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segunda-feira, 15 de março de 2021

Um toca e foge à espera de quem o segure!

   A inteligência, o jeito despachado e a competência têm-lhe vindo a garantir a progressão profissional que ambiciona. Mas, na vida pessoal, tudo lhe parece emperrar muito mais do que a conta. Passou meses a suspirar, em surdina, pelo Francisco, o colega da secretária do lado, de quem se foi aproximando. Os fins de dia passava-os a espreitar o telemóvel a cada cinco minutos, como se olhando mais vezes, aumentasse a probabilidade de cair uma mensagem do Francisco. As noites, essas, passava-as enroladinha em posição fetal, a fantasiar com ele, até adormecer. Até ao dia em que o Francisco, num sopro de arrojo, se chegou à frente! Mas, perante o momento que tantas vezes fantasiara, a Maria não foi capaz de mais do que um chega para lá assustado, numa espécie de repetição (de formatos vários) do toca e foge com que, vezes de mais, foi entorpecendo a sua vida amorosa. 
    Com os amigos e com a família não parece ser tão diferente assim. Gosta genuinamente deles. É muito sociável, cria bom ambiente, mas quando dá por si a deixar-se levar (pelo que sente), e a confiar a alguém dos mais próximos, um ou outro aspeto da sua intimidade fica, invariavelmente, muito assustada, acabando, logo de seguida, por se distanciar, por uns tempos. 

   Precisamos, como de pão para a boca, de relações sólidas e profundas (aprendemo-lo com a psicanálise das relações de objeto ou com os teóricos da vinculação, por exemplo). É na relação com o Outro significativo (na vida lá fora, e no nosso mundo interno) que damos significado à intensidade do que vamos sentindo, que aplacamos (e transformamos!) angústias. É na relação com o Outro significativo (na vida lá fora, e no nosso mundo interno) que verdadeiramente construímos humanidade. 
   A proximidade consistente com o Outro significativo é tudo o que nos pode aproximar do melhor de nós. Mas é, também, em muitas circunstâncias, tudo o que nos coloca perante o risco de nos confiarmos a um colo ou a um abraço que, muito mais do que segurar, desampara! Talvez seja quando (à boleia da história relacional) ganha espaço este medo de se ser engolido pela proximidade, ou de não se aguentar a dor e o desamparo de uma proximidade falhada, que se estará mais perto de um impasse nem contigo, nem sem ti. Não se pode estar sem o Outro, nem com ele verdadeiramente!  A distância (e a separação) é insuportável...  mas a proximidade (e a presença) queima! 
   Quando vão repetindo (com roupagens várias) - com os amores, a família ou os amigos - o registo toca e foge a que se foram habituando, talvez não haja muito como as pessoas não se sentirem a desvitalizar aos bocadinhos. Talvez não haja muito como não se sentirem crescentemente dominadas pela angústia e pela solidão (mesmo quando mascaradas por uma intensa vida social e/ou profissional).  E, assim, se vai delapidando a esperança, mais ou menos secreta, de que alguém possa olhá-las suficientemente dentro (por mais que desviem o olhar!), e segurá-las, com firmeza e afeto (por mais que usem e abusem do chega para lá, em resposta à proximidade) ... “exigindo-lhes” que façam diferente, com a diferença que introduzem. Até que (na psicoterapia, ou na vida lá fora), alguém insista em olhar por si adentro de forma segura, consistente, firme e afetuosa. Até que (na psicoterapia, ou na vida lá fora), alguém insista em ajudar a descodificar, a legendar e a transformar estes movimentos... Afinal de contas, o toca e foge será assim uma espécie de fantasma à espera de quem o segure, pense e transforme! 

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 31 de janeiro de 2021

Passa ao outro e não ao mesmo: culpa e pandemia.

  Com teste positivo para a COVID-19 nos primeiros dias de Janeiro, a que se sucederam testes positivos a toda a família nuclear, depressa as fortes dores de cabeça e de corpo tomaram conta do Manuel. Mas, por mais que as dores o incomodassem muito, o que mais lhe doía era mesmo a ideia de poder ter sido ele a contaminar a família. Por mais que todos estivessem, apenas, com sintomas ligeiros, era difícil não se deixar engolir por uma angústia avassaladora que, ora em lume brando, ora a todo o vapor, o transportava para um crescendo de cenários catastróficos, que não conseguia parar: as filhas, apesar de saudáveis, poderiam, azar dos azares, acabar agarradas a um ventilador? E a mulher? O que poderia acontecer à mulher? E se as perdesse? E ele, o que aconteceria se ele fosse mais um a engrossar os números de internados? Apesar de ter sido, sempre, muito rigoroso no cumprimento das recomendações das Autoridades de Saúde, não conseguia deixar de se sentir consumido por uma culpa insuportável. E revisitava, de modo obsessivo, todas as vezes em que se poderá ter descuidado, um bocadinho que fosse. E encontrou, claro, um par de situações em que, apesar de todos os cuidados, pode ter facilitado. Mas será razoável pensar que é possível não haver um descuido em 11 meses de cuidados pandémicos? 

   A situação é, de facto, dramática. Vivemos em sobressalto, assombrados por um fantasma de morte que, a qualquer momento, nos pode tirar pessoas, empregos, rendimentos, futuro... Vivemos tristes, pelas perdas de pessoas, de abraços, de estilo de vida, de emprego, de rendimento económico, etc. E a culpa? De quem é a culpa? A culpa não pode morrer solteira! Ora é dos governos, que não tomam medidas. Ora dos incumpridores que crucificamos nas redes sociais. Passa a outro e não ao mesmo, que a dor é, muitas vezes, mais intensa do que aquilo que seria suportável. E será muito em reação a esta insuportabilidade do sofrimento que se procuram bodes expiatórios que possam abrigar a culpa. Quer isto dizer que as medidas dos governos não são criticáveis numa altura destas, ou que não existem comportamentos de tal modo irresponsáveis que mais não são do que casos de polícia? De modo nenhum! Quererá antes dizer que projetar massivamente a angústia em culpados de geometria variável (governos – por mais que, evidentemente, as suas medidas possam ser criticáveis;  incumpridores – por mais que, naturalmente, comportamentos irresponsáveis mereçam penalização adequada; negacionistas – por mais que a sua denegação massiva e perigosa diga muito mais do seu mundo interno do que da realidade) até pode, numa ou noutra circunstância, ser a única forma de aliviar, momentaneamente, uma dor insuportável mas, seguramente, não nos deixa mais perto de combater eficazmente a pandemia. 
    A ser assim, talvez seja importante, lembrarmos a todos os Manuéis, as vezes que forem precisas, que são vítimas e não culpados! Que é da responsabilidade de cada um de nós protegermo-nos o melhor que pudermos, cumprindo escrupulosamente as indicações das Autoridades de Saúde; mas que, ainda assim, podemos infetar e ser infetados. E a culpa não é nossa! É do vírus! E é à boleia da destruição que tem causado que não haverá muito como (e ainda bem!) não sentirmos medo, tristeza, culpa e raiva! Saibamos nós não desistir de aproximar quem (nas relações amorosas, familiares, comunitárias ou profissionais) nos possa ajudar a transformar a intensidade de tudo aquilo que vamos sentindo, em gestos de relação e vida na luta contra a morte. Ou não fossemos, antes de tudo o mais, seres relacionais. 

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 17 de janeiro de 2021

Sim, estamos cheios de medo (outra vez) ... e ainda bem!

 Sim, estamos cheios de medo! De adoecer, de morrer, de perder pessoas rigorosamente imprescindíveis. De, sem querer, disseminarmos o mal. Sim, estamos cheios de medo! Da possibilidade das imagens trágicas de hospitais em rutura que nos chegaram de Itália, Espanha e tantas outras geografias se repetirem connosco. Sim, estamos cheios de medo! Da avalanche económica que todos já percebemos colossal. E estamos tristes. Pela vida mais ou menos suspensa por mil e um constrangimentos; pelos longos e penosos 10 meses sem tocar, cheirar, abraçar, beijar alguns dos que mais gostamos. Pior, porque muitos de nós, dramaticamente, já perderam pessoas preciosas. E estamos zangados, muito zangados! Um vírus, vindo do nada, virou-nos a vida do avesso e deu corpo a um batalhão de fantasmas! A realidade (dramática!) dos hospitais entra-nos casa adentro, e amplia mais e mais a intensidade do que vamos sentindo. 

  Por mais que muitos de nós nunca tenham tirado os pés do chão e a cabeça da consciência do perigo, o alívio nos números do mês de Dezembro, a viragem simbólica do ano (num registo mais ou menos mágico de que a pandemia era coisa do malfadado 2020) e a esperança (real!) na vacina que nos há de ajudar a vencer a pandemia, terão, porventura, alimentado a ideia de que o pior já tinha passado. Mas, com o ano novo, qual murro impiedoso no estômago, veio uma degradação assustadora da situação. E, com ela, a intensificação do medo, da tristeza e da raiva. E ainda bem! 
  O medo é protetor perante situações ameaçadoras. Será muito à boleia do medo (e do sentido comunitário) da rutura dos hospitais, do medo de adoecer, de morrer, de perder pessoas rigorosamente imprescindíveis e de, sem querer, disseminarmos o mal, que nos motivamos para cumprir escrupulosamente as indicações das Autoridades de Saúde. Será muito à conta da raiva que toda a situação inevitavelmente desperta, que vamos fazendo das tripas coração para dar vida à luta contra uma pandemia que insiste em dar corpo ao fantasma de morte. Será com a contribuição da tristeza (naquilo a que Melanie Klein chamou de posição depressiva) que podemos olhar para dentro, elaborar as perdas para, a partir daí, dar vida à luta pela vida! 

  Mas o medo, a raiva e a tristeza não podem atrapalhar? Podem! Muito! 
Quanto mais profundas as fragilidades pessoais e menos o espaço relacional, familiar, comunitário e social, para acolher e transformar a intensidade de tudo o que vamos sentindo nestes tempos teimosamente difíceis, mais o medo dará lugar ao pânico, a raiva ao ódio e à violência, e a tristeza ao desamparo e ao desespero. E mais perto estaremos de um pânico paralisante, de uma clivagem arcaica do mundo em “nós” (bons) vs “eles” (maus), e de uma denegação maníaca do medo e da própria realidade (terreno fértil para perigosos comportamentos de risco, teorias da conspiração e discursos que mais não fazem do que projetar a angústia nos mais diversos bodes expiatórios). 
  Queiramos ou não, estamos juntos na tempestade (bem sei que em barcos de resistência e conforto muito desiguais). E não temos como escapar à interdependência (afetiva, social, económica, de saúde, etc.) da natureza humana: sim(!), na nossa autonomia dependemos todos uns dos outros! Não parece, por isso, haver reação de vida a esta emergência (sanitária, antes de tudo, mas também afetiva, social e económica) que não seja a da humanidade de não desistir de transformar a intensidade de tudo aquilo que vamos sentindo em gestos de relação e vida!

domingo, 11 de outubro de 2020

Um admirável mundo novo... em tempos de pandemia!

  Desde que, há uns anos, foi ver o cortejo académico do primo que sonhava com a vida de universitário, com as festas e as noitadas, com a autonomia e o mar de pessoas e oportunidades que a Faculdade lhe iria trazer. Depois de um ano de ansiedade miudinha, de exames e de estudo empenhado, o João entrou, finalmente, no curso e na Universidade que sonhara. Mas a pandemia trocara-lhe as voltas. Fora duro o 12º ano. Como é que pode não ser difícil gerir o medo de uma pandemia, as aulas online, primeiro, e o medo do regresso, depois? Como é que pode não ser difícil gerir o conflito entre o impulso (saudável!) para estar com o grupo de amigos, e o medo dos riscos e a culpabilidade que isso pode representar? 

   Nos últimos dias antes da partida para a cidade que escolhera para estudar, eram mil e uma as apreensões que lhe esmagavam o entusiasmo: como é que ia conseguir fazer amigos nestes tempos de distanciamento físico? Como é que se iria integrar se não existem festas, nem copos, nem noitadas? Como é que iria tropeçar no amor (como tantas vezes sonhara) se a máscara esconde as covinhas que faz quando sorri genuinamente? E se tivesse de ficar de quarentena, sozinho, num quarto que ainda está longe de sentir como seu? Pior, e se ficasse infetado e infetasse todos à volta? Como iriam ser as aulas? Como é que os mil e um medos lhe iriam permitir concentrar-se em aprender tudo o que tinha que saber (modelos de aulas, espaços físicos e virtuais, horários, etc.) para se organizar?
   Comoviam-no, por estes dias, os conselhos e gestos protetores dos pais. Mas, tão depressa, corria para o seu colo como, a seguir, não lhe saía muito mais do que um: “que melgas, eu já sou crescido!”. No dia em que, finalmente, os pais o levaram ao quarto que tinha alugado a dois passos da Universidade, não parece ter sido tão diferente assim (com uma intensidade ampliada pela proximidade do futuro). Ao almoço, manteve, por fora, a postura de “homem crescido sem medos”. Com mais custo, mas aguentou-se, depois, enquanto a mãe lhe fazia as mil e uma recomendações acerca dos cuidados com a COVID-19, da roupa, da comida e das saídas à noite, e o pai lhe falava, entre o entusiasmado e o assustado, da necessidade de conciliar responsabilidade académica e sanitária, com integração social. Talvez o João quisesse dizer: “eu sei, eu sei que há muito que sonhava com isto. Eu sei, eu sei, que isto vai ser bom para mim, mas estou com tanto medo! Tenho tanto medo de não estar à altura das matérias, de me acharem ridículo na Faculdade, de não ser tão fácil fazer amigos como sempre imaginei que iria ser... E depois há a COVID-19. Como é que se lida com a COVID-19 longe de vocês?”. Talvez o João quisesse dizer: “Vai correr bem, não vai?”, ao mesmo tempo que corria para os braços dos pais e lhes dizia: “vão cá estar sempre para me segurar quando não correr bem, não vão? Mesmo quando eu, inflamado e um bocadinho arrogante, disser que sou um homem crescido, e que não tenho medo de nada?”… Mas só lhe saiu um: “Mãe!!! Eu já tenho 18 anos! Dah, isto foi o que eu sempre quis!”. Depois de uma despedida tão calorosa quanto esta postura sobranceiro-assustada permitiu, assim que os pais fecharam a porta da sua nova casa, o João deitou-se sobre a sua nova cama (como lhe parecia estranha a textura do edredão, o cheiro e as esquinas da nova casa) e chorou. Chorou desalmadamente. De medo (do que aí vinha). De raiva (por não ter procurado a segurança que alavanca o entusiasmo no colo dos pais). Até que o telefone tocou. Enxugou as lágrimas, mas não conseguiu disfarçar a voz triste e arrastada. Eram os pais, em uníssono, a dizer: “Hei, João, a primeira noite é um bocadinho assustadora. A 2ª, a 3ª e a 4ª também ainda podem ser um bocadinho. Mas vai, evidentemente, correr bem!”. Desta vez o João chorou com os pais. Nem a distância que o telefone impõe o impediu de sentir o colo dos pais, bem ali, para si, forte e seguro, para o que desse e viesse. E o medo, pouco a pouco, foi-se tornando menos avassalador, abrindo-se, agora, espaço para que pudesse conviver com o entusiasmo de quem estava prestes a agarrar um admirável mundo novo.  

   Nunca percebi muito bem o slogan “não há ano como o de caloiro”, que se vai perpetuando em muitos meios académicos. A entrada no Ensino Superior é, de facto, uma fantástica janela para o mundo; um mar de oportunidade de abertura ao conhecimento e à diferença (de pessoas, percursos de vida, ideias, etc.). Mas, um slogan como este parece dar a entender que a adaptação a um admirável mundo novo (que implica, as mais das vezes, a saída de casa dos pais) tem de ser fácil e rápida. E quase nunca é! E não se fará à margem de um conflito interno entre o entusiasmo de se deixar encantar com as oportunidades (pessoais, sociais, amorosas, intelectuais, etc.) e o medo do desconhecido. Talvez, por isso, se aproxime mais da publicidade enganosa do que de uma fórmula capaz de legendar o que os jovens sentem, nestas circunstâncias. 
   A ser assim, talvez lhes possamos dizer que dificilmente há adaptações sem alguma turbulência interna (de convivência entre o entusiasmo e o medo); e que os medos tendem a tornar-se muito menos assustadores (deixando de tolher o melhor de nós), sempre que somos capazes de os confiar aos colos que nos ajudam a transformá-los (numa espécie de grito: vou com medo, mas vou!)
   A ser assim, talvez possamos dizer aos seus pais que, se não há autonomia sem vinculação, os filhos continuam a precisar muito deles – quer para os encorajarem a voar, quer para lhes assegurar - por palavras e gestos – que, por maior que possa ser a tempestade, serão sempre (!) o seu porto seguro!

*Título de um romance de Auldous Huxley

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Desconfinar o medo

  Ei-la a destruir vida social e económica; a disseminar doença e sofrimento; a expor, como há muito não se via, a insuportável chaga da pobreza, ou a escavacar as fissuras da saúde mental, que estariam antes (um bocadinho) menos expostas. A pandemia de covid-19 é, porventura, o maior e mais global desafio da Humanidade em muitas décadas.

  Perante a incerteza e a magnitude da calamidade, talvez não haja muito como não pairarem nuvens negras de um medo mais ou menos omnipresente: medo de contaminar e ser contaminado (ou, numa formulação mais crua, medo de matar ou morrer), de perder pessoas rigorosamente imprescindíveis, de perder o emprego e os rendimentos; medo do presente e, sobretudo, medo do futuro.

 Ao mesmo tempo que Freud nos ensinava que os determinantes do comportamento humano vão muito para além da racionalidade, trazia humanidade à forma como olhamos a saúde mental, lembrando-nos que o normal e o patológico são, no essencial, quantidades diferentes das mesmas qualidades humanas. Mais de 100 anos volvidos, é assim que parece funcionar com o medo ou com a raiva, por exemplo. Emoções como o medo e a raiva são saudáveis! Serão uma espécie de primeira linha de defesas (como nos lembra o Professor Eduardo Sá) ou de marcadores somáticos (como lhes chama o neurocientista António Damásio), a indicar-nos o caminho para podermos reagir à adversidade. Neste sentido, será graças ao medo a que, felizmente, vamos sendo capazes de acrescentar sentido comunitário, que cumprimos, com responsabilidade, as recomendações das autoridades de saúde. Será graças à revolta que assumimos o risco ponderado de lutarmos pela normalidade possível, não permitindo que o vírus limite a nossa vida (pessoal, familiar, profissional e comunitária) para lá do estritamente necessário.

 Haverá, todavia, muitas circunstâncias, em que o medo ou a raiva não encontrarão acolhimento relacional (nos planos pessoal, familiar, laboral, social e comunitário) para se expressarem abertamente, e transformarem em palavras, em enredos e em gestos intencionais. Será neste contexto que – tenho para mim - aumentará exponencialmente a probabilidade do medo atrapalhar muito mais do que aquilo que protege; seja pela recusa em assumir qualquer risco, por mais ponderado que seja; seja pelo desafio constante ao perigo, numa espécie de denegação (mais ou menos maníaca) dos riscos (e do próprio medo!). Não será tão diferente assim com a raiva. Na impossibilidade de, na relação (pessoal, familiar, laboral, social e comunitária), se transformar numa revolta proactiva, subsidiária da esperança e da coragem na reação, a raiva (assim como o medo) parece ficar à solta, em bruto, à mercê dos mais variados discursos populistas que a captem e a catapultem para a projeção em diferentes grupos sociais e/ou teorias da conspiração. 

  

  Se não há como, num passe de mágica, apagarmos a devastação que a pandemia arrasta, a verdade é que podemos reagir-lhe! Assim saibamos acarinhar o papel protetor do medo e da raiva, vestindo-os de relação e sentido comunitário.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Tempos de pandemia: a (in)suportável incerteza do ser

  Aí está ela. Implacável e destruidora. A disseminar medo e sofrimento, raiva, angústia e tristeza. Aí está ela. A ceifar vidas humanas. A destruir vida social e económica. A pôr em modo pausa (por tempo indeterminado) os estilos de vida, de um planeta inteiro. E não sabemos, ainda, quando e como conseguiremos sair disto. E, de repente, nós que conseguimos voar como os pássaros, espreitar outros planetas, e explorar a profundidade dos mares, somos engolidos pela avassaladora incerteza de uma fera que não vai além de umas quantas medidas ultramicroscópicas de tamanho, as suficientes, ainda assim, para nos refletir, no espelho, a insuportável imagem da fragilidade humana.
   Abundam hipóteses, umas mais fundamentadas do que outras, sobre o modo como o coronavírus se mutou e chegou aos humanos. Investiga-se (e bem!) a responsabilidade dos hábitos humanos por, por exemplo, se permitir que animais de ecossistemas tão distintos convivam (numa espécie de free pass para microrganismos vários) em mercados de animais. Pululam as teorias da conspiração assegurando (numa espécie de denegação da incerteza) que o vírus não passa de uma criação laboratorial, parte de uma geoestratégia de guerra biológica silenciosa. Proliferam as interpretações da pandemia como uma espécie de retaliação da mãe natureza pelos pecados humanos na forma como temos tratado o ambiente.
   Tudo parece passar-se como se, apesar de tudo, fosse um bocadinho menos insuportável a ideia de que a pandemia tenha, na sua origem, a ação humana do que a hipótese de resultar de um qualquer acaso da natureza. Talvez na ilusão de que, se assim for, se torne mais controlável.
   Se é à ciência que confiamos (e muito bem!) a construção de respostas para a pandemia, também é da sabedoria popular que me lembro ao pensar alguns aspetos da crise. Diz-se, na minha terra, quando morre alguém muito precioso (especialmente se de modo repentino): nós não somos nada! Como se, numa só formulação paradoxal, pudéssemos condensar (e integrar!) de uma só vez toda a força e fragilidade humanas: 1) somos (quase) tudo para quem amamos/nos ama... e é isso que nos humaniza e dá vida, 2) às vezes somos (quase) nada para impedir que quem é (quase) tudo para nós... morra!
   Talvez neste crise tenhamos, também, o enorme desafio de fazer humanidade, integrando paradoxos: a) tolerar a incerteza (com todo o medo, raiva e tristeza a que temos direito!), ao mesmo tempo que não desistimos de construir mais e mais conhecimento para combater a pandemia (sanitária, social, psicológica, económica, etc.); b) tolerar o distanciamento físico, ao mesmo tempo que não abdicamos nem um milímetro da relação afetiva (com o outro) – talvez a única forma de não ficarmos sozinhos com a intensidade e a volatilidade de tudo aquilo que vamos sentindo.  
   Não, não há como, num passe de mágica, ficar tudo bem! Não, não há como apagar as mortes e o sofrimento, eliminar o medo e a devastação económica. Não, não há como fazer da quarentena, da telescola ou do teletrabalho mais do que as soluções possíveis, de recurso.
   Mas se não podemos apagar os contornos dramáticos da situação, podemos reagir-lhe! Podemos responder-lhe com a relação (pessoal, familiar, profissional e comunitária) que, não nos deixando sozinhos com o sofrimento, o medo, a tristeza ou a raiva, abre avenidas de esperança, coragem e solidariedade... na luta dramática que travamos!

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Sim, estamos cheios de medo!

 Durante muito tempo foram metáforas. Metáforas do medo de danificar ou destruir: o outro, a relação (e com eles) a nós próprios. E, num ápice, o vírus, a contaminação, o dano e a destruição ganham corpo. Como se fossemos todos violentamente engolidos por um filme de ficção científica.
 E, de repente, muito do que permitia matar fantasmas – estar junto a conversar, tocar, abraçar, beijar... – dá-lhes, agora, energia para se concretizarem. Todos podemos, de facto, transportar o mal. E, sem querermos, contaminar e sermos contaminados só de tocar. Numa espécie de triunfo trágico do concreto sobre a metáfora.
 Sim, estamos cheios de medo! De adoecer, de morrer, de perder pessoas rigorosamente imprescindíveis. De, sem querer, espalharmos o mal. Sim, estamos cheios de medo! Da avalanche económica, que já se anuncia no horizonte, tornar tudo muito mais trágico ainda. E estamos tristes. Pela vida suspensa, vista da janela. Por não podermos ir a casa, ao hospital ou ao lar ver, confortar, tocar, cheirar, abraçar, beijar muitos dos que mais gostamos. Pior, porque alguns de nós, dramaticamente, já perderam pessoas preciosas sem, sequer, se poderem despedir delas.
 E estamos zangados! Um vírus, vindo do nada, virou-nos a vida do avesso e deu corpo a um batalhão de fantasmas!
 E estamos lábeis. Comovemo-nos com os gestos de humanidade que, felizmente, se têm multiplicado nos hospitais, nas empresas, nas varandas e janelas, o que, a juntar a números razoavelmente bons (como se o sofrimento coubesse em contagens) no boletim da DGS, nos fazem acreditar que “vai ficar tudo bem”. Para, logo a seguir, números maus, na informação diária, ou uma notícia de um foco de infeção perto de quem nos é imprescindível, nos dinamitar toda a esperança e deixar à beira de um ataque de nervos.
  Talvez não haja muito como não se sentir medo, tristeza ou raiva. E ainda bem! Ou não fossem as emoções que (também) nos tornam humanos! A ser assim, o grande (enorme!) desafio será ficarmos isolados sem ficarmos sozinhos com o nosso medo, a nossa tristeza ou a nossa raiva. Ou não fosse a relação (pessoal, familiar, profissional e comunitária) a fórmula (pouco mágica, muito complexa, mas de eficácia humanamente comprovada!) para acolher o sofrimento e desbravar avenidas de esperança e coragem na luta dramática que travamos (como nas lutas dramaticamente dolorosas que muitas pessoas travam, independentemente da pandemia).  

PS: Não haverá muito como toda esta vertigem de emoções não se multiplicar muitas e muitas vezes, nos profissionais de saúde, nos profissionais dos lares de idosos e de todos os outros setores da linha da frente. Sim, um subsídio de risco talvez seja o mínimo que lhes devemos!

domingo, 20 de outubro de 2019

Coragem e outros medos!

O João tem uma mão cheia de quilos a mais e é demasiado preso de movimentos para ser bom a jogar à bola. Nas aulas, o rubor toma conta de todo o seu rosto só de imaginar que um Professor o pode interpelar para ler um texto em voz alta, ou para ir ao quadro resolver um exercício. O Manuel e o Francisco, intuindo o pouco à vontade do João, não perderam tempo. Começaram a ridicularizá-lo, levando consigo uma parte muito significativa da turma. Chamavam-no vermelhão, a princípio. Depressa recuperaram o hit da Fafá de Belém, cantando em coro: “vermelho, vermelhusco, vermelhão” de cada vez que o João passava. Estenderam, depois, os mimos à pouca destreza física que o João expressava nas aulas de Educação Física e, daí, à forma atrapalhada como se relacionava com os colegas.
   A cada dia que passava, mais o caminho para a Escola parecia uma espécie de via verde para a tortura. O João ia procurando ocupar o menos espaço possível (quem lhe dera ser invisível por aqueles dias), mantendo o seu sofrimento em segredo. Tinha vergonha. Muita vergonha. A sua autoestima andava pelas ruas da amargura. Até as notas que, apesar de tudo, a iam alimentando começariam a ressentir-se em breve. Temia, porventura, sentir-se ainda mais ridículo, fraco e desamparado se procurasse ajuda junto dos pais ou dum ou outro Professor. Sentia-se uma fraude, um fraco, um falhado. E tudo o que queria era sentir-se um vencedor aos olhos dos pais. E da Joana, do canto da sala que, por mais que uma vez, ousou defendê-lo contra as investidas de boa parte dos colegas.
           
   Sim, o João precisa de ajuda! Precisa de quem o proteja, em primeiro lugar, pondo no lugar quem usa e abusa das fragilidades do João para esconder e acalmar as suas. Precisa de quem, ao ajudá-lo a descodificar o que sente, o ajude a perceber que só se é verdadeiramente um vencedor para alguém quando há, na relação, um lugar para expor e olhar de frente as fragilidades. Precisa de quem o ajude a perceber que, sem esse espaço de intimidade, até se pode fingir bem, mas talvez nunca se seja verdadeiramente seguro de si. Precisa de quem o ajude a perceber que, mesmo com todas as fragilidades e medos do mundo, tem mais do que qualidades para ser um vencedor junto dos pais, das Joanas que lhe aparecerão vida fora, e de todas as pessoas que se vão deixar encantar pelas suas qualidades e fragilidades. Precisa de quem o ajude a puxar pelas suas competências, percebendo, por exemplo, que até pode não ser um Ronaldo dos recreios, mas que o porte físico considerável e a velocidade acima da média podem ser uma grande vantagem competitiva no rugby. Precisa de quem, ao ajudá-lo a encontrar-se no que sente e a daí retirar contrapartidas práticas, o ajude a usar as suas qualidades para aprender a pôr no lugar os Maneis e os Franciscos da sua vida. Estará, nessas circunstâncias, muito mais perto de se sentir (entre o medo e a audácia, as vitórias e as deceções) capaz de, com entusiasmo, nunca desistir de (re)encontrar o caminho para se sentir o vencedor no coração de todos aqueles que mais importam.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

O que não nos liga não nos torna mais fortes!


A Maria foi crescendo muito metida consigo, com a ideia difusa de possuir um qualquer irreparável defeito de fabrico. Só isso explicaria que as notas ficassem sempre aquém das da irmã e das primas. Só isso explicaria que, em toda a infância e adolescência, nunca se tenha sentido verdadeiramente acolhida em nenhum grupo. Só isso explicaria que se fosse sentindo vezes demais uma espécie de corpo estranho, que ninguém conseguia decifrar.
 Conta-me, num choro sentido, a história de uma personagem de banda desenhada que a acompanhou durante toda a adolescência: a Kate era uma adolescente introvertida, sozinha e muito, muito triste. Em pequena teria sido assolada por uma espécie de maldição, em função da qual não podia olhar o mundo lá fora para lá do pôr do sol, sob pena de ter uma visão catastrófica, de cegar logo depois e de morrer, por fim. As cortinas de sua casa eram, por isso, fechadas, uma a uma, mal começava a cair a tarde.  
  
   Talvez o que a Maria quisesse dizer fosse que, ao contrário do que a maldição da Kate dava a entender, o conhecimento (do mundo lá fora e, sobretudo, do mundo que pulula dentro de nós) é vida! Pode assustar ou doer muito, num ou noutro momento. Mas é vida. E relação. Ou não precisássemos todos de quem (dentro de nós e no mundo lá fora), acolhendo o medo do desconhecido e acreditando no melhor de nós, nos ajude a desbravar avenidas no pensamento.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Orgulha-te de mim!

  Os bebés nascem muito antes do parto!
  Ganham vida, no coração dos pais, de cada vez que lhes sonham as feições, as manhas, as qualidades ou as birras. Dão puladas de gigante de cada vez que, entre o medo e o entusiasmo, lhes adivinham a bondade, as conquistas, a inteligência ou a beleza. Este bebé imaginário (como lhe chamou Soulé) encontrará o bebé real no parto e com ele seguirá vida fora, como que lembrando aos pais a beleza da diferença e da autonomia.
  Este sentimento de ter quem nos sonhe e se orgulhe de nós, antes mesmo da nossa capacidade de sonhar, será indispensável para robustecer a indelével capacidade humana de sonhar... e de partir do desejo e do imaginário para criar.  Termos quem nos invista de afeto e expectativa será fundamental para tonificar a autoestima, sem a qual dificilmente agarraremos os desafios com vivacidade e brilho nos olhos. Termos quem, vida fora, nos imagine impulsionará a nossa capacidade de transformar os sonhos em projetos, e os projetos em ação intencional.
  Se termos quem, vida fora, nos instigue à autonomia de sonharmos o nosso caminho sem nunca deixar de nos fazer viver nos seus sonhos, nos faz dar puladas de meter inveja a qualquer suplemento alimentar, já termos quem nos aprisione nos sonhos e medos que nos delegou não deixará, nunca, de atrofiar o melhor das nossas qualidades. Talvez seja sempre um bocadinho assim, quando a alegria e serenidade de darmos o melhor de nós pelos nossos sonhos é contaminada pelo travo doloroso de não sentirmos o orgulho das pessoas fundamentais para nós. Com fórmulas mais ou menos mortiças do tipo: “já sabes como ele é!”, lá vamos fingindo que não nos importamos, deixando o melhor de quem nos é fundamental morrer um nadinha mais! Como se não fossemos capazes de, com o melhor de nós, puxar o melhor do outro, num qualquer grito genuíno do género: Sou diferente de ti! Faço escolhas diferentes daquelas que farias por mim. Algumas serão erradas, mas são as minhas. Ajudas-me a fazer melhor sem me aprisionares no fazeres por mim? Como fui aprendendo contigo – mais por bons exemplos do que por bons conselhos – o mais importante é não desistirmos de desbravar o nosso caminho, com a cabeça completamente nas nuvens e os dois pés bem assentes no chão. E lutar, lutar de coração cheio! E sim, preciso, e quero, quero muito (!) que te orgulhes de mim por eu não desistir! E que mo digas! Que mo digas com a alegria com que desconfio que dizes às minhas tias ou aos teus amigos na minha ausência.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O melhor de nós não chega?

 O Marco é um tipo de coração grande e abraço sentido. Para lá de muitas outras qualidades, talvez essas tenham sido determinantes para construir um amor vivo (mas excessivamente medroso, a espaços) com a Maria. Inteligente e sensato é um profissional muito diferenciado. Apesar do gosto pelo trabalho e das competências que indubitavelmente tem, está muito longe de gerir a vida profissional com o prazer e a serenidade que gostaria (e que, de resto, as suas qualidades justificariam). Tudo se passa como se se sentisse, permanentemente, num conflito entre o desejo de arriscar, intervir, inovar… e o medo de que tudo possa falhar rotundamente.
 De cada vez que ousa sobrepor o desejo ao medo, as suas competências acabam por sobressair, valendo-lhe ganhos profissionais muitos significativos. Mas não, sem antes, sentir o coração apertado, muito para lá do razoável. Não, sem antes, dar mil voltas à cabeça, para se certificar que cumpriu escrupulosamente tudo o que são normas, diretrizes e regulamentos. Não, sem primeiro, antever os mil e um cenários (que quase nunca se confirmam) em que as chefias o repreenderão abertamente ou, de forma disfarçada, o colocarão no lugar, lembrando-lhe que ainda tem que comer muitas rasas de sal, antes de poder ousar. Como lhe lembra a Maria, entre a firmeza e a ternura, tudo se parece passar como se sentisse na obrigação de estar, permanentemente, ora a pedir licença, ora a pedir desculpa… por ser bom!
    À boleia deste seu lado medroso, lembra vários episódios, mais ou menos longínquos, em que foi sentindo este seu lado criativo, audaz, consequente e corajoso… desvalorizado, apoucado, ridicularizado até. Recua ao campo pelado da sua infância, para falar da sua estreia em jogos oficiais. Não cabia em si de tão vaidoso que estava com as chuteiras que comprara de propósito para aquele dia, à custa das poupanças que conseguira com uma gestão muito apertada da semanada. Ao intervalo ainda estava 0-0 e o Marco, entre as parcas oportunidades e a pressão de fazer tudo bem e depressa, não tinha, ainda, conseguido destacar-se. O treinador tinha acabado de lhe aconselhar mais serenidade na hora de ter a bola no pé, mas tinha-lhe elogiado o espírito de luta. Nada de grave, portanto… até que o pai entra pelo balneário adentro e, sem mais, se abeira dele e o aconselha a dar o lugar a um colega, “que seja menos trapalhão. Já estás muito cansado. É melhor saíres”. Como se isso não bastasse para, num ápice, transformar o seu brilho nos olhos num olhar cabisbaixo e embaciado (de vergonha, desilusão e raiva contida), o pai continuou num tom jocoso: “ai achavas que eram as chuteiras que fazem os jogadores”? Escusado será dizer que, na 2ª parte, as inseguranças do Marco acerca das suas capacidades futebolísticas se multiplicaram por mil!
   Nada que o tenha feito sentir de modo tão diferente assim quando, uns bons anos mais tarde, tentava intervir - com a sua visão, porventura exagerada, mas atenta e interessada - nas tertúlias de política nacional em que algumas vezes se transformavam os jantares de família. Diz-me, comovido: “parece que ainda consigo ver o ar de desdém do meu pai, secundado pelo meu avô ou pela minha mãe. E aquele pfu, enquanto revirava os olhos, que antecedia o: tens muito que aprender. Cresce e aparece! que me deixava furioso! Sabe, eu acho que não queria ter razão. No fundo, acho que só queria mostrar que já era crescido, que me interessava pelos mesmos assuntos que eles, que pensava e tinha opinião sobre as coisas. No fundo, no fundo… acho que só queria que eles se orgulhassem de mim!”

     Talvez seja sempre um bocadinho assim. Quanto mais o caldo afetivo e as oportunidades educativas o potenciam, mais os recursos se vão tornando robustos com o crescimento. Mas quando, ao mesmo tempo, se vai crescendo com a ideia de que o desejo de ousar (mesmo que se tenha de falhar muitas vezes, para fazer cada vez melhor!), está mais próximo de valer reprovação (mais ou menos aberta) do que encorajamento, talvez as pessoas se tornem mais inseguras em relação às suas qualidades! Quando o melhor das suas competências, dos seus sonhos e do seu desejo de crescer parecem valer mais crítica e apoucamento do que manifestações claras de orgulho, talvez as pessoas se tornem (todas!) um bocadinho mais medrosas… na hora de fazer pela vida. 
   Talvez por isso seja tão importante quem possa de fazer de Maria nas nossas vidas para, de uma assentada, se orgulhar de nós e nos ajudar a elaborar esta espécie de angústia de castração (como lhe foi chamando a Psicanálise) que, tantas vezes, vezes de mais, teima em inibir o melhor das nossas competências… e do nosso entusiasmo!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 23 de abril de 2017

Asas servem para voar!*

  Foi crescendo rodeada de gente. Para além dos pais e da irmã, a casa estava sempre cheia. Tios, avós, primos. Todos lhe iam gabando a beleza. Puxa à mãe, dizia a avó Amélia com orgulho, atropelada, invariavelmente, pelo pai que não se cansava de sublinhar a inteligência superior da irmã da Rita (que, evidentemente, só podia ter sido herdada de si). Talvez seja um bocadinho assim em algumas famílias. Ao mesmo tempo que dão o caldo afetivo para o crescimento, parece que precisam de acantonar as pessoas em prateleiras… como se, para a beleza, não contassem também a profundidade no olhar (de quem olha e de quem é olhado) e se, para a inteligência, não fizesse qualquer diferença para quê e, principalmente, com quem e para quem somos inteligentes!
  A Rita é efetivamente bonita. Mas é muitas outras coisas boas (inteligente e sensível, audaz e atenta ao outro) que talvez por serem tão poucas vezes olhadas por quem as poderia ajudar a florescer, foi emperrando, dentro de si. Entre o buliço das festas familiares e os grupos de amigos em que se movia, parece ter havido sempre um lado seu que nunca (!) deixou de se sentir numa espécie de solidão assistida. Especialmente depois da morte da avó Amélia, que olhava a sua beleza bem dentro dos olhos e parecia a única capaz de pôr travão aos excessos do pai. Também a mãe sempre se foi chegando à Rita (não deixando, com isso, morrer o melhor dos seus recursos). Mas foi-lhe faltando a vivacidade da avó para pôr o pai no sítio.  Claro que o pai sempre gostou da Rita! Mas raras foram as vezes em que encontrou a fórmula para a olhar dentro. Lembra, com a voz embargada, como o pai arranjava sempre forma de lhe roubar o protagonismo nos aniversários ou na festa de final de curso. Não se lembra de um único: “estou orgulhoso de ti”! E dos abraços mais apertados apenas tem memória de um, aquando da morte do seu avô paterno. Por mais que o que mais quisesse fosse puxar o pai para si, foi-se afastando ao ponto de, praticamente, não falarem se não no conforto do grupo ou por intermédio da mãe. E assim foi alimentando a ideia de que do pai podia apenas esperar dinheiro para o curso, as viagens e o carro. E o pai a ideia de que a Rita de si só queria o dinheiro para o curso, as viagens e o carro. E, de equívoco em equívoco, foi crescendo a distância entre quem suspira pela proximidade!
  Ainda assim, mais crescida agora, a Rita fez alguns movimentos de aproximação. Qual leoa, defendeu, com unhas e dentes, o pai quando o jornal local (e a destilaria de ódio pronto a cavalgar o lado negro das redes sociais) lhe caiu em cima. Entre o orgulhoso e o atrapalhado o pai, mais por falta de hábito do que por ingratidão, não foi capaz de agarrar o apelo. Como não fora meses mais tarde: a Rita rejubila com o projeto profissional que conseguira. Podia não ser, ainda, a oportunidade de realização profissional com que sonhara, mas era um passo. E era sobretudo, a oportunidade de mostrar a si própria e ao mundo (e muito em especial ao pai!)  que também sabe ser inteligente, trabalhadora e competente. Mas o orgulho que ia acumulando com os olhares orgulhosos da mãe e das tias… num ápice se transformou em sabor a vitória amarga! Os Parabéns orgulhosos que mais ansiava: os do pai, foram, afinal, dolorosamente substituídos por uma espécie de insinuação de que só conseguira o projeto… porque é bonita.

  Para primeira formulação, não está difuso de todo o seu pedido de ajuda: anda muito desistente e paralisada perante a ideia de futuro e as escolhas que teme não conseguir fazer. Anda triste. Profunda e dolorosamente triste. Apesar do grupo de amigos com quem sai à noite para os copos, sente-se sozinha. Profunda e dolorosamente sozinha.
  Com o decorrer tempo – ou, para ser mais preciso, à medida que, devagar devagarinho, nos vamos sentindo, e ligando enredos onde antes havia muito mais fuga para a frente do que pensamento – o apelo da Rita (e com ele a construção de soluções!) fica cada vez mais claro: Mas se eu tenho tantas saudades de conversas e relações profundas porque é que vou deixando morrer as amizades que me interpelam e vão ficando apenas aquelas mais feitas de memórias de infância e solidões assistidas (em noites agitadas de copos) do que de vínculos e cumplicidades? Mas se eu tenho tantas saudades de relações profundas porque é que fiz tudo para afastar os amores que me interpelaram até à medula e, agora mais do que nunca, estão bem vivos dentro de mim? Mas se eu não me quero deixar acantonar na imagem de mulher bonita, mas autocentrada e superficial (ter um closet pode ser um capricho engraçado, não é? Mas como metáfora de projeto de vida, de facto, não é lá grande coisa!) e quero, definitivamente, ser a mulher inteira, arrojada, sensível, cuidadora, competente, viva e lutadora que a minha avó Amélia via em mim, porque é que às vezes insisto nos tiques de diva e fico à espera que as amizades e os amores voltem num passe de mágica, sem reparação nem garra, como se merecesse tudo de mão beijada só por seu eu?! Ou, pior, como se não tivesse o direito a lutar pelo que realmente quero (!) e tivesse de me contentar com a memória e a saudade para preencher o closet! Sabe, acho que estou a precisar – qual Randall do This is us – de escrever num papel as 32 razões porque estou profundamente magoada com o meu pai (e, já agora as 8 ou 9 porque estou zangada com a minha mãe e as 14 ou 15 porque estou fula com a minha irmã) e de lhas dizer uma a uma, olhos nos olhos. E, a seguir, de lhe dizer que, por tudo isso, mereço muito mais pai! E que, para começar, quero, pelo menos, um abraço apertado por cada uma das razões da lista! E, depois disso, dizer-lhe que pode ter muito orgulho em mim porque apesar dos meus 23457 defeitos, estou decidida a virar o mundo do avesso para ser a mulher inteira que quero ser!
PS:Sim, ainda quero um closet! Mas a três dimensões porque a beleza está mais na profundidade do olhar de quem olha e é olhado do que no brilho dos vestidos!

*Título inspirado na Asas, dos GNR

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 5 de março de 2017

Vai-te embora... mas eu preciso de um abraço!

A Maria vai todos os dias à Faculdade beber café. Os claustros são bonitos e é lá que encontra boa parte dos seus amigos. Mas às aulas não tem ido muito. Especialmente desde o semestre passado quando, pela primeira vez na vida, chumbou num exame. Deixou de estar a par das cadeiras, dos livros, das sebentas e dos apontamentos. Sai todas as noites, em grupos alternados. Nenhum deles aguenta o seu ritmo imparável. Acorda quase todos os dias ressacada dos packs de vodka ou dos shots com que procura adormentar mágoas e medos. Alguns amigos gabam-lhe a pedalada tal a agilidade com que salta de bar em bar, de copo em copo, de ganza em ganza… numa agitação que parece não ter fim. Mas há muito que a Catarina percebera que a Maria talvez ande mais movida a angústia do que a desejo. Especialmente desde o jantar de curso em que a Maria, num pranto desamparado, falou, de forma mais ou menos desconexa, dos pesadelos com que acorda, invariavelmente, a chorar; do modo como se sente feia e desinteressante; da relação distante com a mãe desde que perdeu o pai; da culpa e do medo de não ser capaz de investir o curso ou da catadupa de envolvimentos amorosos em que se foi, invariavelmente, sentindo usada e humilhada. E a Maria sociável, popular, confiante e despreocupada aos olhos mais desatentos era agora olhada, pela primeira vez em muito tempo, para lá do show off dos seus decotes e do seu nariz levantado. No dia seguinte, com os olhos ainda vermelhos de tanto chorar, apressou-se a justificar o desamparo com o último shot de tequila que “bateu mal”. Mas a Catarina não desarmou. Levou-a consigo de fim-de-semana, à sua aldeia deTrás-os-Montes. O fim-de-semana no campo teve um sabor agridoce para a Maria.  Confortou-a, muito mais do que se atrevera a imaginar, haver alguém que, tanto tempo depois, não desiste de espreitar para dentro de si. Tanto que deu por si a confiar à Catarina uma ou outra “paranoia” (como lhes chama) que nunca se atrevera a confiar a ninguém. Mas dilacerava-a a distância colossal entre o calor relacional que sentia na vida da Catarina e a marca de superficialidade e indiferença das suas próprias relações pessoais e familiares. Talvez tenha este sido um fim-de-semana decisivo para, pela primeira vez em muito tempo, equacionar a proximidade relacional (que tolerava mal, ainda) como alternativa à sucessão de fugas para a frente a que há muito se entregara. Talvez a Catarina a tenha ajudado a largar a semente para, meses mais tarde, ousar pedir ajuda no contexto de uma relação terapêutica a que viria, paulatinamente, a confiar-se.


Talvez a sucessão de fugas para a frente, mascaradas, tantas vezes, numa hiperatividade boémia (mas, também, de trabalho por exemplo, como nos workaholic) não seja muito mais do que uma tentativa desesperada de adormentar uma angústia (e um desamparo…) profunda e mais ou menos generalizada. A superficialidade relacional que, tantas e tantas vezes, acompanha este registo (numa solidão acompanhada tão bem cantada pelo Jorge Palma, na sua Frágil: dou-me com toda a gente, mas não me dou a ninguém), parece, porventura, funcionar como a barreira que faltava à proximidade das relações. Tudo parece passar-se como se, nestas pessoas, há muito viesse a definhar a esperança de haver alguém ao pé de quem seja possível sentir a dor sem claudicar. E, com ela, por maioria de razão, se fosse estilhaçando também a fé no poder transformador (e redentor!) da relação (a que Bion chamava fé nos vínculos).  Mas, quem, desta forma ainda muito encriptada é certo, consegue ainda assim soltar uma espécie de: “vai-te embora… que eu preciso de um abraço”… terá todas as competências para, aos poucos, resgatar os “super-poderes” transformadores da relação. Assim tenha quem não desiste de a olhar dentro. Assim tenha quem não desista de ajudar a configurar, com palavras e com histórias a dor… e o desejo!


Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

(Felizmente) o Amor não é um conto de fadas!

   Ainda andava às voltas com a ressaca do divórcio. Sem saber bem como, o mundo desabou. Assim, de uma assentada (por mais que há muito as brechas se viessem a aprofundar). A cama era, agora, grande demais para tanto vazio. Só o Bernardo, nos fins-de-semana e 4ª feiras que ficava com o pai lhe conseguia arrancar um sorriso rasgado. Muitos meses depois vieram, finalmente, as férias. E com elas uma espécie de Verão teenager (como lhe chamara). Na ressaca de uma vertigem de festas, exageros alcoólicos e relações de ocasião, o Pedro estava, agora, mais metido consigo. Depois de um Verão de mais “anestesia” do que de “reconstrução”, era tempo de ligar os pensamentos.
   A Joana, com a vivacidade, a audácia e o medo de quem trata a vida por tu, insistiu em pôr-se no seu caminho. O Pedro hesitou. E voltou a hesitar. Uma e outra e outra vez. Intuía que não poderia passar por aquele brilho nos olhos com a leviandade com que passara pelo Verão. E isso fascinava-o. Fascinava-o, mas assustava-o de morte. Ainda estavam bem vivas as feridas do divórcio. E, feitas as contas, gato escaldado até de água fria tem medo. Incrível, a Joana, cerrou fileiras e não desarmou. E isso foi serenando o Pedro. “Meu Deus, nunca tinha visto uma mulher a olhar para mim daquela maneira. Era um olhar de espanto. Um olhar de espanto perante o amor”. Com a Joana tinha, agora, uma “sintonia maior” (como lhe chamara) que, na verdade, nunca chegara a ter com a Marta em 5 anos de casamento. E tinham sonhos, feitos projetos comuns. Mas veio a crise, a troika e a deslocalização de pessoal do departamento financeiro para a sucursal de Paris. E vieram as pontes aéreas e os sonhos feitos projetos para um reencontro a curto prazo. Agora sim, a história tinha os contornos de um amor épico, à filme! Os reencontros eram apaixonados, mas a distância crescentemente insuportável para a Joana. De volta à Paris que a viu crescer, foi desistindo, aos poucos, do “espanto do amor”. Sem nunca conseguir ser clara, manteve um registo: “nem contigo, nem sem ti” muito para lá do razoável. O Pedro cerrou fileiras e não desarmou… mas o amor é sempre a dois (a multiplicar por cada uma das vidas que mora bem dentro de cada um dos amantes) e virar o mundo do avesso não foi suficiente para resgatar, na Joana, aquele olhar de espanto perante o amor. Com uma última carta de amor, o Pedro empurrou, finalmente, a porta que a Joana teimava em não abrir (nem fechar). Estava zangado com as mulheres e com o amor. Pensava, para si, que era hora de dar um tempo ao amor e de apostar as fichas todas no trabalho. Mas, fosse quando se sentava para retomar os sites que tinha em carteira ou quando, à noite, a cama lhe parecia demasiado grande para tanto vazio, batia a saudade. E uma tristeza funda. E a desconfiança no seu valor: “Se eu sou tão especial como me imagino, porque é que, chegada a hora da verdade, fico invariavelmente sozinho?”. E a culpa por um lado intempestivo, que sempre o atormentou: “a verdade é que, às vezes, consigo ser uma besta”. E o medo. O medo de nunca mais se sintonizar com ninguém da forma mágica como, em tempos, se sintonizara com a Joana. E o temor de, na improbabilidade de se voltar a sintonizar, o Amor ter, uma vez mais, prazo de validade.
  Sempre com um sentimento de perda como pano de fundo, o Bernardo e o gozo que o trabalho lhe dava iam-lhe preenchendo a vida. Até que, sem saber bem como, choca de frente com os olhos brilhantes da Maria. Radiante e apavorado ao perceber que, afinal, o coração ainda bate, lança-se numa sofreguidão urgente, própria de quem morre de medo e de esperança, tudo ao mesmo tempo. A Maria, mulher sensata, incandesce-se, num primeiro momento. Mas trava a fundo, logo de seguida. Há muito que a vida lhe ensinara que as fugas para a frente não aproximam as pessoas. E irrita-se. Irrita-se solenemente: “como é que este tipo, de olhar bonito e profundo, estraga assim tudo antes mesmo de começar?” … Mas volta a incandescer-se: afinal de contas, o sôfrego Pedro também é capaz de um acesso de sensatez quando lhe metem o dedo no nariz! E vêm os cafés, os jantares e as horas a fio ao telefone (só agora descobriram que aqueles pacotes ilimitados de telecomunicações, afinal têm um número limitado de minutos!). Tudo os parece ligar, como se se conhecessem desde sempre! Cresce o entusiasmo e o espanto. Mas com eles segue, também, o medo. Afinal de contas, lado a lado com o saber de experiência feito, moram, bem dentro de cada um deles, cicatrizes várias que a proximidade vem desnudar. À boleia duma dessas cicatrizes, quando nada o fazia prever, o Pedro tem um verdadeiro acesso de mau feitio, daqueles tão seus. A Maria, atónita, grita-lhe: “tu não me falas assim!” Nesse exato momento, o Pedro cai em si, pede desculpa e tenta, por todos os meios, reparar os estragos. Mas aquele casal, que até há poucas horas incandescia na ilusão de que se conhecia desde sempre estava, agora, a milhas de distância! A Maria estava muito assustada. O poço de charme, afeto e firmeza que via no Pedro parecia-lhe, agora, uma reedição (de muito má qualidade) de todas as pessoas por quem se foi sentindo mais ou menos amesquinhada. O Pedro, dividido entre a culpa e a ideia difusa de que também a Maria não entendia que os acessos de mau feitio mais não eram do que um mix de medo e desamparo em versão show off, não encontrava a fórmula mágica para se chegar a ela. Mas, muitas lágrimas, linhas vermelhas e inconfidências depois, lá se agarraram num abraço sem fim. Meses (e alguns encontros e desencontros) depois, numa daquelas tardes ternurentas de sofá, a Maria olha bem dentro do Pedro e diz-lhe: “tu és um falso bruto!”. Ele olha-a, desconcertado, e ela insiste: “sim, tu és um falso bruto! Berras e tal, mas se eu te meto o dedo no nariz, cais logo em ti! És um falso bruto! É só show off, para pedir mimo!” E comovem-se os dois, num abraço do tamanho do mundo! Talvez nunca o Pedro tenha ouvido (numa formulação tão simples) nada tão integrador (e poderoso a serenar cicatrizes)!

  Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez o Amor definhe um bocadinho de cada vez que nos deixamos ofuscar com a superfície plana dos show off. Mas, talvez se expanda (vários universos!), de cada vez que insistimos em olhar o outro… para lá das luzes!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Maria (já não) vai com as outras: adolescer entre o medo e o entusiasmo

   Uma infeção respiratória não tornou muito fáceis os primeiros meses da Maria. Primeira filha e primeira neta, merecia as atenções preocupadas de todos. O primo que se lhe seguiu, 9 meses mais novo, viria, anos mais tarde, a fazer furor no infantário, que isto de começar a ler aos 4 anos não é para todos. A Maria não lia, ainda. Brincava! Brincava muito! E crescia bem: com o olhar vivo e a sensibilidade apurada, o imaginário a expandir e o corpo a mexer (É para isto que deve servir o jardim de infância, não é?). Da infeção respiratória sobrava apenas, lá ao longe, uma espécie de fantasma parental de que talvez a Maria precisasse de mais “bengalas” do que os outros. Talvez um bocadinho por isso; talvez um bocadinho para “compensar” a distância nas competências académicas para o primo leitor precoce (que, com o passar dos anos, não existia de todo na realidade dos factos, mas parecia bem viva no medo dos pais), a mãe da Maria sempre fez por estudar com (por) ela.
  Aos 14 anos, a Maria é uma adolescente viva, inteligente e afetuosa. Autónoma nas opiniões e na gestão das amizades, continua, apesar das boas notas, a ter na mãe a bengala para o estudo, sem a qual se vai imaginando mais ou menos incapaz. A época de testes é vivida como uma espécie de tortura. Na semana anterior já não consegue dormir bem. Agitada, muda, constantemente, o “centro de estudos” do quarto para a sala, da sala para o escritório do pai, voltando ao quarto para recomeçar o ciclo. Nenhum lugar lhe parece aconchegar o medo. Pior do que os testes, só mesmo as apresentações de Inglês. Por mais que treine, vezes sem conta, cada vírgula da apresentação custa-lhe horrores não ter a pronúncia “british” que vai, de forma muito, muito exagerada, reconhecendo em cada um dos seus colegas. Pior do que isso, só mesmo, a sensação de quase rebentar de tão vermelha que fica, ou o quão se sente ridícula quando a voz teima em embargar. Como se tudo isto não bastasse, as dores de barriga e os nós na garganta são, também, um habitué destas andanças.

  Mas porque é que uma adolescente viva, inteligente e cheia de qualidades parece desconfiar tanto das suas competências?

  A Maria começou a estudar sozinha. Muito a medo (tal como aconteceu com os seus pais, viriam a confessar mais tarde), ou não fosse a primeira vez que enfrentavam o “fantasma” de que o seu esforço e competências talvez não fossem suficientes para garantir boas notas. 
 A Maria morria de medo de, finalmente, comprovar, por A+B, que era incapaz e de, com isso, desiludir todos aqueles de quem gostava. Os pais morriam de medo de, feitas as contas, ter gerado uma filha com bom coração, mas “sem rasgo para a aprendizagem”. 
 As notas baixaram, de facto, num primeiro momento. Mas, à medida que a Maria ia sentindo que quem mais importa começava a acreditar verdadeiramente em si, ao mesmo tempo que começou a discorrer sobre os medos, a encontrar espaço relacional para eles, a compreendê-los e pensá-los (vestindo-os de palavras, na sua história), foram-se esbatendo as insónias, a tensão e as dores de barriga, ao mesmo tempo que ganhavam espaço a confiança e a “adrenalina” das apresentações, o gozo da criatividade e do conhecimento. E, com eles, os resultados escolares começaram a aparecer, depressa superando as performances da “Maria da bengala”.  

  Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez as competências em bruto (que todos temos!) nunca sejam suficientes por si só. À semelhança daquele célebre (e muito, muito bonito) vídeo do Europeu de Futebol em que o Ronaldo “obriga” o Moutinho a marcar o penálti, enfatizando que se falhar "que se lixe" (numa linguagem um bocadinho mais carregada de “alma”), talvez precisemos – sempre (!) – de quem (na nossa vinda interior e no mundo lá fora) acredite em nós, ajudando-nos a sintonizar com as nossas qualidades e a tirar partido delas, ao mesmo tempo que nos assegura que se falharmos ... “que se lixe”!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Ano Novo e outros desejos!

Gosto da ideia de se festejar o ano novo. Gosto de tudo o que sirva de mote para as pessoas celebrarem juntas! Mas a passagem de ano será muito mais do que uma festa qualquer. Tem uma dimensão simbólica (mais ou menos mágica) que a associa à possibilidade de recomeço. Afinal de contas: “ano novo, vida nova!”

12 badaladas, 12 passas, 12 desejos!
Pedir desejos é bom! Resgata a esperança. Ajuda a configurá-la. Mas não chega para conquistar o futuro! Os desejos precisam de ser acarinhados, polidos com paciência até, com uma pontinha de sorte, se transformarem em projetos viáveis.
Sim, desejar é bom! Na verdade, os desejos nunca são irrealizáveis! Ganhar o euromilhões ou comprar uma ilha no Pacífico não serão bem desejos, parece-me. Desejos megalómanos não serão bem desejos, parece-me. Servirão, quando muito como refúgio mágico para quem, tolhido pelo medo, se recusa a projetar o futuro. No fundo, não será tão diferente assim (ainda que por linhas travessas) de quando se poupa nos desejos (e nos rasgos de vida) para se poupar nas desilusões. 
Tenho para mim que o desejo será, assim, uma espécie de ligação, pela esperança, entre o imaginário e as possibilidades que a realidade oferece. Numa espécie de 2 em 1, será o caminho mais efetivo para agarrar o futuro, servindo, ao mesmo tempo como vacina que ajuda a metabolizar a desilusão. Uma dor condensada num falhanço (a partir do qual é possível tirar ilações e crescer com a experiência) será - tenho para mim - mais facilmente metabolizável do que a dor difusa, mas omnipresente, de quem, invariavelmente, não vai a jogo (evitando desejar ou precipitando-se numa catadupa de desejos megalómanos). 

Um Ano Novo cheio de desejos feitos projeto!

domingo, 6 de novembro de 2016

Lados lunares e outros recursos!

Sempre foi um exemplo. Para os colegas. Os primos. Os vizinhos. Na escola, no ballet, na música ou na catequese. Foi crescendo com a ideia de que o erro era coisa de fracos e que, a repetir-se, poderia, no limite, levar à prescrição: afinal de contas, dos fracos não reza a História! Talvez por isso, se fosse sentindo sempre muito mais confortável num mundo de regras. O importante era fazer direitinho. Cumprir e cumprir... por cumprir. Sem questionar ou levantar ondas. Cada teste escolar (por mais que dominasse a matéria de trás para a frente) era uma espécie de prova dos nove do seu valor enquanto pessoa. Passava sempre com distinção: na escola, no ballet, na música ou na catequese. Mas sentia, ainda assim, que ficava sempre aquém. Como se a possibilidade de errar a perseguisse por todo o lado, sem que os sucessos fossem capazes de estancar o medo, para lá do regozijo do momento.
  Nunca se portava mal. Nem fazia birras. Talvez desconfiasse (sempre) da ideia de haver alguém capaz de acolher o seu “lado lunar”. Na dúvida, tentava esconde-lo. Como se, ao camuflá-lo, ele deixasse, magicamente, de existir. Mas, se isso lhe foi assegurando os ganhos secundários de um lado excessivamente certinho, parece ter-lhe condicionado em demasia a capacidade espontânea e descontraída de se chegar aos outros. 
  E, mais ou menos de rompante, começaram a surgir os medos: de cães, primeiro. De dormir ou de estar sozinha à luz do dia, no quarto, depois. Dos meninos do recreio, na escola nova. De ir sozinha ao quintal. Dos melros que fizeram ninho na roseira do jardim. Das motas que passavam na estrada. Dos senhores do café do fundo da rua, etc, etc. Com os medos vieram, também,  ataques de fúria (que nunca ninguém lhe tinha visto!) cada vez mais frequentes, intercalados, ainda assim, com períodos em que voltava a exibir orgulhosamente a medalha olímpica do bom comportamento.
 
  Por mais que todos gostemos de medalhas de bom desempenho e de bom comportamento, talvez nem todas mereçam festejos e regozijos!
 Talvez o grande desafio seja mesmo o de compatibilizar regras (que balizem o crescimento) com espontaneidade; exigência com oportunidades de expressão (do “lado lunar” também...). 
 Talvez a tristeza, o medo, a raiva ou a inveja nunca se possam mesmo transformar em forças criativas à margem de um olhar que as acolha e ajude a transformar. Talvez estes sentimentos que, tantas vezes, vamos interpretando como “maus” não passem, tantas e tantas vezes, de “pensamentos à procura de um pensador” (recordando Bion) que vão corroendo, por dentro, sempre que não encontram acolhimento e transformação na relação.
 Afinal de contas, ninguém cresce saudável a tentar amordaçar o que sente, em favor do que acha que devia sentir! Ou não fosse o coração feito para sentir por inteiro… em relações que balizam os exageros, ao mesmo tempo que acolhem e transformam (também o "lado lunar"...)!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Entre o desejo e o medo!

  Diz – num tom muito mais irritado do que displicente ou sobranceiro – que não consegue estudar. Foi por isso e pela “estúpida mania de bloquear nos exames” que teve um rotundo chumbo na prova que lhe permitiria terminar o Secundário e entrar no Curso que, de forma muito envergonhada, ambiciona. De forma tão envergonhada que se apressa a dizer: “nunca na vida vou conseguir entrar”, irritando-se de forma veemente se alguém lhe chama a atenção para as possibilidades reais que tem.
 Acabadinha de fazer 18 anos, a Maria é uma miúda afetuosa e toda despachada, com ar de quem não leva desaforos para casa. Tem um olhar vivo e inteligente. Move-se com mestria por entre vários grupos de amigos e tem, quase sempre, de forma muito natural, uma posição de liderança nas várias atividades extracurriculares em que está inserida. Apesar de todas as suas qualidades tem vindo a poupar nos desejos muito para lá do razoável. Até para si parece ter medo de os sussurrar. Como se, à cautela, preferisse poupar nos sonhos para poupar nas desilusões. Parece, apesar de todo o seu potencial, verdadeiramente bloqueada de medo. Talvez seja isso que a impede de desejar a plenos pulmões, em vez de ficar sempre a meio caminho entre o desejo e o medo. Diz que não se consegue concentrar para estudar. Senta-se com o livro à frente, e logo se levanta para ir afiar o lápis. Depois envia uma qualquer sms absolutamente inadiável. Faz uma passagem rápida pelo facebook (que acaba, claro, por durar mais de uma hora). Levanta-se, novamente, agora para arrumar a prateleira dos CDs. E agora? Agora já é hora de jantar! Como somos todos tão bons a inventar prioridades de última hora quando queremos “fugir” do que nos mete medo! Numa das suas deambulações pelo facebook encontrou um daqueles textos bem ao género de: “como deixar de procrastinar em 10 passos”. Apressa-se a dizer: “mas comigo não resulta! Eu devo ter défice de atenção. E dos graves!”. E bem, bem seletivo acrescentaria eu, ou não fosse a Maria uma miúda atenta a todos os pormenores na hora de ler os pais, os professores ou os amigos. Ou não fosse a Maria capaz de se concentrar em todas as tarefas intelectualmente exigentes com que tem que lidar em algumas das suas atividades extracurriculares. Talvez o que atormente a Maria não seja uma incapacidade mais ou menos estrutural de se concentrar. Talvez essa seja só a estratégia que vem construindo há muito para não ir a jogo, evitando, assim, confrontar-se com os medos mais ou menos irrealistas (quais moinhos de vento do D. Quixote) que, involuntariamente, foi alimentando. Se, por um lado, se sente uma rapariga cheia de capacidades, por outro parece sentir-se permanentemente assombrada por um medo difuso, mas omnipresente: o medo de falhar, de ser realmente incapaz, de ser uma desilusão para os pais, de ser o patinho feio lá de casa (não é fácil ouvir os professores dia sim dia não a evocarem o rol de 19 e 20 que o seu irmão mais velho foi colecionando antes de ir para a Faculdade), etc. etc.                       

 Mas não é só na Escola que tem perdido por falta de comparência! A sintonia com o Bernardo é indisfarçável e a troca de olhares verdadeiramente enternecedora. Embora resista em admiti-lo até para si, há muito que a Maria suspira pelo seu abraço. Mas qual livro de matemática, acaba sempre por boicotar qualquer hipótese de ficarem a sós. Acaba sempre por “chutar para canto” qualquer sms mais insinuante.    ´
                                                  
Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez fiquemos todos (!) um bocadinho menos aptos para pensar, para nos concentrarmos, para estudar, para trabalhar, para criar, para namorar, para nos divertirmos, para nos fazermos à vida… sempre que poupamos nos desejos (e nos meios para os configurar em projetos viáveis) para poupar nas desilusões.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 26 de junho de 2016

Um admirável mundo novo*!

   Depois de um ano de ansiedade miudinha, exames e estudo empenhado, o João entrou, finalmente, no curso que sonhara. Desde que, há uns anos, foi ver o cortejo académico do primo que sonhava com a vida de universitário, com as festas e as noitadas, com a autonomia e o mar de pessoas e oportunidades que a Faculdade lhe ia trazer. Nos últimos dias antes da partida para a cidade que escolhera, sentia-se mais apreensivo. Comoviam-no os conselhos e gestos protetores dos pais, mas não lhe saía muito mais do que um: “que melgas, eu já sou crescido!”, como que não querendo dar parte de fraco. O mesmo aconteceu (com uma intensidade ampliada pela proximidade do futuro) no dia em que, finalmente, os pais o levaram ao quarto que tinha alugado a dois passos da Universidade e do centro da cidade. Ao almoço, manteve, por fora, a postura de “homem crescido sem medos”. Com mais custo, mas aguentou-se, depois, enquanto a mãe lhe fazia 1001 recomendações acerca da roupa, da comida e das saídas à noite, e o pai lhe falava, entre o entusiasmado e o assustado, da necessidade de conciliar responsabilidade com boémia. Talvez o João quisesse dizer: “eu sei, eu sei que há muito que sonhava com isto. Eu sei, eu sei, que isto vai ser bom para mim, mas estou com tanto medo! Tenho tanto medo das praxes, de me acharem ridículo na Faculdade, de não estar à altura das matérias, de não ser tão fácil fazer amigos como sempre imaginei que era, etc, etc”. Talvez o João quisesse sossegar-se com um: “Vai correr bem, não vai?”, ao mesmo tempo que corria para os braços dos pais e lhes perguntava: “vão cá estar sempre para me segurar quando não correr bem, não vão? Mesmo quando eu, inflamado e um bocadinho arrogante, disser que sou um homem crescido, e que não tenho medo de nada?”… Mas só lhe saiu um: “Mãe!!! Eu já tenho 18 anos! Dah, isto foi o que eu sempre quis!”. Depois de uma despedida tão calorosa quanto esta postura sobranceiro-assustada permitiu, assim que os pais fecharam a porta da sua nova casa, o João deitou-se sobre a sua nova cama (como lhe pareciam estranhos a almofada, o cheiro e as esquinas da nova casa) e chorou. Chorou desalmadamente. De medo (do que aí vinha). De raiva (por não ter conseguido ser claro na hora de procurar, no colo dos pais,  a segurança que o poderia sossegar). Até que o telefone tocou. Enxugou as lágrimas, mas não conseguiu disfarçar a voz triste e arrastada. Eram os pais, em uníssono, a dizer: “Hei, João, a primeira noite é um bocadinho difícil. A 2ª e a 3ª talvez também ainda possam ser um bocadinho. Mas vai, evidentemente, correr bem!”. Desta vez o João não se conteve... e chorou. Nem a distância que o telefone impõe o impediu de sentir o colo dos pais, bem ali, para si, forte e seguro, para o que desse e viesse. E o medo avassalador transformou-se numa espécie de nervoso miudinho que, pouco a pouco, começou a abrir brechas para o encantamento de quem está prestes a agarrar um admirável mundo novo.

 Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez os medos se tornem bem menos assustadores sempre que somos capazes de os confiar a quem os acolhe e nos ajuda a transformá-los, abrindo espaço para o entusiasmo de quem quer agarrar o futuro com as duas mãos!

*Título de um romance de Auldous Huxley

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.