domingo, 3 de fevereiro de 2019

Estrelas guia e outros milagres!


  Consumidor voraz de cinema, o Pedro costumava falar de si através dos filmes e séries, na (pouco) secreta esperança que eu o pudesse ajudar a ligar os enredos e as personagens, com os novelos da sua vida. Uma das suas personagens favoritas era o Giusepe, pequeno herói de um velho filme, que uma tia avó lhe dera há muitos Natais atrás. De sorriso reguila e joelhos esfolados de tanto trepar às árvores e saltar muros, o Giuseppe foi apanhado de rompante pelo terror Nazi, como milhões de outros meninos (e graúdos) de origem judia. Sempre que a mãe ouvia as passadas pesadas dos soldados a subir a velha escadaria de madeira que dava acesso à casa, escondia-o numa espécie de alçapão secreto. E dizia-lhe, numa voz terna, mas firme: “não tenhas medo!” A cena repetiu-se vezes sem conta, até que, numa manhã fria de janeiro, Giuseppe, escondido no alçapão, foi o único judeu do bairro a não ser levado pelos soldados das botas pesadas. Acabou por ser adotado por uma vizinha, amiga da família, aos cuidados de quem cresceu. Nunca mais largou o amuleto da sorte que a mãe, adivinhando o que viria a acontecer, lhe tinha dado, logo após a primeira visita dos soldados Nazis. E sempre (mas sempre! enfatiza o Pedro) que se sentia assustado ou inseguro, recordava a voz terna e firme da mãe a dizer-lhe: “não tenhas medo”. O medo não desaparecia. Mas a coragem ganhava-lhe aos pontos (sublinha o Pedro).

 Talvez o que o Pedro estivesse a querer dizer fosse que queria pensar as personagens e as histórias da sua vida, arrumando-as e desarrumando-as as vezes que fossem necessárias, até encontrar quem lhe pudesse sussurrar, numa voz terna e firme: “não tenhas medo!” Talvez o que o Pedro estivesse a querer dizer fosse que todos precisamos de quem, dentro de nós, faça de amuleto da sorte, não se assuste com os nossos medos,  e nos ajude a serená-los, a pensá-los, a configurá-los em palavras, histórias e gestos... E que essas pessoas, mesmo acabando por partir (partindo-nos, com isso, o coração), são eternas, dentro de nós! Quais estrelas guia, vivem milhares de anos luz só para nos iluminar o caminho! Talvez o que o Pedro estivesse a querer dizer fosse que a audácia, a autonomia e o desejo nunca possam crescer à margem desta confiança básica (recordando Erikson) na relação.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Angústia e outros apelos!


  Sempre foi certinha. Excessivamente certinha, na verdade. De boas notas e muito poucas birras, detestava quando a avó, desde que se lembra, a apontava como exemplo para os irmãos e os primos. Talvez porque quisesse poder ser outras coisas para além da Diana certinha, a que se foi sentindo aprisionada. Nas pouquíssimas vezes em que teve a veleidade de reclamar a plenos pulmões, numa birra como deve ser, a avó, secundada pela mãe e, perante o silêncio do pai, não poupou na exuberância com que lhe mostrava a desilusão que estava a ser para todos, ao mesmo tempo que lhe acenava com o escuro da cave, para onde iam as meninas que se portavam mal. Foi crescendo a engolir a dor (para dentro), e sem dar problemas (para fora). Já na Faculdade, não havia tempo nem espaço para o prazer: séries só as via nas férias, namorar era coisa para depois do curso, e as festas eram incompatíveis com as responsabilidades. Era preciso estudar, estudar e estudar. Muito mais pelo estoicismo e obrigação de cumprir, do que pelo prazer do conhecimento e das conquistas. Talvez por isso os resultados no curso de Direito – apesar de bons – ficassem sempre aquém do investimento e das suas competências. Sem que nada o fizesse prever (por mais que a Diana, no fundo, há muito o previsse), começou a ter episódios, cada vez mais frequentes, de uma angústia hemorrágica: um choro compulsivo de um desamparo sem fim, que ninguém parecia conseguir compreender ou serenar. Afinal tinha tudo. Era bonita e tinha boas notas. Tinha conforto financeiro e estava no curso que sempre quis. Não tinha, por isso, nenhuma razão para se sentir em baixo. Era isso que acabava por sentir sempre que, não aguentando mais, desmoronava num pranto ao pé de uma ou outra pessoa mais próxima. Depressa, à dor da angústia em queda livre, se juntou a dor (e a solidão) de se obrigar a estar bem ao pé dos pais, dos avós, dos tios e das colegas. Para não os preocupar, argumentava. Para além da angústia e do desamparo, a questão parecia, agora, ser muito mais: como é que eu posso esconder o sofrimento de quem, no fundo, preciso que mo acolha e ajude a compreender?

   Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez a angústia vá ganhando terreno ao entusiasmo e ao brilho nos olhos sempre que não se encontra quem (dentro e fora de nós) a olhe nos olhos e a contenha. Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez os recursos saudáveis se vão robustecendo e serenando a angústia sempre que se encontra (dentro e fora de nós) quem a acolha (sem claudicar) e a ajude a serenar e compreender.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Perigo! Alta tensão! Exames à vista!


   De olhar vivo e pensamento acutilante, o Manuel foi alimentando a ideia de que a inteligência, o investimento académico e o conhecimento não eram o seu forte. Por mais que as suas competências sobressaíssem nas mais diversas áreas que não a académica, insistia na ideia de que o investimento intelectual era uma benesse só ao alcance do “lado inteligente da família”, epíteto que reservava para a irmã e para as primas. Muito mais por isso do que por falta de competências de base (que manifestamente tinha!), foi vivendo o período de avaliações como uma espécie de morte anunciada das suas já depauperadas (dizia ele!) competências. Insistia, irritado: “eu não consigo estudar! Não me concentro! Procrastino! Eu sou assim! Nunca vou conseguir!”. E, de facto, de cada vez que se sentava para estudar, mil e uma tarefas (a louça por lavar, a estante para arrumar, a caixa de email por organizar) ganhavam, de repente, uma urgência que nunca tiveram, a não ser quando lhe permitiam, uma vez mais, não pôr à prova as suas competências. Tudo parecia passar-se como se uma derrota por falta de comparência (mesmo que à custa de uma ansiedade superlativa antes dos exames) fosse, invariavelmente, mais suportável do que uma derrota (ou uma vitória!) com sangue, suor e lágrimas.

    A Maria preparava os exames meticulosamente. Não tinha tempo para namorar, para ir ver a avó ou para se demorar nos almoços com a mãe. Muito menos para pequenos prazeres, aos quais só se permitia nas férias ou na primeira semana de aulas do semestre.  Era preciso estudar, estudar e estudar. Apesar de, há muito, colecionar boas notas, também ela se sentia (!) do lado dos menos dotados!  Com maior ou menor dificuldade, as colegas mais próximas conseguiam compatibilizar o estudo intenso com tempo para namorar e cafés para descomprimir. E, chegada a hora, pareciam sempre conseguir gerir a ansiedade que a avaliação desperta. “A minha única arma é o trabalho e o esforço. Eu não sei como é que elas conseguem. Têm melhores notas do que eu, mas namoram, e só no limite é que abdicam da sessão de cinema ou do café à 6ª feira à noite. E a Filipa, só se não der mesmo é que deixa de ir ao ensaio da tuna. Já eu não tenho tempo para nada! E não sei como é que elas conseguem! Se eu estudasse o que elas estudam… não aguentava. Mesmo assim é o que o que se vê”: uma espécie de reclusão, como se estudar não pudesse ser melhor do que uma avalanche de ansiedade e de um doloroso colecionar de sacrifícios.

  Os momentos de avaliação (académicos ou outros) despertam – sempre! – stresse. E não há nenhum mal nisso. Antes pelo contrário! Ou não servisse o stresse para ativar todos os nossos recursos, necessários para face aos desafios. Mas e quando o stresse atinge tal magnitude que, de repente, entorpece uma parte muito significativa das nossas competências?
  Talvez olhemos, vezes de mais, para o sucesso académico como uma decorrência direta da inteligência. Se, evidentemente, competências cognitivas de base são, quase sempre, condição necessária para um bom desempenho académico, estarão muito longe de ser a única variável significativa para o sucesso/insucesso. Lembro-me sempre, a este propósito, dos penaltis do célebre Portugal vs Polónia do Euro 2016, em que o Ronaldo, perante a recusa do João Moutinho em bater um penalti, o empurrou para o golo, ao gritar-lhe qualquer coisa como: vai, tu bates bem! Se falhares que se lixe (numa linguagem um bocadinho mais carregada, na verdade)! Sempre que os Manueis e as Marias descobrem, dentro de si, quem acredite em e por si antes mesmo de eles próprios acreditarem, empurrando-os para a vitória e segurando-os na derrota estarão, tenho para mim, muito mais próximos de transformar o stresse no motor para, com esforço e entusiasmo, se sintonizarem com o melhor dos seus recursos. Quanto mais o fizer, mais o Manuel perceberá (tenho para mim) que pode vencer o medo de ir a jogo! Quanto mais o fizer, mais a Maria perceberá (tenho para mim) que tem todos os recursos para, com flexibilidade, (re)agir perante o imprevisto e ir direta ao essencial (em vez de se perder em pormenores e notas de rodapé).

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A diferença faz bem à saúde!


Precisamos (todos!) do que nos ligue. Precisamos (todos!) de nos sentir parte de algo maior. Talvez seja um bocadinho isso que acontece quando, num estádio de futebol efervescente, num concerto, ou numa manifestação política ou religiosa, por exemplo, a intensidade ou a comoção parecem ligar pessoas tão diferentes entre si. Talvez precisemos, todos, desta espécie de sentimento tribal. E ainda bem! Afinal de contas, sempre foi a capacidade de nos ligarmos, apesar das diferenças, que foi tornando mais humana a humanidade. Não será, por isso, de estranhar, que gostemos (todos!) de privar com quem comungue connosco gostos, interesses, visões do mundo, ilusões, ideias e sonhos. E ainda bem! Ou não fosse a experiência de sentir que não sentimos sozinhos tão humanizante. Mas talvez não haja ligação – efetiva e profunda - sem diferença! Fecharmo-nos numa espécie de relação especular com o igual, anulando as diferenças será, em certo sentido, a negação da relação… e do outro. Um outro que, amputado da sua autonomia, surgirá mais como uma espécie de prolongamento narcísico ou de caixa de ressonância (ao bom jeito dos yes man) do que como um outro autónomo… e diferente!
   A ser assim, talvez não haja muito como haver crescimento (efetivo e profundo) à margem da diversidade e do conflito (franco, aberto e leal). Será a diferença que traz o novo, qual semente de entusiasmo onde antes havia (apenas) medo do desconhecido. Afinal de contas, de duas ideias milimetricamente iguais não resulta nada de novo. Do confronto de duas ideias diferentes poderão decorrer, pelo menos, três ideias: as duas iniciais e a que resulta da sua síntese e integração. A ser assim, o igual impele para a repetição. Já o diferente instiga para o conhecimento e para a integração (re)criadora. E estimula o pensamento e a transparência. Ou não precisássemos de digerir melhor as ideias, tornando-as mais e mais claras, de cada vez que nos queremos fazer entender perante o outro…diferente.

   A ser assim, tudo o que procure anular as diferenças - sejam os fantasmas mais pomposos do racismo ou da xenofobia ou as discriminações menos sonantes (quando a Escola cai na tentação de tomar a hierarquização das notas como primeiro critério na hora de organizar turmas, por exemplo) - não só passará ao largo de critérios éticos, como será mais amigo da repetição especular do que da curiosidade, do conhecimento, da relação e da saúde!

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Os adultos também crescem?

 Fala da família com a alma toda. Da avó com o coração do tamanho do mundo, aos irmãos (mais velhos) com quem aprendeu a conciliar rivalidade com abraços cúmplices; passando, claro, pelos pais que lhe foram dando (com todos os defeitos que os pais bondosos também têm) o colo e a autonomia para crescer bem. Talvez por isso, a Bárbara, mulher com mundo, brilho no olhar e sangue na guelra, se venha a sentir crescentemente desconfortável com aquilo que sente ser o ressuscitar do controlo dos pais. Desde que regressou de uma experiência profissional no estrangeiro e assumiu, pela primeira vez, uma “relação séria”, que os sente a intensificar recomendações e comentários acerca do seu visual, da forma como decora e arranja a casa, dos investimentos financeiros que devia ou não fazer, etc., etc. Sem conseguir, ainda, interpelar os pais acerca do seu mal-estar, acaba por se deixar enredar num clima mais impaciente e quezilento. Diz-me, revoltada: “às vezes parece que só conseguem dizer que sou preciosa na vida deles e que têm muito orgulho em mim quando vivo a 2000 km de distância. Desde que cheguei de Londres nunca mais me disseram! É só reparos e recomendações e reparos e recomendações e reparos e recomendações! Aos olhos deles, parece que voltei a ter 16 anos, que não me sei orientar e que faço tudo ao contrário! Eu quero entender-me com eles. Eu preciso muito deles! Mas não desta maneira! Já não sou uma teenager à deriva”.
           
  Talvez o medo de que a filha deixe de precisar deles (como se os filhos alguma vez deixassem de precisar dos pais!!!) esteja a enevoar o entusiasmo e o orgulho que os pais da Bárbara sentirão no seu crescimento. Talvez estejam só, numa fórmula encriptada, a dizer, cada um à sua maneira: “És preciosa na minha vida. Tanto, que morro de medo que, à medida que vais crescendo, deixes de precisar de mim. E se deixares de precisar, o que vai ser de mim?” Afinal, ser-se capaz de ligar o complicómetro para comunicar numa espécie de código Morse, colocando no off a capacidade de dar luz ao que sentimos, é uma “incompetência” que (todos) vamos treinando vezes de mais.
  Talvez a Bárbara esteja, ainda, a pensar, dentro de si como pode ser tão clara quanto é capaz, com os pais. E a ganhar fôlego para, de uma assentada, lhes dizer que nunca a filha mais nova (como os irmãos) vai deixar de precisar muito, muito dos pais. Não para controlarem os seus passos (como quando era pequena), mas para a empurrarem para o melhor dos seus recursos. Não para desdenharem as suas escolhas (por mais pequeninas que sejam), mas para nunca deixarem de estar atentos e lhe porem o dedo no nariz se alguma vez a sentirem a desistir do melhor de si própria. E que, na volta, um és preciosa na minha vida; um tenho tanto orgulho em ti ou um gosto tanto de ti é tão mais eficaz na hora de mostrarmos às pessoas o quão são fundamentais na nossa vida do que um: este sofá não fica bem aqui; tenho de ir contigo comprar os candeeiros e o serviço de loiça que tu não tens jeitinho nenhum! E que, já agora, estará na hora de (re)descobrirem o sonho, o projeto e o futuro porque têm o direito (e já agora o dever! porque, seja aos 5, aos 16 ou aos 40, aprende-se muito mais por bons exemplos do que por bons conselhos) de serem muito mais do que pais da mais nova, da mais velha e dos do meio.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Quem disse que não existem (caça) fantasmas?

  Há muito que não ia a um Festival de Verão. Não que tivesse deixado de gostar de música. Mas o último tinha sido tão dolorosamente inesquecível que, nos anos seguintes, só os outdoors a anunciar as bandas a deixavam de cabelos em pé. Passaram cincos anos desde que se desunhou para surpreender o João com dois bilhetes para o esgotadíssimo concerto da banda que tinham adotado como a “oficial” do seu amor. Se a reação frouxa João não deixou de intensificar umas quantas luzes de alerta que, há muito, vinham crescendo dentro da Maria, o pior estava para vir. Toda a gente parecia envolvida pela atmosfera intensa do concerto. Toda a gente menos a Maria e o João. Ele já não disfarçava o enfado. Mas a Maria não desarmava. Abraçou-o. Deu-lhe a mão. Mas nada encaixava. Há muito que pareciam dois corpos estranhos. Nessa mesma noite, o João já não dormira em casa.
   Já a viver um amor terno e intenso com o Carlos, a Maria estava prestes a voltar ao festival que selara o fim da sua relação com o João. O Carlos tinha movido montanhas para conseguir dois bilhetes para o esgotadíssimo concerto da banda que tinham adotado como a “oficial” do seu amor. De gesto em gesto, o Carlos arrebatava a Maria como o João nunca fora capaz de fazer. E ela andava tão de bem com a vida que não mais se lembrara do João. Não até ao dia do concerto, em que, sem saber bem porquê, acordou a pensar nele. A leveza tinha dado lugar a uma angústia difusa, que não mais a largou nesse dia. Estava implicativa com o Carlos: em casa, no caminho para o festival, no concerto. Mas ele não desarmou. Puxou-a para si, abraçou-a e perguntou-lhe o que é que se passava. Mas a Maria, que costumava sentir o abraço do Carlos como o lugar mais seguro do mundo, estava assustadiça. E esquivou-se com um seco: não se passa nada. O que é que se havia de passar, refugiando-se, de novo, na implicância. Vezes e vezes sem conta até, já em casa, o Carlos ter rebentado numa discussão acesa (na sequência da qual viriam a sentir-se ainda mais próximos).
   Tudo parecia passar-se como se, de repente, aos olhos da Maria, o Carlos tivesse, por momentos, deixado de ser o poço de charme por quem se mantém profundamente apaixonada, para ser uma espécie de fiel depositário de algumas das suas dores e medos mais recônditos. Tudo parecia passar-se como se, por momentos, aos olhos da Maria, o Carlos tivesse deixado de ser o homem profundamente apaixonado e apaixonante para se tornar abandonante.

  Talvez não haja muito como (para o bem e para o mal) não projetarmos no outro significativo os aspetos essenciais da nossa história relacional. Esta aparente inevitabilidade (que, grosso modo, Freud cunhou como transferência), quando massiva, pode aproximar-nos do risco de reduzir o outro a uma espécie de prolongamento do nosso mundo interno. Mas é também ela, ao atualizar feridas antigas em novas (e velhas) relações, que abre a porta para a reparação, para a criatividade, para o pensamento e para a vida. Não desistamos nós de encontrar quem faça diferente! Não desistamos nós de encontrar quem faça melhor! Não desistamos nós de ver o outro (na sua diferença e autonomia) para lá dos holofotes da nossa projeção. Não desista o outro de fazer diferente! Não desista o outro de fazer melhor! Por mais que, mesmo sem querer, às vezes o “empurremos” (na secreta esperança de que não o faça!) para a repetição de alguns dos aspetos mais dolorosos da nossa história!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

"Eu nasci assim"! Posso ser outra coisa?

  Vamos, de uma forma mais ou menos batoteira, olhando para o feitio como um facto consumado, mais ou menos inevitável.  Da mesma forma que nascemos loiros ou morenos, tudo se passaria como se a genética determinasse, por si só, se somos mais reservados ou mais expansivos; mais medrosos ou mais afoitos; mais frios ou mais afetuosos; mais autónomos ou mais dependentes; mais ou menos inteligentes, etc., etc. E, quanto a isso, não haveria muito a fazer. Afinal de contas, como diria a Gabriela: “eu nasci assim, eu cresci assim…”.
  Esta visão determinista até pode servir para tentar encaixar toda a nossa humanidade numa regra de três simples. Mas não servirá – parece-me - para tentar entender a sua complexidade.  Não que a herança genética não seja relevante. Claro que é! Mas funcionará, para a maioria das características humanas, de uma forma substancialmente mais complexa e interativa do que aquela que Mendel observou nas ervilhas.  A ser assim, muitas das nossas características (a que fomos chamando feitio) vão sendo forjadas nas dinâmicas relacionais em que, dia após dia, nos vamos construindo.

  A ser assim, guardarmos dentro de nós quem (seja quem for) respeita os nossos ritmos e se sintoniza com os nossos gestos mais espontâneos, contribuirá para que nos sintamos mais competentes na hora de expressar ideias, angústias, necessidades ou desejos. A ser assim, guardarmos dentro de nós quem (seja quem for) nos ajuda a transformar em palavras e atos a complexidade do que sentimos, deixar-nos-á mais próximos de sermos capazes de ligar afeto, palavra e gesto. A ser assim, guardarmos dentro de nós quem (seja quem for) nos ajude a despertar a curiosidade e o espanto perante a beleza e o conhecimento, deixar-nos-á mais próximos da criatividade e do prazer de conhecer e brincar com os conceitos e os pensamentos. A ser assim, guardarmos dentro de nós quem (seja quem for) nos incita a explorar o mundo, ao mesmo tempo que nos vai assegurando (muito mais por gestos do que por palavras) nunca deixar de ser um porto forte e seguro a que poderemos sempre voltar, tornar-nos-á mais aptos para a audácia e para a autonomia.

   A ser assim, a relação será (sempre!) aquilo que veste a herança genética, aproximando-nos (ou afastando-nos) do melhor de nós!