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domingo, 4 de junho de 2017

E se eu não passar de ano?

  O teste de Português fê-lo suar mais do que a partida de futebol contra o 5º B, no intervalo grande. Como, de resto, o de Ciências, História e Inglês. Vinha de uma Escola pequenina, mesmo ao lado do infantário onde entrara com 3 anos. Os primeiros tempos não foram muito fáceis. Os pavilhões pareciam-lhe muito grandes e a fila para a cantina cheia de miúdos mais velhos, a lembrar-lhe que, à falta de melhor argumento, a idade (e a envergadura física) pode ser um posto. Reservado, integrou-se, ainda assim, relativamente bem na nova turma. As habilidades que saiam do seu pé esquerdo deram uma ajuda, vindo a garantir-lhe mesmo alguma popularidade lá para os lados do campo de futebol da Escola. Já na sala de aula, está a (muitas) léguas de se sentir um Ronaldo. A tensão com que enfrenta cada aula parece provocar-lhe dores de pernas mais intensas do que todas as correrias de um jogo de futebol, no intervalo de almoço. Entre o medo de, a qualquer momento, ser chamado ao quadro e o fantasma de ser realmente incapaz em matérias escolares, é difícil para o Carlos concentrar-se nas explicações da Professora de História ou de Ciências. Se a isso acrescentarmos a fúria que sente em silêncio sempre que a Professora elogia a inteligência e empenho da sua prima Mónica (aluna brilhante, pois claro!), fica difícil, para o Carlos, libertar espaço mental para se focar na aprendizagem. Em casa, perante a insistência constante dos pais para que estude (não resistindo a dar, uma ou outra vez, a prima Mónica ou a irmã mais velha como exemplo), deixou cair, entre lágrimas, um sofrido: “oh mãe, tu sabes que eu não dou para a Escola!”, expressão que, meses antes, ouvira, acidentalmente, numa conversa entre a avó e a mãe, a respeito do seu rendimento escolar.

  Se aprendemos com Bruner que a aprendizagem tem de ser enquadrada no contexto sociocultural (ligando conceitos teóricos com a realidade sociocultural e pessoal das crianças);  com João dos Santos que muito dificilmente há dificuldades de aprendizagem sem dificuldades emocionais;  com Bion (Gibello e tantos outros) que o desenvolvimento cognitivo nunca se faz à margem do desenvolvimento afetivo; se o relatório do Programa Nacional de Saúde Escolar(relativo ao ano letivo de 2014/2015) parece reconhecer a relação estreita entre sofrimento emocional e insucesso e indisciplina escolar, talvez faça sentido olharmos para os resultados escolares menos como uma espécie de decorrência direta do potencial cognitivo da criança (que, em muitas circunstâncias, parece não se traduzir nas performances que poderia alavancar) e mais como um aferidor do papel da Escola e da família na promoção da saúde (mental) e, com ela, da curiosidade e do conhecimento. A ser assim, talvez o Carlos precise tanto de estratégias pedagógicas (fundamentais, naturalmente), como de quem se sintonize com ele e o ajude a pensar tudo aquilo que vai sentindo mais ou menos em silêncio - do medo de ser incapaz que o parece bloquear, ao fantasma de desiludir pais e professores, passando pela fúria contida ao imaginar que, aos olhos dos professores, mas principalmente dos pais e da avó, nunca vai chegar aos calcanhares da prima ou da irmã – para, a partir daí, retirar contrapartidas práticas que o façam ir à luta na sala de aula como nunca deixa de ir no campo de futebol.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Entre o desejo e o medo!

  Diz – num tom muito mais irritado do que displicente ou sobranceiro – que não consegue estudar. Foi por isso e pela “estúpida mania de bloquear nos exames” que teve um rotundo chumbo na prova que lhe permitiria terminar o Secundário e entrar no Curso que, de forma muito envergonhada, ambiciona. De forma tão envergonhada que se apressa a dizer: “nunca na vida vou conseguir entrar”, irritando-se de forma veemente se alguém lhe chama a atenção para as possibilidades reais que tem.
 Acabadinha de fazer 18 anos, a Maria é uma miúda afetuosa e toda despachada, com ar de quem não leva desaforos para casa. Tem um olhar vivo e inteligente. Move-se com mestria por entre vários grupos de amigos e tem, quase sempre, de forma muito natural, uma posição de liderança nas várias atividades extracurriculares em que está inserida. Apesar de todas as suas qualidades tem vindo a poupar nos desejos muito para lá do razoável. Até para si parece ter medo de os sussurrar. Como se, à cautela, preferisse poupar nos sonhos para poupar nas desilusões. Parece, apesar de todo o seu potencial, verdadeiramente bloqueada de medo. Talvez seja isso que a impede de desejar a plenos pulmões, em vez de ficar sempre a meio caminho entre o desejo e o medo. Diz que não se consegue concentrar para estudar. Senta-se com o livro à frente, e logo se levanta para ir afiar o lápis. Depois envia uma qualquer sms absolutamente inadiável. Faz uma passagem rápida pelo facebook (que acaba, claro, por durar mais de uma hora). Levanta-se, novamente, agora para arrumar a prateleira dos CDs. E agora? Agora já é hora de jantar! Como somos todos tão bons a inventar prioridades de última hora quando queremos “fugir” do que nos mete medo! Numa das suas deambulações pelo facebook encontrou um daqueles textos bem ao género de: “como deixar de procrastinar em 10 passos”. Apressa-se a dizer: “mas comigo não resulta! Eu devo ter défice de atenção. E dos graves!”. E bem, bem seletivo acrescentaria eu, ou não fosse a Maria uma miúda atenta a todos os pormenores na hora de ler os pais, os professores ou os amigos. Ou não fosse a Maria capaz de se concentrar em todas as tarefas intelectualmente exigentes com que tem que lidar em algumas das suas atividades extracurriculares. Talvez o que atormente a Maria não seja uma incapacidade mais ou menos estrutural de se concentrar. Talvez essa seja só a estratégia que vem construindo há muito para não ir a jogo, evitando, assim, confrontar-se com os medos mais ou menos irrealistas (quais moinhos de vento do D. Quixote) que, involuntariamente, foi alimentando. Se, por um lado, se sente uma rapariga cheia de capacidades, por outro parece sentir-se permanentemente assombrada por um medo difuso, mas omnipresente: o medo de falhar, de ser realmente incapaz, de ser uma desilusão para os pais, de ser o patinho feio lá de casa (não é fácil ouvir os professores dia sim dia não a evocarem o rol de 19 e 20 que o seu irmão mais velho foi colecionando antes de ir para a Faculdade), etc. etc.                       

 Mas não é só na Escola que tem perdido por falta de comparência! A sintonia com o Bernardo é indisfarçável e a troca de olhares verdadeiramente enternecedora. Embora resista em admiti-lo até para si, há muito que a Maria suspira pelo seu abraço. Mas qual livro de matemática, acaba sempre por boicotar qualquer hipótese de ficarem a sós. Acaba sempre por “chutar para canto” qualquer sms mais insinuante.    ´
                                                  
Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez fiquemos todos (!) um bocadinho menos aptos para pensar, para nos concentrarmos, para estudar, para trabalhar, para criar, para namorar, para nos divertirmos, para nos fazermos à vida… sempre que poupamos nos desejos (e nos meios para os configurar em projetos viáveis) para poupar nas desilusões.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 13 de dezembro de 2015

E quando as notas fazem sombra à árvore de Natal?

  O Pedro ainda conseguiu esconder uma ou outra negativa dos pais durante o período. Agora, no espaço de duas semanas (e logo as duas semanas das férias de Natal!), teve de confrontar-se, de uma assentada, com o próprio insucesso (que andou, todo o período, a tentar varrer para debaixo do tapete), com o misto de desilusão e zanga bem estampado no rosto dos pais, e com a pergunta inevitável dos tios e dos avós, na noite de consoada: “então e a escola? Mereces os presentes?" Como se isso não bastasse, veio, também, o comentário da tia: “a tua prima teve dois 4 e o resto tudo 5”. Entre a fúria contida, o embaraço e o medo enorme de, na verdade, ser incapaz de fazer melhor, o Pedro não vai, provavelmente, ser capaz de muito mais do que um encolher de ombros à medida que o rubor toma conta do seu rosto. Se a avó ou uma tia (mesmo que com a melhor das intenções) insistirem, aí não se fica. Escudar-se-á, provavelmente, num tão sobranceiro quanto assustado: “quero lá saber da escola. Isso é para os marrões e para os betinhos”, que vai deixar os pais furiosos (já não bastava a forma como se sentiram quando receberam a catadupa de negativas do Pedro, mesmo ao lado da mãe do melhor aluno da turma?!)

  Se os insucessos pontuais são mais do que naturais, e até podem ajudar a construir a tolerância à frustração e a afinar a capacidade de aprender com os erros e a experiência, o insucesso repetido deverá, parece-me, merecer preocupação.
  Mas porque é que há crianças e adolescentes que, sendo capazes de utilizar os seus recursos cognitivos nas mais variadas circunstâncias (no domínio quase instantâneo das novas tecnologias, por exemplo) se desencontram da Escola, da aprendizagem e do conhecimento?

  O insucesso escolar está longe de ser um fenómeno simples, compatível com uma qualquer causalidade linear. Variáveis mais macro como o contexto socioeconómico e cultural, a parca estabilidade e estimulação familiar, as turmas enormes, a falta de tempo e de espaço para brincar livremente, o défice de recursos humanos, a falta de ligação entre algumas temáticas e a experiência de vida das crianças, por um lado, e o sentido de utilidade que conseguem conferir aos conteúdos, por outro serão, com certeza, decisivas para os números do insucesso escolar. Como se isso não bastasse, fatores da própria dinâmica relacional da criança parecem, também, em muitos dos casos, entrar na equação do insucesso escolar. 

   Se quando um adulto se sente invadido por angústias ou preocupações tende a ficar agitado e a ter dificuldades em focalizar a sua atenção e as suas energias em tarefas complexas, será razoável imaginar que as crianças funcionem de modo diferente, nas mesmas circunstâncias?
  Se quando alguns adultos se vêm confrontados com tarefas que imaginam muito exigentes (daquelas que, invariavelmente, despertam o medo do fracasso) tendem, num primeiro momento, a “inventar” prioridades de última hora, que parecem não servir para mais do que evitar o que sabem ser realmente prioritário (há alturas em que arrumar a pilha de papéis da prateleira mais alta da estante do escritório ou organizar a caixa de e-mail que está ao “Deus dará” há meses, se tornam tarefas absolutamente inadiáveis, de uma quase urgência de vida ou morte), será sensato esperar que as crianças, perante o medo do fracasso que algumas tarefas escolares lhes despertam, possam funcionar num registo diferente?  
  Se quando os adultos passam por períodos turbulentos tendem a esconder o brilhozinho dos olhos e a esbater o entusiasmo com que se entregam às mais diversas atividades, será sensato imaginar que com as crianças seja diferente?

  Parece-me que, num ou noutro caso, a cristalização de movimentos desta natureza não andará longe de concorrer, de forma muito significativa, para o insucesso escolar. A ser assim, tenho a ideia que promover o sucesso escolar passará também por ajudar as crianças a transformarem a complexidade do que sentem - do medo de falhar à dor que desperta um falhanço (mesmo que camuflada por uma atitude sobranceira e desinteressada), passando pela agressividade contida ou pelo desejo de se destacarem e serem competentes, mas principalmente de serem, nada mais nada menos, que os melhores do mundo aos olhos dos pais - em palavras, as palavras em histórias e as histórias em planos de ação, ao mesmo tempo que se lhes exige nada menos do que tudo aquilo que possam dar. 

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue -  sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.