domingo, 12 de junho de 2016

Pode alguém ser quem não é*?!

  A Maria é Professora vai para mais de 10 anos. Foi por gosto que escolheu ensinar Português. Mas isso era dantes. Há muito que a paixão pela literatura (em que se foi “refugiando” desde muito nova) perdeu terreno para a angústia miudinha que toma conta de si a cada viagem para a Escola. Sente-se desrespeitada, atacada, desvalorizada pelos alunos. Está tão inflamada que sente a mínima interpelação provocatória como mais um atestado de incompetência. Sente-se incapaz de dar um murro na mesa e de mostrar quem é o Professor, quanto mais de pôr no bolso os 2 ou 3 alunos que parecem ter um gostinho especial em “picar” a Professora. Sente-se incapaz de se encantar com as obras que outrora a faziam sonhar, quanto mais de entusiasmar os alunos, ajudando-os a mergulhar nas histórias. Tentar falar com os colegas, pedir a sua ajuda, abrir aí um espaço de reflexão, está completamente fora de questão. Ou não entrasse em cada reunião dominada pela ideia aterrorizadora: “é desta que vão descobrir que sou uma absoluta incompetente e me vão encostar à parede”! Apesar de estar deslocada de casa, raramente entra nos jantares e noites de esplanada dos colegas. Fica tensa ao pé deles, sempre a medir as palavras. A Maria é uma mulher inteligente. Mas, ao pé dos colegas, de voz trémula, vai alternando as opiniões à medida do que imagina serem as suas expectativas. Se o Tomás - o Professor de Educação Física com quem fantasia noite após noite – está por perto, fica ainda mais calada do que o costume. Ao contrário do que muitas vezes imagina, a maioria dos colegas gostam dela (tanto que, apesar das suas desculpas recorrentes, não desistem de a convidar para os seus programas sociais). As opiniões camaleónicas (ao sabor do que imagina serem as expectativas dos outros) não deixam de ser irritantes, mas o olhar assustado e com um je ne sais quoi de bondoso e abandonado aproximam. Num desses jantares, depois de ter bebido 2 cervejas por pressão do grupo, não se aguentou e acabou a chorar com a Filipa, uma colega afetuosa que lhe elogiou as qualidades e lhe disse, de forma convicta, que uma mulher com as suas competências tinha que ser mais assertiva: com os alunos, a Direção da Escola, os colegas e o Amor. No dia seguinte, a Maria sentia-se dividida entre a vergonha de ter partilhado alguns dos seus “medos tontos” (como lhes chama), o medo de que a Filipa não os soubesse guardar, espalhando-os por toda a sala de Professores, e a esperança que brotou de se ter confiado um bocadinho a um “colo” afetuoso. Talvez tenha sido este o mote para pedir ajuda “para deixar de tentar ser quem não sou; para deixar de ter tanto medo de ser eu, como me dizia a Filipa”.
           
  Mas porque é que algumas pessoas parecem gastar tanta energia a tentar ser quem não são? Pode alguém ser quem não é?
Fomos aprendendo (com Winnicott e Sami-Ali, passando por Bion e tantos, tantos outros) que sermos mais iguais a nós próprios nos dá um sentido de coerência ao caminho, nos aproxima de quem puxa pelo melhor de nós e nos faz, mais vezes, felizes! Mas fomos aprendendo, também, que a assertividade, a autodeterminação e a autonomia se alimentam, desde muito cedo nas nossas vidas, de relações verdadeiras que, nunca deixando de nos mostrar os limites e de nos pôr no lugar, abrem espaço para o que somos, respeitando-nos os ritmos, validando-nos e ajudando-nos a legendar a intensidade do que sentimos, e nunca, nunca desistindo de puxar pelo melhor de nós. Em certo sentido, acho que nunca deve este deixar de ser, também, um dos pilares de uma relação terapêutica.


*Título de uma música do Sérgio Godinho

Nota: Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 22 de maio de 2016

Porque eu só estou bem aonde eu não estou!*

  Sempre foi bom a Física e a Matemática (ainda que a História nunca tivesse deixado de ser uma espécie de paixão platónica). Nos anos do Curso, numa área de interseção entre a Engenharia e as Novas Tecnologias (o sonho de qualquer mãe, portanto), foi conseguindo conciliar algoritmos com noitadas a saltitar entre o Bairro Alto e o Cais do Sodré. “Bebia-se muito. E estava-se bem. Quer dizer…”. O Pedro sentia, na altura como hoje, uma ansiedade de fundo, ora mais miudinha ora mais ruidosa, mas sempre à espreita. À boa maneira da canção do António Variações, só parecia estar bem onde não estava, saltitando de bar em bar, à procura sabe-se lá do quê. Acabava por não se divertir tanto assim. Estava sempre em grupo, como se precisasse disso para se perder nos seus pensamentos e inseguranças. Bebia. Bebia muito. Não tanto por prazer. Menos ainda para celebrar a alegria de estarem juntos. Na verdade, tanta vodka, parecia não ser muito mais do que uma forma de calar uma ansiedade difusa, mas omnipresente, ao mesmo tempo que lhe dava a desinibição que precisava para se aproximar das turistas nórdicas. Turistas, sempre turistas. Ou, quando muito, estudantes Erasmus. Desde que a Maria, no 3º ano de Faculdade, o deixou de coração partido, não mais se permitiu aproximar de ninguém que pudesse percorrer as ruas da mesma cidade no mês seguinte.
  Com o fim do curso, uma oportunidade de emprego trouxe-o de volta à cidade que o viu crescer. Deixou para trás as noitadas de estudo no Técnico e as deambulações desenfreadas no Bairro Alto. O trabalho intenso fazia, agora, as vezes da Faculdade. Os bares novos as vezes dos velhos. Mas faltava dimensão (e disponibilidade) ao grupo, que isto de se terem reuniões importantes logo pela manhã tem que se lhe diga. A ansiedade, essa parecia ser cada vez menos miudinha. Teimava, agora, em impor-se de rompante nas situações mais inconvenientes, acelerando a respiração e fazendo o coração querer saltar pela boca.

  Talvez, às vezes, façamos todos um bocadinho de Pedro. Talvez, às vezes, as pessoas sejam todas um bocadinho especialistas em (de fuga para a frente em fuga para a frente) tentar camuflar a angústia. Mas se isso até pode, numa ou noutra circunstância muito particular, ser útil num primeiro momento, tenho para mim que, quando cristaliza em movimentos mais enquistados, deixa as pessoas mais distantes dos seus recursos saudáveis e, por isso, mais sozinhas e com menos armas para fazerem face a uma angústia crescente. Talvez seja só quando as pessoas se começam a reencontrar com as histórias e as pessoas que moram bem dentro da sua história, ao mesmo tempo que puxam para si quem lhes faz bem, que a esperança e a vitalidade ganham (verdadeira e decisivamente) o protagonismo à angústia e ao desamparo.

*Título inspirado na música do António Variações

 Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 8 de maio de 2016

Agora não que me dói a cabeça!*

  Começou por não querer ir às visitas de estudo. Porque os meninos cantam canções foleiras no autocarro, explica. Deixou, depois, de querer ir ao intervalo. Porque os meninos são muito brutos a jogar à bola e podem magoá-lo, justifica. Depressa deixou de querer ir à Escola. Mas, como seria de esperar, o argumento básico do “não gosto” não colheu junto dos pais. Tentou, por isso, aprimorá-lo com um sedutor: “podia ir contigo para o escritório, mamã”. Por mais que a mãe se tivesse, secretamente, sentido um bocadinho vaidosa, o argumento continuou, naturalmente, a não colher. Só havia uma solução: endurecer a luta! Vieram as dores de barriga e de cabeça (chegando, mesmo, a fazer febres ligeiras num ou noutro dia), os episódios de angústia e as crises de choro à saída de casa e à porta da Escola.
  Talvez o que o João estivesse a querer dizer com a sua escalada de “efeitos especiais” não fosse tanto que não gosta da Escola, mas mais que não sabe o que fazer ao medo! Talvez o que mais o assuste nas visitas de estudo não seja bem a qualidade das canções, mas mais o medo de sentir a discrepância incómoda entre a descontração divertida dos colegas e a contração tensa de quem não sabe muito bem como fazer para se chegar aos outros. Talvez o que o assuste mais no futebol não sejam bem as caneladas. Talvez seja mais o medo de não saber bem como é que se pode competir, de igual para igual (de forma leal, franca e aberta), sem se ser atropelado pela dor da derrota (potencial). Talvez o que o assuste mais na Escola não sejam tanto as idas ao quadro ou os testes, mas mais a ideia de que pode soçobrar perante o insucesso (seja ele na matemática, no futebol, nas canções ou na relação com os colegas).

 Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez alguns movimentos altivos e sobranceiros (à boa maneira da parábola da raposa e das uvas) e a cristalização de alguns evitamentos fóbicos não sejam muito mais do que uma forma que crianças e adultos utilizam para fugir (não indo, invariavelmente, a jogo) do fantasma de poderem ser engolidos pela dor da derrota. Mas se, muito circunstancialmente, movimentos desta natureza até nos podem proteger de um ou outro “perigo” potencial, quando se tornam sistemáticos, tenho para mim, que da única coisa que nos protegem é do melhor de nós próprios! 

* título inspirado no Movimento Perpétuo Associativo dos Deolinada

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

terça-feira, 26 de abril de 2016

E se brincar fosse uma coisa muito séria?

  A Maria tem 9 anos e (quase) nunca menos de 95 % nas provas da Escola. Nas raras vezes em que ousa distrair-se um bocadinho e cometer a veleidade de ter só 85 % chora baba e ranho como se o mundo fosse acabar. É exemplar no ballet e na música. Nunca teve queixas na caderneta e a Professora, a catequista, as Professora do ballet e da música dizem, a uma só voz, que é um amor, que mais que uma menina parece uma mulher feita, de tão bem comportada. Um exemplo para os colegas, de tão sossegadinha que é, acrescenta a auxiliar que supervisiona o recreio.
  Mas se nas coisas de graúda a Maria vai pontuando quase sempre 100 %, vê-se aflita na hora de se misturar com as outras crianças, no recreio. A maioria das vezes tenta não se afastar da Professora ou da auxiliar. Os outros meninos jogam à bola ou à apanhada. À Maria assusta-a a forma sôfrega e atabalhoada como o fazem. Às vezes brincam às princesas ou às artistas de músicas infantis. Aí, a Maria lá se chega a medo, mas acaba por nunca encontrar o seu espaço no jogo. O mesmo se passa quando fazem construções na areia ou castelos com pedrinhas.
  Vai-se sentindo confortável com as coisas de adulto, com os testes e os trabalhos, as pautas e os passos de ballet treinados exaustivamente. Mas parece sempre tensa. Como se estivesse, permanentemente, a segundos de entrar para a entrevista do seu 1º emprego. Quase nunca faz um sorriso rasgado. Quase nada a parece divertir. Nem os jogos do tablet, aos quais se agarra intervalo após intervalo. Nem os bolos que faz com a mãe, nas tardes de sábado. Nem as atividades da catequese ou da música, que prepara meticulosamente.  Quase nada lhe parece dar o direito de brincar… pelo simples gozo de brincar.
 Se esta postura sisuda foi valendo alguns ganhos secundários à Maria, a verdade é que nunca deixou de preocupar a Professora. Tantas gerações de crianças a quem foi dando tanto colo quanto ralhetes, foram-lhe ensinando que é pelo menos tão importante o entusiasmo e o brilho nos olhos na hora de brincar, quanto uma letra redondinha e testes irrepreensíveis. Talvez tivesse razão a Professora: depressa o lado certinho da Maria começou a não ser suficiente para a segurar. Primeiro veio o evitamento de qualquer visita de estudo ou atividade fora da escola. Depois o medo de cães (de todos os tamanhos e feitios), de dormir e estar sozinha, de fazer audições públicas na música, etc., etc. . Depois as dores de cabeça antes de ir ao intervalo, primeiro, e ao acordar, depois. Multiplicavam-se os medos à medida que se encolhia, ainda mais, o seu entusiasmo e autonomia.

  Há um punhado de anos ouvi, num Congresso, uma extraordinária contadora de histórias (Cristina Taquelim) falar de um menino que queria ser “brincador” quando crescesse. É fascinante esta ideia de se ser “brincador”, não é?
 Parece que nos preocupamos todos muito (e bem, a meu ver) quando se sucedem os recados na caderneta, as queixas de comportamento ou os desencontros com as boas notas. Mas talvez nos preocupemos de menos com as crianças (e com os adultos) que, sem dar nas vistas, parecem ter muitas dificuldades em soltar o seu lado “brincador”: entusiasmado, curioso, ousado, atabalhoado às vezes, mas mexido e vivo. 

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

terça-feira, 12 de abril de 2016

A quanto perigo preciso de me expor para me sentir vivo?

   Com apenas 18 anos de vida, o João já leva muito que contar. Está a repetir o 12º ano, depois de já ter repetido o 9º. A relação com os Professores é tensa. Com todos menos com o Professor de Matemática que, com a sua constância, afeto e firmeza, está a conseguir pôr o João no sítio, para espanto de toda a comunidade escolar. Apesar das explicações que se multiplicam (e, às quais, falta quase tanto como às aulas), as notas oscilam entre o medíocre e o satisfatório. Mas, por mais que a escola lhe doa (e dói, muito!), estará longe de ser o principal problema do João. Nos últimos meses foi parar 3 vezes ao Hospital, em estado quase comatoso, depois de beber shots em quantidades industriais. Fuma charros todos os dias e, de quando em vez, faz umas festas de experimentação de novas drogas com os amigos. Dantes comprava-as nas smartshops. Agora pela internet ou ao dealer lá da Escola. A grande prenda do seu 18º aniversário foi uma mota 125, que destruiu toda num acidente contra uma árvore e que lhe valeu umas quantas fraturas e um par de semanas no Hospital. Depois disso, já espatifou a mota do amigo contra uma barreira (desta vez sem danos físicos de maior). Vai acumulando, com os seus amigos, lutas violentas com grupos rivais que, de quando em vez terminam no hospital (para tratar escoriações) ou na esquadra (onde já foi parar, também, por posse de haxixe e pastilhas de ecstasy). A relação com os pais é distante e tensa. Não que não gostem dele. Não que não estejam preocupados. Mas tão depressa parecem desvalorizar com um “é da idade” comportamentos de claro perigo, como se excedem a propósito de um qualquer pormenor. Parecem conhecer mal o filho. Ter muita dificuldade em sintonizar-se com ele. Tanto que a sua principal preocupação, neste contexto mais ou menos explosivo, parecem ser as notas e a média para entrar na Faculdade! Já ao João nada o parece preocupar, vincando-o repetidas vezes, até rebentar num: “Eu não tenho sentimentos!” mais ou menos ameaçador!


   De facto, há jovens (e adultos!) que parecem sentir-se tão desvitalizados, tão desencontrados do espaço redentor da relação, da esperança, dos sonhos e dos projetos, que um contínuo desafio ao perigo (seja ele consubstanciado na condução de uma mota invariavelmente como se se estivesse a jogar um videojogo, no brincar ao Fight Club fim-de-semana sim fim-de-semana não, ou no anestesiar-se repetidamente com um cocktail de drogas e álcool, etc, etc.) parece ser a única forma de se sentirem vivos… de sentirem a adrenalina a correr nas veias! Esta sucessão vertiginosa de fugas para a frente (denegando os perigos) parece ser a única forma (disfuncional, mas ainda assim a única forma) que estão a encontrar para, ainda que apenas por momentos, aliviarem uma angústia avassaladora que os parece perseguir para onde quer que vão. A ser assim, para além de formar e informar sobre os riscos e os perigos (passo importante, naturalmente), será essencial dar a estes jovens o espaço relacional contentor (familiar, comunitário, escolar, psicoterapêutico…) que, ao mesmo tempo, que lhes bloqueia quaisquer exposições excessivas ao perigo, acolhe e os ajuda a legendar e pensar a angústia avassaladora que parecem carregar dentro de si (autêntico combustível dos comportamentos de risco, parece-me). 


Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 27 de março de 2016

A vida é um milagre!

   A Sara entrou na copa e com aquele olhar brilhante só dela pergunta-me, do nada: “acreditas em milagres?”. Na altura, os milagres eram, para mim, quando muito uma espécie de bruma de um passado que não volta. Entre as saudades imensas de uma grande paixão que acabou (muito contra a minha vontade) com a transparência cristalina com que começara, e o namoro com a Francisca que, valha a verdade, começou a morrer mesmo antes de nascer, aquilo que mais se aproximava de um milagre na minha vida, por aqueles dias, eram os longos cafés com a Sara, superados só, claro, pelos intermináveis, mas cada vez mais raros, telefonemas com a Inês (a grande paixão que terminou muito contra a minha vontade, com a transparência cristalina com que começara). Ainda assim, servindo-me descaradamente do filme do Kusturika, que tinha visto uns meses antes, atirei, com o meu ar mais sedutor (se é que se pode ser sedutor sem acreditar em milagres): A vida é um milagre! Se eu, na altura, fosse tão transparente como a Inês me mostrou, de uma forma visceral, que era possível ser (ser-lhe-ei eternamente grato por isso) não me teria acanhado quando, a caminho da praia, para mais um café de fim de tarde com a Sara, passou no rádio do carro aquela música extraordinária do Martinho da Vila com a Kátia Guerreiro, dando o mote para uma proximidade impossível de disfarçar. Se eu não tivesse, na altura, tanto medo de milagres… Sabe, acho que vinham daí as minhas insónias, a minha tristeza, a minha insegurança… acho que vinham do raio do medo de ir além dos meios milagres. Mas sabe, eu agora acho que já acredito mais vezes em milagres. E então agora que é desta que parece que nos deixámos de tretas e me entendi de vez com a Rita. Sabe, acho que ela é uma espécie de síntese para melhor de tudo o que de bom tinham as minhas outras namoradas. Pode parecer estúpido, mas percebi isso quando ela se sentou ao meu lado, no sofá do hotel, bem agarradinha a mim, a ver o jogo de futebol comigo, com aqueles olhos grandes a brilhar, a brilhar. E esta semana, no sábado, fez-me uma à filme: pediu-me para ir buscar o vinho à dispensa enquanto ela nos servia o jantar. Quando cheguei, pronto a fazer um brinde, tinha no meu prato os bilhetes de avião e dois bilhetes para o Nick Cave em Londres, enquanto ela trauteava o Into my arms. Com uma mulher destas posso lá eu não acreditar em milagres?!
Lá no Banco é que eu acho que não vão muito em milagres e as rescisões vão mesmo avançar! Fiquei com uma fúria! Andei estes anos a virar-me em masters e pós-graduações, a dar couro e cabelo por aquele banco e agora o melhor que mereço é a azeda oficial dos recursos humanos a dizer-me: tem sorte enquanto vai ter indemnização e subsídio de desemprego! Entre partir-lhe a cara e ir, de vez, fazer a viagem dos meus sonhos com a Rita… é desta que vamos à Argentina. Comprámos os voos ontem, via Barcelona. Ficamos cinco dias em Buenos Aires. Eu sempre quis dançar tango em Buenos Aires! E depois descemos de autocarro para a Patagónia, Estreito de Magalhães, Terra do Fogo… desde que vi um documentário com o meu pai que sempre fui dizendo… um dia, um dia. Pois hoje é o dia!
  Uns meses depois, tinha, na caixa de correio do consultório, uma carta com remetente de San Martin de los Andes (uma cidadezinha da Patagónia Argentina, soube, depois de pesquisar no google). Era um postal do Luís que dizia: “Depois de tudo, começar a arriscar desarrumar a minha vida ajudou-me a deixar-me de meios milagres. Vista dos Andes, a vida é (ora mais simples, ora mais dura) mesmo um milagre!”. Meses mais tarde, agora por e-mail, o Luís conta-me, orgulhoso, que conseguiu um bom emprego numa consultora financeira, em Londres, e a Rita um lugar bem pago, num hospital a meia-hora da cidade. 

   Acho que o Luís, ao me ter dado o privilégio de assistir, ao vivo e a cores, à construção lenta (com muitas dúvidas e dor à mistura) do seu milagre, me ajudou a acreditar mais vezes em milagres! Fico-lhe muito grato por isso!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

terça-feira, 15 de março de 2016

De tanto querer bater baixinho…o meu coração não pára de me sobressaltar!

A Maria é enfermeira no Serviço onde entrara há 14 anos, com a insegurança natural do primeiro emprego. Já assistiu a recuperações quase milagrosas e já se enterneceu com os gestos de bondade e gratidão dos seus doentes e familiares, ou com a solidariedade desprendida de um outro colega. Mas, vezes sem conta, já se sentiu atropelada por uma tristeza sem fim, ao assistir, impotente, ao desmoronar, lento ou súbito, de vidas e famílias. Vezes sem conta, já se sentiu profundamente magoada pela ira de doentes ou familiares ingratos ou de chefes prepotentes. Vezes sem conta, já se sentiu invisível na hora de receber os louros que, por elementar justiça, seriam também seus. E vezes sem conta, calou a tristeza, a raiva ou o medo. É preciso correr. Passar no supermercado. Ir buscar as miúdas à escola. Fazer o jantar. Dar um jeito à casa até, por fim, entrar de novo no hospital, para mais uma noite entre gemidos de dor e desamparo. Muito cansada prefere, ainda assim, os turnos agitados. O silêncio e a calma trazem-lhe de volta a tristeza, a raiva, o medo… e, com eles, a culpa, como se, por algum motivo, não estivesse autorizada a sentir!
   Ao António sempre inquietou a ideia de dor e de morte. Imaginando o ruído que a proximidade diária com elas poderia causar na paz interior da mulher por quem se apaixonou ainda na Faculdade, tentava, com insistência, dar colo e espaço para a Maria “chorar” as perdas do Hospital, e as outras, as da vida. Mas isso foi há muitos anos. A Maria nunca foi muito de se abrir. Assustava-a a ideia de se confiar a um colo… mesmo que fosse o do marido, que sempre soube ser confiável. Desde pequenina que se foi habituando a guardar para si as tristezas, as revoltas, as mágoas e os azedumes. Desde pequena que se foi habituando a ser paciente e calma, a nunca perder a cabeça um bocadinho que fosse. Um bocadinho ao jeito das crianças pequenas que, quando começam a brincar às escondidas, tapam a cara com as mãos, na esperança de que deixem de ser vistas, a Maria foi agindo como se acreditasse que ao fingir com muita força que não sentia, talvez as tristezas, as raivas, os desamparos, as culpas e os desencontros desaparecessem, como que por magia. Foi assim durante anos e anos a fio. Até que, subitamente (quase nunca é subitamente!), e sem nada que o fizesse prever (como se anos e anos a tentar reiteradamente fintar o que sente não trouxesse, mais tarde ou mais cedo, uma fatura a pagar… para além da que se vai pagando dia após dia), a Maria calma e paciente parece uma bomba relógio, pronta a rebentar ao mais leve deslize das filhas, ao mais bem-intencionado apelo do marido ou à mais natural interpelação das colegas do Hospital. Como se isso não bastasse, vieram as crises de angústia, em catadupa, e com elas, os medos, uns atrás dos outros.

 Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez sempre que façamos, insistentemente, por amordaçar a sabedoria do corpo, sinalizando como perigosas as emoções que nos protegem e que (qual GPS de última geração) nos guiam os passos, tarde ou cedo, ela acabe por se fazer ouvir! Até podemos varrer as emoções continuadamente para debaixo do tapete (onde causam muito mais ruído do que nos iluminam o caminho) durante algum tempo mas, quando assim é, creio que de tanto as tentarmos domar (em vez de as pensar e gerir), acabamos (à custa de muito ruído) domados por elas! O grande desafio talvez seja, então, o de encontrar o espaço relacional que as possa viver sem soçobrar. O grande desafio talvez seja, então, o de encontrar o espaço relacional que as possa pensar e integrar (ligando os fragmentos dispersos das histórias que vivem dentro de nós), para que possam recuperar, primeiro, e refinar, depois, o seu papel de farol que nos ilumina o caminho. 

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.