, o ajude a usar as suas qualidades para aprender a pôr no lugar os Manéis e os Franciscos da sua vida. Precisa de quem o ajude a puxar pelas suas competências, percebendo, por exemplo, que até pode não ser um Messi dos recreios, mas que o porte físico considerável e a velocidade não desprezável podem ser uma grande vantagem competitiva no rugby ou em muitos outros desportos. Estará assim, creio, muito mais perto de se sentir (entre o medo e a audácia, as vitórias e as deceções) capaz de, com entusiasmo, nunca desistir de (re)encontrar o caminho para se sentir o vencedor no coração de todos aqueles que mais importam.


Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Isso é tudo muito bonito, mas como é que um psicólogo pode ajudar?

   Isso é tudo muito bonito, mas como é que um psicólogo pode ajudar? Pergunta a Marta, num tom provocatório, mas apelativo, de quem puxa para a relação.

 Talvez o imaginário coletivo esteja, ainda, em alguns aspetos, demasiado dominado por uma ideia positivista de ciência. Talvez a ideia de saúde mental esteja, no imaginário coletivo, ainda muito associada a um modelo biomédico de causalidade linear, em que um sofrimento mental ou uma característica de personalidade só podem ser determinados, de forma direta e inequívoca, por umas quantas reações bioquímicas que acontecem no cérebro, de forma disfuncional. Talvez haja, ainda, demasiado a ideia de que estes desequilíbrios nos circuitos cerebrais só poderão dever-se a um fardo genético, impossível de contornar. A ser assim, a única via para corrigir “desequilíbrios cerebrais” e suster o sofrimento seria a medicação.
  Mas felizmente, somos um bocadinho mais complexos do que isso! Felizmente, poucas serão as características humanas (as referentes ao funcionamento mental, muito em especial) que se explicam por uma genética Mendeliana, de transmissão direta. Vimos, felizmente, equipados de base com um código genético que, naturalmente, baliza, em muitos aspetos, o nosso desenvolvimento. Mas estará longe de o determinar por si só. Como me parece decorrer de alguns estudos, muito mais do que um veículo determinista de transmissão direta de características, a genética imbricar-se-á numa teia complexa de relações com o meio, as oportunidades educativas e o calor afetivo e relacional, para condicionar o desenvolvimento. Há mesmo estudos que sugerem que a experiência pode alterar a expressão e, porventura, até alguns aspetos da própria organização do ADN de algumas células.
  Parece, de algum modo, funcionar do mesmo modo, se tomarmos como lente as Neurociências. Naturalmente, a atividade cerebral determina, em larga medida, a nossa experiência. Mas, contrariando a causalidade linear do modelo biomédico, parece haver um mínimo consenso comum em vários estudos das Neurociências: a experiência e as relações humanas influenciam, elas próprias, aspetos muito importantes do funcionamento cerebral !!! É o que parece, por exemplo, decorrer de um estudo recente, em que pacientes deprimidos pareciam, ao fim de um punhado de meses de psicoterapia dinâmica, não só melhorar significativamente os sintomas depressivos, como normalizar o funcionamento do sistema límbico (muito associado ao processamento das emoções).

  Quero, com isto, dizer que a herança genética ou a biologia cerebral não são muito relevantes no desenrolar da vida mental, ou que a medicação não pode ser muito útil para suster o sofrimento mental, nas mais variadas circunstâncias? De modo nenhum! Acho é que a complexidade humana não se coaduna com uma lógica de causalidade linear. Há mais de 100 anos aprendíamos com Freud que a nossa vida é mais condicionada por emoções que fazemos por não pensar do que o que aquilo que possa parecer. Com Spitz e Bowlby, por exemplo, aprendíamos, há várias décadas, que as falhas relacionais graves têm um efeito devastador no desenvolvimento humano. Com os cognitivistas, fomos aprendendo, entre outras coisas, que as experiências de vida podem moldar o modo como aprendemos a pensar em diversas situações. Os modelos sistémicos trouxeram-nos, entre tantas outras coisas, a ideia de comunicação, complexidade e causalidade circular, mostrando-nos que tudo está ligado com tudo. Com Bion e tantos outros psicanalistas, aprendemos o lugar central da relação na construção da saúde mental, mas também do sofrimento, ideias permanentemente recriadas, aprofundadas e enriquecidas por tantos outros, nos nossos dias (demonstrando, por exemplo, a importância da relação na vida intra-uterina).

  A ser assim, se tentarmos intersetar várias portas de entrada, talvez possamos dizer que, em muitas circunstâncias, a angústia, a ansiedade, a insegurança, o medo ou os sintomas depressivos, por exemplo, decorrerão tanto de equívocos e desencontros continuados na relação com o outro e com a verdade do que se sente (ou de experiências mais ou menos traumáticas) como de desequilíbrios bioquímicos (que, muitas das vezes, mais do que causa, serão, porventura, o correlato biológico do sofrimento). É aqui que, a meu ver, entra a utilidade de diversos modelos e técnicas de acompanhamento psicológico. Não só como um espaço em que as pessoas podem genuinamente ser ouvidas e escutadas. Mas (talvez o aspeto mais diferenciador), enquanto espaço criativo em que a pessoa pode viver “na pele” a experiência de haver alguém ao pé de quem é possível sentir, sem claudicar, as angústias de que vai procurando fugir (por as sentir insuportáveis ou demasiado dolorosas, por exemplo), ao mesmo tempo que se compreendem, legendam e ligam com os aspetos essenciais da sua vida. Esta nova relação, ao desconstruir alguns aspetos dos padrões com que há muito a pessoa se vai colocando nas relações (e que, em boa medida, para o bem e para o mal, a trouxeram até ao ponto onde se encontra), funcionará, assim, como uma espécie de tubo de ensaio para uma relação mais clara e genuína com aquilo que sente (procurando pensar as emoções em vez de, continuadamente, as tentar silenciar), o que não deixará de se traduzir nas relações da “vida real” (tornando-as mais confiantes e confiáveis, mais criativas, assertivas e próximas) com as pessoas, o trabalho, as desilusões, a esperança ou o desejo…

(Este texto resulta, em boa media, do revisitar, com uma nova roupagem, de um texto que escrevi há um punhado de meses: AQUI)   


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

(des)Amor e outros perigos!

Tinha 16 anos e muito menos desenvoltura do que hoje. Bem no canto mal-afamado das traseiras do pavilhão B, muito a medo, a Maria beijou, pela primeira vez, o Ricardo. Ele estava longe de ser um poço de ternura ou de ter um décimo do charme dos galãs dos filmes que consumia vorazmente. Mas tinha um estilo de fora da lei que a puxava. Era uma espécie de atração fatal. “Para uma menina demasiado certinha como eu, mas com a cabeça cheia de fantasmas, acho que o Ricardo era a oportunidade de desalinhar, da menina exemplar mandar à fava a pressão e sentir a adrenalina do perigo nas veias. Era uma maneira de pecar, de passar ao ato uma pequeníssima parte dos pecados que me passavam pela cabeça. Mas talvez fosse, também, uma maneira de me penitenciar, de me punir por isso. Talvez por isso lhe tenha aturado tanto, durante tanto tempo. Ele tratava-me mal. Humilhava-me…”. Quando terminou com ele, muitas zangas e recomeços depois, já no 4º ano da Faculdade, jurara a si mesma: “nunca mais me meto com um tipo assim”. O Bernardo veio mais de dois anos depois, já a Maria tinha iniciado carreira na Consultora. Era um tipo muito mais polido e atencioso, no início. Tem mais mundo e parecem ter, de facto, um ou outro ponto em comum. Mas, o príncipe foi virando sapo (talvez seja sempre um bocadinho assim quando o ressentimento vai tomando o lugar dos beijos e abraços apaixonados): “Não me maltrata ou humilha tão abertamente como o Ricardo, mas a cascata de elogios e romantismos dos primeiros tempos, depressa se tornou num rol de críticas: críticas à minha postura ao pé dos pais, dos amigos, do empregado de café lá do bairro. Críticas à minha comida, à roupa, ao cabelo novo, à organização da casa. Aos meus 5 Kgs a mais. A tudo! E sabe, o que é mais irónico é que eu acabo sempre a insultá-lo por dentro… e a pedir-lhe desculpa por fora. A seguir fico tão atordoada que me sinto híper-culpada … Não sei se por medo de o perder, por culpa ou lá pelo raio que é… acabo a mimá-lo mais e mais. Para o compensar dos insultos que não lhe disse. Ele aproveita para me fazer pedir desculpa mais 10 vezes pela minha postura com ele, com os pais dele, os amigos dele, o homem do café, e o raio que o parta! Tudo, tudo, se repete! De uma forma mais refinada e nem um bocadinho “fora-da-lei”, mas continuo a sentir-me a menina humilhada do canto mal-afamado das traseiras do pavilhão B. Sempre entre a fúria que escondo, a culpa de ficar furiosa, a solidão de me sentir um lixo e o amor. Eu sei lá se é amor! Se fosse amor eu não chorava todos os dias, dia após dia! Eu sei lá o que é o amor! Eu já não sei nada! Porque é que a minha vida é tão complicada?!”
   Reencontrara, no Verão passado, o Nuno. (de quem a Maria se tinha afastado, assustada, com os seus movimentos encantadores de fazer babar qualquer mulher). “Continua bonitão e cuidadoso. Um verdadeiro gentleman. Mas os olhos dele brilham mais. Está mais confiante. Mais gingão. Mais homem. Desde esse dia que me vem à cabeça de quando em vez. Bem, na verdade, mais do que de quando em vez. Na verdade, na verdade, muito mais do que de quando em vez. Até já sonhei com ele. Várias vezes!”

   Talvez o que a Maria esteja a querer dizer é que, no fundo, talvez saiba o que é o amor e que, por isso, pediu ajuda para se (re)encontrar, dentro de si, com a transparência e a coragem que precisa para perseguir uma vida cheia. Ora mais simples, ora mais dura, mas cheia!
  Talvez o que a Maria esteja a querer dizer, ainda, é que está muito magoada com os Ricardos e os Bernardos da sua vida, mas que também está muito amargurada consigo própria. Por repetir, de formas diferentes, a batota de fingir acreditar que o amor é, na melhor das hipóteses, uma bebedeira de adrenalina (a que se segue, invariavelmente, a ressaca) ou, quando muito, o prémio de consolação (de uma castração constante de quase tudo o que é) ser preferível ao vazio de estar sozinha. Talvez o Nuno, qual estrela guia, tenha (re)aparecido (de dentro de si) naquela noite de Verão (e nos sonhos de Outono que se lhe seguiram) para lhe recordar o que ela há muito já sabe: que, no amor, a adrenalina não vem do perigo, e muito menos da culpa, da humilhação ou da dor; que o amor obriga a pormo-nos em causa e a repararmos erros, mas nunca a carregarmos às costas o peso do mundo e da violência velada de se tentar ser alguém que se não é. Talvez o Nuno, qual estrela guia, tenha (re)aparecido (de dentro de si) naquela noite de Verão (e nos sonhos de Outono que se lhe seguiram) para lhe recordar que sempre que duas pessoas fazem da relação o lugar seguro onde os dois podem, a uma só voz, serem iguais a si próprios - compatibilizando, numa só relação, colo e desejo, cuidado e exigência, adrenalina e quietude - talvez se esteja muito mais próximo de viver um grande amor! 
   
Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.