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domingo, 11 de outubro de 2020

Um admirável mundo novo... em tempos de pandemia!

  Desde que, há uns anos, foi ver o cortejo académico do primo que sonhava com a vida de universitário, com as festas e as noitadas, com a autonomia e o mar de pessoas e oportunidades que a Faculdade lhe iria trazer. Depois de um ano de ansiedade miudinha, de exames e de estudo empenhado, o João entrou, finalmente, no curso e na Universidade que sonhara. Mas a pandemia trocara-lhe as voltas. Fora duro o 12º ano. Como é que pode não ser difícil gerir o medo de uma pandemia, as aulas online, primeiro, e o medo do regresso, depois? Como é que pode não ser difícil gerir o conflito entre o impulso (saudável!) para estar com o grupo de amigos, e o medo dos riscos e a culpabilidade que isso pode representar? 

   Nos últimos dias antes da partida para a cidade que escolhera para estudar, eram mil e uma as apreensões que lhe esmagavam o entusiasmo: como é que ia conseguir fazer amigos nestes tempos de distanciamento físico? Como é que se iria integrar se não existem festas, nem copos, nem noitadas? Como é que iria tropeçar no amor (como tantas vezes sonhara) se a máscara esconde as covinhas que faz quando sorri genuinamente? E se tivesse de ficar de quarentena, sozinho, num quarto que ainda está longe de sentir como seu? Pior, e se ficasse infetado e infetasse todos à volta? Como iriam ser as aulas? Como é que os mil e um medos lhe iriam permitir concentrar-se em aprender tudo o que tinha que saber (modelos de aulas, espaços físicos e virtuais, horários, etc.) para se organizar?
   Comoviam-no, por estes dias, os conselhos e gestos protetores dos pais. Mas, tão depressa, corria para o seu colo como, a seguir, não lhe saía muito mais do que um: “que melgas, eu já sou crescido!”. No dia em que, finalmente, os pais o levaram ao quarto que tinha alugado a dois passos da Universidade, não parece ter sido tão diferente assim (com uma intensidade ampliada pela proximidade do futuro). Ao almoço, manteve, por fora, a postura de “homem crescido sem medos”. Com mais custo, mas aguentou-se, depois, enquanto a mãe lhe fazia as mil e uma recomendações acerca dos cuidados com a COVID-19, da roupa, da comida e das saídas à noite, e o pai lhe falava, entre o entusiasmado e o assustado, da necessidade de conciliar responsabilidade académica e sanitária, com integração social. Talvez o João quisesse dizer: “eu sei, eu sei que há muito que sonhava com isto. Eu sei, eu sei, que isto vai ser bom para mim, mas estou com tanto medo! Tenho tanto medo de não estar à altura das matérias, de me acharem ridículo na Faculdade, de não ser tão fácil fazer amigos como sempre imaginei que iria ser... E depois há a COVID-19. Como é que se lida com a COVID-19 longe de vocês?”. Talvez o João quisesse dizer: “Vai correr bem, não vai?”, ao mesmo tempo que corria para os braços dos pais e lhes dizia: “vão cá estar sempre para me segurar quando não correr bem, não vão? Mesmo quando eu, inflamado e um bocadinho arrogante, disser que sou um homem crescido, e que não tenho medo de nada?”… Mas só lhe saiu um: “Mãe!!! Eu já tenho 18 anos! Dah, isto foi o que eu sempre quis!”. Depois de uma despedida tão calorosa quanto esta postura sobranceiro-assustada permitiu, assim que os pais fecharam a porta da sua nova casa, o João deitou-se sobre a sua nova cama (como lhe parecia estranha a textura do edredão, o cheiro e as esquinas da nova casa) e chorou. Chorou desalmadamente. De medo (do que aí vinha). De raiva (por não ter procurado a segurança que alavanca o entusiasmo no colo dos pais). Até que o telefone tocou. Enxugou as lágrimas, mas não conseguiu disfarçar a voz triste e arrastada. Eram os pais, em uníssono, a dizer: “Hei, João, a primeira noite é um bocadinho assustadora. A 2ª, a 3ª e a 4ª também ainda podem ser um bocadinho. Mas vai, evidentemente, correr bem!”. Desta vez o João chorou com os pais. Nem a distância que o telefone impõe o impediu de sentir o colo dos pais, bem ali, para si, forte e seguro, para o que desse e viesse. E o medo, pouco a pouco, foi-se tornando menos avassalador, abrindo-se, agora, espaço para que pudesse conviver com o entusiasmo de quem estava prestes a agarrar um admirável mundo novo.  

   Nunca percebi muito bem o slogan “não há ano como o de caloiro”, que se vai perpetuando em muitos meios académicos. A entrada no Ensino Superior é, de facto, uma fantástica janela para o mundo; um mar de oportunidade de abertura ao conhecimento e à diferença (de pessoas, percursos de vida, ideias, etc.). Mas, um slogan como este parece dar a entender que a adaptação a um admirável mundo novo (que implica, as mais das vezes, a saída de casa dos pais) tem de ser fácil e rápida. E quase nunca é! E não se fará à margem de um conflito interno entre o entusiasmo de se deixar encantar com as oportunidades (pessoais, sociais, amorosas, intelectuais, etc.) e o medo do desconhecido. Talvez, por isso, se aproxime mais da publicidade enganosa do que de uma fórmula capaz de legendar o que os jovens sentem, nestas circunstâncias. 
   A ser assim, talvez lhes possamos dizer que dificilmente há adaptações sem alguma turbulência interna (de convivência entre o entusiasmo e o medo); e que os medos tendem a tornar-se muito menos assustadores (deixando de tolher o melhor de nós), sempre que somos capazes de os confiar aos colos que nos ajudam a transformá-los (numa espécie de grito: vou com medo, mas vou!)
   A ser assim, talvez possamos dizer aos seus pais que, se não há autonomia sem vinculação, os filhos continuam a precisar muito deles – quer para os encorajarem a voar, quer para lhes assegurar - por palavras e gestos – que, por maior que possa ser a tempestade, serão sempre (!) o seu porto seguro!

*Título de um romance de Auldous Huxley

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 21 de julho de 2019

Ataco com fúria para me proteger!

   Foi crescendo com a ideia de que não era bom a fazer amigos. Nem no futebol, no basquete, ou na relação com a escola, a aprendizagem e os professores. Muito menos a fazer os pais sentirem-se orgulhosos das conquistas que, invariavelmente, pensava nunca estarem ao seu alcance. Por mais que tivesse um conjunto de competências de base para a relação ou para a aprendizagem, era difícil para o Francisco não se sentir uma espécie do patinho feio da família, da escola ou das atividades extracurriculares. Por mais que tivesse um conjunto de competências de base para se chegar aos outros, era difícil para o Francisco não assumir que a generalidade dos colegas e professores não morriam de amores por si. Por mais que tivesse um conjunto de competências de base merecedoras de orgulho, era difícil para o Francisco escapar à ideia de que era uma espécie de desilusão oficial para os pais. Não admira, portanto, que na hora de se misturar com os colegas, no recreio, as suas competências relacionais fossem ofuscadas pelo medo de se sentir rejeitado e humilhado. E que, em função disso, camuflasse o medo numa postura ora mais distante e altiva, ora mais arrogante e desafiadora. Com os professores não parecia ser muito diferente. Especialmente com aqueles que sentia gostarem menos de si. Entrava em escaladas de conflito que nem as sucessivas chamadas à direção pareciam conseguir parar. O registo antes quebrar que torcer parecia pautar, também, muitos aspetos da relação com a mãe. O desafio constante (para lá de todos os limites razoáveis) parecia aumentar de forma proporcional aos castigos com que o procurava disciplinar. Já com o pai, era mais difícil para o Francisco não quebrar. Não que o pai fosse particularmente austero. Mas, ao pé dele, o seu ar de durão rapidamente dava lugar a uma expressão abertamente triste, que acabava por rebentar num choro sofrido, mas já no quarto, para onde fugia para chorar sozinho, durante horas.

   Talvez o Francisco precise, de facto, de chorar durante horas. Mas não sozinho! Precisará, parece-me, de quem lhe páre os exageros (metendo-lhe o dedo no nariz com tanta convicção quanto a que for necessária) ao mesmo que acolhe as suas dores e medos, e os ajuda a compreender. Precisará, parece-me, de quem o ajude a perceber que, ao contrário do que foi imaginando, não tem nenhum defeito de fabrico que o impeça de se chegar aos outros. Que sente bem as injustiças e que tem o direito (e o dever!) de se revoltar contra elas. Mas que, quando estamos muito assustados, às vezes atacamos, com fúria, para nos protegermos. E que isso até pode afastar quem nos magoa mas, muitas vezes, é também um chega para lá monumental a todos aqueles que gostam de nós e que, com o seu amor, nos podem ajudar a metabolizar a dor. E que o grande desafio, nestas circunstâncias, é dar um chega para cá a quem não nos deixa ser arrogantes e altivos, ao mesmo tempo que nos ajuda a traduzir em palavras, em histórias e em gestos, os sinais de fumo  (da arrogância ao desafio) com que vamos comunicando a dor. Se assim for, estaremos todos mais aptos para reconhecer, em nós, as competências que nos tornam “gostáveis”. E, por isso, mais aptos para reclamar, com clareza, o amor, o cuidado e o orgulho de todos quantos são fundamentais para nós.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

O papão não, por favor!


As crianças vivas fazem birras! E ainda bem! Birras no supermercado, birras para não ir para a cama, para não comer a sopa, para não fazer os TPC, para ver mais televisão ou não largar o tablet, etc., etc.  E, muito compreensivelmente (atendendo às mil e uma preocupações que vão tendo de gerir – do trabalho às contas para pagar, das negativas do mais velho às birras do mais novo, passando pela saúde da avó ou pela perda de um amigo próximo, por exemplo) nem sempre os pais conseguem estar tão disponíveis e seguros quanto são capazes, na hora de mostrar as linhas vermelhas que devem balizar as reivindicações das crianças.

 Nessas circunstâncias, uma ou outra vez, os pais apelam ao papão, ao senhor do saco, ao senhor polícia ou até ao lado revanchista do Pai Natal (capaz de mirrar toda a magia com um só saco de carvão). E isso é batota! Uma batota compreensível, mas batota! Ao delegarem a sua autoridade nestas entidades mais ou menos estranhas estarão, nas entrelinhas, a dizer aos filhos qualquer coisa como: “por mim até podias comer só chocolates e nunca largar o tablet… mas contra o papão ou o homem do saco, eu não posso fazer nada”. Ora, se as crianças vão olhando (e bem!) para os pais como tendo um toque de super-heróis, capazes de tudo para as proteger, talvez não faça muito sentido dizer-lhes, ainda que nas entrelinhas: “olha que afinal não. Não sou bem eu que tenho a força necessária para te proteger e te segurar venha o que vier; para fazer por ti as escolhas que ainda não podes fazer sozinho, ou para te pôr no sítio quando exageras. Há um tal de papão ao pé do qual eu não posso lá grande coisa”. A ser assim, as crianças precisarão de superpoderes sim!  Mas dos superpoderes humanos dos pais que têm dúvidas e também se enganam; que às vezes também estão cansados e preocupados, mas que, em circunstância alguma deixam de, em nome próprio, fazer valer o que consideram ser o melhor para os filhos.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Os adultos também crescem?

 Fala da família com a alma toda. Da avó com o coração do tamanho do mundo, aos irmãos (mais velhos) com quem aprendeu a conciliar rivalidade com abraços cúmplices; passando, claro, pelos pais que lhe foram dando (com todos os defeitos que os pais bondosos também têm) o colo e a autonomia para crescer bem. Talvez por isso, a Bárbara, mulher com mundo, brilho no olhar e sangue na guelra, se venha a sentir crescentemente desconfortável com aquilo que sente ser o ressuscitar do controlo dos pais. Desde que regressou de uma experiência profissional no estrangeiro e assumiu, pela primeira vez, uma “relação séria”, que os sente a intensificar recomendações e comentários acerca do seu visual, da forma como decora e arranja a casa, dos investimentos financeiros que devia ou não fazer, etc., etc. Sem conseguir, ainda, interpelar os pais acerca do seu mal-estar, acaba por se deixar enredar num clima mais impaciente e quezilento. Diz-me, revoltada: “às vezes parece que só conseguem dizer que sou preciosa na vida deles e que têm muito orgulho em mim quando vivo a 2000 km de distância. Desde que cheguei de Londres nunca mais me disseram! É só reparos e recomendações e reparos e recomendações e reparos e recomendações! Aos olhos deles, parece que voltei a ter 16 anos, que não me sei orientar e que faço tudo ao contrário! Eu quero entender-me com eles. Eu preciso muito deles! Mas não desta maneira! Já não sou uma teenager à deriva”.
           
  Talvez o medo de que a filha deixe de precisar deles (como se os filhos alguma vez deixassem de precisar dos pais!!!) esteja a enevoar o entusiasmo e o orgulho que os pais da Bárbara sentirão no seu crescimento. Talvez estejam só, numa fórmula encriptada, a dizer, cada um à sua maneira: “És preciosa na minha vida. Tanto, que morro de medo que, à medida que vais crescendo, deixes de precisar de mim. E se deixares de precisar, o que vai ser de mim?” Afinal, ser-se capaz de ligar o complicómetro para comunicar numa espécie de código Morse, colocando no off a capacidade de dar luz ao que sentimos, é uma “incompetência” que (todos) vamos treinando vezes de mais.
  Talvez a Bárbara esteja, ainda, a pensar, dentro de si como pode ser tão clara quanto é capaz, com os pais. E a ganhar fôlego para, de uma assentada, lhes dizer que nunca a filha mais nova (como os irmãos) vai deixar de precisar muito, muito dos pais. Não para controlarem os seus passos (como quando era pequena), mas para a empurrarem para o melhor dos seus recursos. Não para desdenharem as suas escolhas (por mais pequeninas que sejam), mas para nunca deixarem de estar atentos e lhe porem o dedo no nariz se alguma vez a sentirem a desistir do melhor de si própria. E que, na volta, um és preciosa na minha vida; um tenho tanto orgulho em ti ou um gosto tanto de ti é tão mais eficaz na hora de mostrarmos às pessoas o quão são fundamentais na nossa vida do que um: este sofá não fica bem aqui; tenho de ir contigo comprar os candeeiros e o serviço de loiça que tu não tens jeitinho nenhum! E que, já agora, estará na hora de (re)descobrirem o sonho, o projeto e o futuro porque têm o direito (e já agora o dever! porque, seja aos 5, aos 16 ou aos 40, aprende-se muito mais por bons exemplos do que por bons conselhos) de serem muito mais do que pais da mais nova, da mais velha e dos do meio.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 4 de junho de 2017

E se eu não passar de ano?

  O teste de Português fê-lo suar mais do que a partida de futebol contra o 5º B, no intervalo grande. Como, de resto, o de Ciências, História e Inglês. Vinha de uma Escola pequenina, mesmo ao lado do infantário onde entrara com 3 anos. Os primeiros tempos não foram muito fáceis. Os pavilhões pareciam-lhe muito grandes e a fila para a cantina cheia de miúdos mais velhos, a lembrar-lhe que, à falta de melhor argumento, a idade (e a envergadura física) pode ser um posto. Reservado, integrou-se, ainda assim, relativamente bem na nova turma. As habilidades que saiam do seu pé esquerdo deram uma ajuda, vindo a garantir-lhe mesmo alguma popularidade lá para os lados do campo de futebol da Escola. Já na sala de aula, está a (muitas) léguas de se sentir um Ronaldo. A tensão com que enfrenta cada aula parece provocar-lhe dores de pernas mais intensas do que todas as correrias de um jogo de futebol, no intervalo de almoço. Entre o medo de, a qualquer momento, ser chamado ao quadro e o fantasma de ser realmente incapaz em matérias escolares, é difícil para o Carlos concentrar-se nas explicações da Professora de História ou de Ciências. Se a isso acrescentarmos a fúria que sente em silêncio sempre que a Professora elogia a inteligência e empenho da sua prima Mónica (aluna brilhante, pois claro!), fica difícil, para o Carlos, libertar espaço mental para se focar na aprendizagem. Em casa, perante a insistência constante dos pais para que estude (não resistindo a dar, uma ou outra vez, a prima Mónica ou a irmã mais velha como exemplo), deixou cair, entre lágrimas, um sofrido: “oh mãe, tu sabes que eu não dou para a Escola!”, expressão que, meses antes, ouvira, acidentalmente, numa conversa entre a avó e a mãe, a respeito do seu rendimento escolar.

  Se aprendemos com Bruner que a aprendizagem tem de ser enquadrada no contexto sociocultural (ligando conceitos teóricos com a realidade sociocultural e pessoal das crianças);  com João dos Santos que muito dificilmente há dificuldades de aprendizagem sem dificuldades emocionais;  com Bion (Gibello e tantos outros) que o desenvolvimento cognitivo nunca se faz à margem do desenvolvimento afetivo; se o relatório do Programa Nacional de Saúde Escolar(relativo ao ano letivo de 2014/2015) parece reconhecer a relação estreita entre sofrimento emocional e insucesso e indisciplina escolar, talvez faça sentido olharmos para os resultados escolares menos como uma espécie de decorrência direta do potencial cognitivo da criança (que, em muitas circunstâncias, parece não se traduzir nas performances que poderia alavancar) e mais como um aferidor do papel da Escola e da família na promoção da saúde (mental) e, com ela, da curiosidade e do conhecimento. A ser assim, talvez o Carlos precise tanto de estratégias pedagógicas (fundamentais, naturalmente), como de quem se sintonize com ele e o ajude a pensar tudo aquilo que vai sentindo mais ou menos em silêncio - do medo de ser incapaz que o parece bloquear, ao fantasma de desiludir pais e professores, passando pela fúria contida ao imaginar que, aos olhos dos professores, mas principalmente dos pais e da avó, nunca vai chegar aos calcanhares da prima ou da irmã – para, a partir daí, retirar contrapartidas práticas que o façam ir à luta na sala de aula como nunca deixa de ir no campo de futebol.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Maria (já não) vai com as outras: adolescer entre o medo e o entusiasmo

   Uma infeção respiratória não tornou muito fáceis os primeiros meses da Maria. Primeira filha e primeira neta, merecia as atenções preocupadas de todos. O primo que se lhe seguiu, 9 meses mais novo, viria, anos mais tarde, a fazer furor no infantário, que isto de começar a ler aos 4 anos não é para todos. A Maria não lia, ainda. Brincava! Brincava muito! E crescia bem: com o olhar vivo e a sensibilidade apurada, o imaginário a expandir e o corpo a mexer (É para isto que deve servir o jardim de infância, não é?). Da infeção respiratória sobrava apenas, lá ao longe, uma espécie de fantasma parental de que talvez a Maria precisasse de mais “bengalas” do que os outros. Talvez um bocadinho por isso; talvez um bocadinho para “compensar” a distância nas competências académicas para o primo leitor precoce (que, com o passar dos anos, não existia de todo na realidade dos factos, mas parecia bem viva no medo dos pais), a mãe da Maria sempre fez por estudar com (por) ela.
  Aos 14 anos, a Maria é uma adolescente viva, inteligente e afetuosa. Autónoma nas opiniões e na gestão das amizades, continua, apesar das boas notas, a ter na mãe a bengala para o estudo, sem a qual se vai imaginando mais ou menos incapaz. A época de testes é vivida como uma espécie de tortura. Na semana anterior já não consegue dormir bem. Agitada, muda, constantemente, o “centro de estudos” do quarto para a sala, da sala para o escritório do pai, voltando ao quarto para recomeçar o ciclo. Nenhum lugar lhe parece aconchegar o medo. Pior do que os testes, só mesmo as apresentações de Inglês. Por mais que treine, vezes sem conta, cada vírgula da apresentação custa-lhe horrores não ter a pronúncia “british” que vai, de forma muito, muito exagerada, reconhecendo em cada um dos seus colegas. Pior do que isso, só mesmo, a sensação de quase rebentar de tão vermelha que fica, ou o quão se sente ridícula quando a voz teima em embargar. Como se tudo isto não bastasse, as dores de barriga e os nós na garganta são, também, um habitué destas andanças.

  Mas porque é que uma adolescente viva, inteligente e cheia de qualidades parece desconfiar tanto das suas competências?

  A Maria começou a estudar sozinha. Muito a medo (tal como aconteceu com os seus pais, viriam a confessar mais tarde), ou não fosse a primeira vez que enfrentavam o “fantasma” de que o seu esforço e competências talvez não fossem suficientes para garantir boas notas. 
 A Maria morria de medo de, finalmente, comprovar, por A+B, que era incapaz e de, com isso, desiludir todos aqueles de quem gostava. Os pais morriam de medo de, feitas as contas, ter gerado uma filha com bom coração, mas “sem rasgo para a aprendizagem”. 
 As notas baixaram, de facto, num primeiro momento. Mas, à medida que a Maria ia sentindo que quem mais importa começava a acreditar verdadeiramente em si, ao mesmo tempo que começou a discorrer sobre os medos, a encontrar espaço relacional para eles, a compreendê-los e pensá-los (vestindo-os de palavras, na sua história), foram-se esbatendo as insónias, a tensão e as dores de barriga, ao mesmo tempo que ganhavam espaço a confiança e a “adrenalina” das apresentações, o gozo da criatividade e do conhecimento. E, com eles, os resultados escolares começaram a aparecer, depressa superando as performances da “Maria da bengala”.  

  Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez as competências em bruto (que todos temos!) nunca sejam suficientes por si só. À semelhança daquele célebre (e muito, muito bonito) vídeo do Europeu de Futebol em que o Ronaldo “obriga” o Moutinho a marcar o penálti, enfatizando que se falhar "que se lixe" (numa linguagem um bocadinho mais carregada de “alma”), talvez precisemos – sempre (!) – de quem (na nossa vinda interior e no mundo lá fora) acredite em nós, ajudando-nos a sintonizar com as nossas qualidades e a tirar partido delas, ao mesmo tempo que nos assegura que se falharmos ... “que se lixe”!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 13 de dezembro de 2015

E quando as notas fazem sombra à árvore de Natal?

  O Pedro ainda conseguiu esconder uma ou outra negativa dos pais durante o período. Agora, no espaço de duas semanas (e logo as duas semanas das férias de Natal!), teve de confrontar-se, de uma assentada, com o próprio insucesso (que andou, todo o período, a tentar varrer para debaixo do tapete), com o misto de desilusão e zanga bem estampado no rosto dos pais, e com a pergunta inevitável dos tios e dos avós, na noite de consoada: “então e a escola? Mereces os presentes?" Como se isso não bastasse, veio, também, o comentário da tia: “a tua prima teve dois 4 e o resto tudo 5”. Entre a fúria contida, o embaraço e o medo enorme de, na verdade, ser incapaz de fazer melhor, o Pedro não vai, provavelmente, ser capaz de muito mais do que um encolher de ombros à medida que o rubor toma conta do seu rosto. Se a avó ou uma tia (mesmo que com a melhor das intenções) insistirem, aí não se fica. Escudar-se-á, provavelmente, num tão sobranceiro quanto assustado: “quero lá saber da escola. Isso é para os marrões e para os betinhos”, que vai deixar os pais furiosos (já não bastava a forma como se sentiram quando receberam a catadupa de negativas do Pedro, mesmo ao lado da mãe do melhor aluno da turma?!)

  Se os insucessos pontuais são mais do que naturais, e até podem ajudar a construir a tolerância à frustração e a afinar a capacidade de aprender com os erros e a experiência, o insucesso repetido deverá, parece-me, merecer preocupação.
  Mas porque é que há crianças e adolescentes que, sendo capazes de utilizar os seus recursos cognitivos nas mais variadas circunstâncias (no domínio quase instantâneo das novas tecnologias, por exemplo) se desencontram da Escola, da aprendizagem e do conhecimento?

  O insucesso escolar está longe de ser um fenómeno simples, compatível com uma qualquer causalidade linear. Variáveis mais macro como o contexto socioeconómico e cultural, a parca estabilidade e estimulação familiar, as turmas enormes, a falta de tempo e de espaço para brincar livremente, o défice de recursos humanos, a falta de ligação entre algumas temáticas e a experiência de vida das crianças, por um lado, e o sentido de utilidade que conseguem conferir aos conteúdos, por outro serão, com certeza, decisivas para os números do insucesso escolar. Como se isso não bastasse, fatores da própria dinâmica relacional da criança parecem, também, em muitos dos casos, entrar na equação do insucesso escolar. 

   Se quando um adulto se sente invadido por angústias ou preocupações tende a ficar agitado e a ter dificuldades em focalizar a sua atenção e as suas energias em tarefas complexas, será razoável imaginar que as crianças funcionem de modo diferente, nas mesmas circunstâncias?
  Se quando alguns adultos se vêm confrontados com tarefas que imaginam muito exigentes (daquelas que, invariavelmente, despertam o medo do fracasso) tendem, num primeiro momento, a “inventar” prioridades de última hora, que parecem não servir para mais do que evitar o que sabem ser realmente prioritário (há alturas em que arrumar a pilha de papéis da prateleira mais alta da estante do escritório ou organizar a caixa de e-mail que está ao “Deus dará” há meses, se tornam tarefas absolutamente inadiáveis, de uma quase urgência de vida ou morte), será sensato esperar que as crianças, perante o medo do fracasso que algumas tarefas escolares lhes despertam, possam funcionar num registo diferente?  
  Se quando os adultos passam por períodos turbulentos tendem a esconder o brilhozinho dos olhos e a esbater o entusiasmo com que se entregam às mais diversas atividades, será sensato imaginar que com as crianças seja diferente?

  Parece-me que, num ou noutro caso, a cristalização de movimentos desta natureza não andará longe de concorrer, de forma muito significativa, para o insucesso escolar. A ser assim, tenho a ideia que promover o sucesso escolar passará também por ajudar as crianças a transformarem a complexidade do que sentem - do medo de falhar à dor que desperta um falhanço (mesmo que camuflada por uma atitude sobranceira e desinteressada), passando pela agressividade contida ou pelo desejo de se destacarem e serem competentes, mas principalmente de serem, nada mais nada menos, que os melhores do mundo aos olhos dos pais - em palavras, as palavras em histórias e as histórias em planos de ação, ao mesmo tempo que se lhes exige nada menos do que tudo aquilo que possam dar. 

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue -  sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal. 



domingo, 18 de outubro de 2015

Dores de crescimento

  Os pais do João acabam de chegar da reunião com a Diretora de turma. Apesar dele nunca ter tido notas tão exemplares quanto a irmã mais velha, sempre se foi safando com alguma facilidade. Ainda que o seu lado irreverente lhe tenha, sempre, barrado o acesso ao epíteto de exemplo para a turma (que a irmã foi colecionando ano após ano) nunca, no seu percurso escolar, os pais tinham ouvido queixas graves acerca do seu comportamento. Agora no 11º ano, “quando devia estar preocupado com a média” nota o pai, acumulam-se as faltas. E as negativas. E os repentes impetuosos com a Professora de Educação Física ou o Professor de Química. A juntar a um clima de grande crispação com a mãe e de distância tensa com o pai.
   Os pais estão muito zangados com o João: “Nunca a irmã (já no 1º ano da Faculdade) nos deu dores de cabeça assim” pontua o pai. E muito preocupados: “ele só quer boa vida. Falta às aulas. À 5ª, 6ª e sábado à noite não para em casa. Eu digo-lhe que é melhor ficar em casa a estudar, mas quando dou conta ele já saiu. Eu sei lá com quem é que ele anda” nota a mãe.
 Decidem, de imediato, que o João terá de tirar o piercing que, orgulhosamente, ostenta na sobrancelha. A discussão aquece muito para lá do razoável até que o João corre para o quarto, deixando soltar as primeiras lágrimas só depois de bater a porta com estrondo.
  Na 6ª feira seguinte, enquanto o João ultimava, cuidadosamente, os pormenores do seu estilo milimetricamente “maltrapilho” (como, jocosamente, lhe chama o pai) a mãe diz, mais uma vez, ao João para não sair. Já ele tinha entrado na porta do elevador e ainda a mãe discursava acerca dos malefícios do sair à noite com tanta frequência, na sua idade. A história repetiu-se no sábado seguinte. E nas 5ª, 6ª e sábados que se lhe seguiram.
   A relação entre o João e os pais parece, cada vez mais, uma espécie de guerra fria. A tensão permanente no ar só se materializa em conflito aberto quando o assunto é o piercing. E, aí, não é difícil imaginar que ultrapassa todas as regras do bom senso.
  Talvez o João precise de ajuda para se encontrar no turbilhão de coisas que vai sentindo dentro de si. Talvez os pais precisem de quem os ajude a sintonizarem-se com o João. Falam do medo quanto ao futuro do João. Mas mantêm sob silêncio (talvez na esperança de o fazer desaparecer) o fantasma de não serem bons pais ou do João, verdadeiramente, não gostar deles.
    Se o João conseguisse traduzir o que sente em palavras tão bem como traduz as letras dos Muse e dos Pearl Jam para as suas colegas, talvez pudesse dizer aos pais que, por mais que tenha 1,80 m e barba de homem, precisa muito dos pais. Para lhe balizarem o crescimento com regras claras e firmes, por um lado, e para o segurarem num abraço, por outro.
   Se o João conseguisse traduzir o que sente em palavras tão bem como traduz as tácticas em noite de Liga os Campeões, talvez pudesse dizer aos pais que morre de medo de, aos seus olhos, nunca chegar aos calcanhares da irmã. Que as suas negativas não são resultado de incapacidade ou de preguiça (como poderiam pensar os mais distraídos). Que acontecem muito mais em função de estar muito receoso relativamente ao seu próprio valor e que, nessas circunstâncias, às vezes, se adota uma postura sobranceira de: “se eu quisesse tirava boas notas, eu é que não estudo”, que é assim uma maneira de nunca se por à prova!
   Se o João conseguisse traduzir o que sente em palavras tão bem como faz a sua guitarra soar os acordes das músicas dos The Cure, talvez pudesse dizer ao pai que sente muita falta de quando iam ao estádio só os dois ou quando os jogos do Porto na TV eram uma espécie de ritual sagrado vivido a dois. E que, de cada vez que o pai não toma a iniciativa para esses programas a dois, outrora invioláveis, se sente um bocadinho abandonado e com medo de não passar de uma desilusão para o pai. E que chorou, sozinho no quarto – por se sentir abandonado e desvalorizado de uma assentada - quando foi ignorado pelo pai, que queria ver o debate na TV, quando, pela primeira vez, o interpelou para discutir política. Vinha entusiasmado dos dias em que passou fora, com o primo mais velho, na Queima das Fitas: para além dos concertos, da festa, e das cervejas à beira rio, o grupo de amigos do primo discutia política como se fossem mudar o mundo numa só noite.
   Se o João conseguisse traduzir o que sente em palavras tão bem quanto interpreta o espírito do futebol amador quando se esfalfa num ou noutro jogo em casa, talvez pudesse dizer à mãe que, por mais que proteste, se sente protegido e amado de cada vez que ela é mãe galinha. Mas que, de cada vez que ela e o pai não o impedem, com firmeza, de fazer o que não é melhor para si (como nas saídas à noite em catadupa) - e, por mais que isso, num primeiro momento, até o possa fazer sentir triunfante (à semelhança de uma criança que, repetidamente, leva a sua avante com a birra de supermercado) - acaba sempre por o fazer sentir sozinho e um bocadinho inseguro em relação ao amor dos pais, numa lógica de: “se eles gostassem mesmo, mesmo de mim, não me deixavam (custasse o que custasse) fazer o que não é melhor para mim”! Se assim fosse, talvez pudesse falar com os pais, com um primo ou com um amigo mais próximo da discrepância que sente entre a popularidade que tem entre as raparigas e o medo imenso de se chegar com convicção à Margarida do 11º C, por quem suspira intervalo após intervalo e, com quem parece estar a perder terreno a olhos vistos para o betinho do 12º A. Talvez pudesse dizer aos pais que, por tudo isto e muito mais, carrega, dentro de si, um misto de medo, mágoa e raiva. E que este turbilhão - que só parece poder tornar-se mais ou menos manifesto à boleia de um braço de ferro à volta de um piercing na sobrancelha - parece servir de pano de fundo a todos os desencontros que tem vindo a acumular com a vida.

 Tudo parece passar-se, com o João e os pais (e com tantos e tantos adolescentes, adultos e crianças) como se, de repente, estivessem sentados no mesmo banco de jardim, de costas uns para os outros, numa qualquer tarde solarenga de Outono. O que mais queriam era aproximarem-se, sentarem-se lado a lado, frente a frente, entenderem-se de uma vez. Mas chegada a hora da verdade, de tão destreinados que estão em falar claro (numa espécie de ligação direta entre o que sentem e o que põem em palavras), os apelos (toldados pelo medo e pela mágoa) teimassem em sair, invariavelmente, em forma de chega para lá… como que à espera de um descodificador que lhes devolva a simplicidade do falar claro. 


Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.