domingo, 10 de dezembro de 2017

Adolescência, conflito e outros abraços!

 A D. Isaura sempre se virou entre dois trabalhos e muita fibra. Nunca suportou a ideia de que pudessem faltar oportunidades ao filho que, desde sempre, criara sozinha. E, valha a verdade, para além de uma certa comodidade material (mesmo que à custa de uma ginástica financeira de que só D. Isaura parecia ser capaz), o João foi crescendo com o conforto de sentir que havia na mãe qualquer coisa de muito parecido com a capa do super-homem. Talvez por isso tenha sido tão difícil para si escolher a área das Ciências, no Secundário. A mãe, muito influenciada pela vida abastada do advogado para quem trabalha desde os 16 anos, sempre o “empurrou” para o Direito. Mas, no 9º ano, teve um Professor admirável que lhe mostrou como a Física o ajudava a entender melhor os motores e as motas de que tanto gostava. E isso terá sido determinante para subir exponencialmente a nota de Físico-Química, e fazer da área Científica uma escolha mais ou menos natural.
  A D. Isaura até já se tinha conformado com a ideia de que o seu João iria trocar o Direito pela Engenharia Mecânica, mas estava-lhe a custar muito vê-lo crescer. Não gostava da sua barba à hipster, e menos ainda do discurso inflamado com que o João punha em causa alguns dos referenciais religiosos e sociopolíticos com que o educara. Habituada que estava a que, em quase tudo, o João fizesse da sua palavra lei, sentia-se afrontada a cada opinião marcada do filho… que destoasse da sua. Como se sentisse que, com a adolescência, o João tivesse despromovido a mãe de mulher admirável com toques de super-herói a antiquada, desinformada e dispensável! Como se, de repente, ao pé da namorada e dos amigos do João, tivesse medo de não passar agora de uma 3ª ou 4ª figura. Ela, que sempre se virara entre dois trabalhos, para que nunca lhe faltasse nada…
  Na ânsia de procurar o seu lugar no mundo, o João exagerava (especialmente com a mãe) no tom com que vestia algumas das suas opiniões (exageramos mais quando estamos inseguros, não é?). Mas mais do que ter razão, talvez o que procurasse mesmo fosse a aprovação (e o orgulho!) da mãe por estar, de forma viva e afoita, a procurar o seu caminho (profissional, ideológico, amoroso, etc.). Mas mais do que ter razão, talvez o que procurasse mesmo fosse a sabedoria (e o colo!) da mãe para o amparar nesta conquista (encantadora e assustadora ao mesmo tempo) da autonomia. Mas mais do que ter razão, talvez o que precisasse mesmo fosse de perceber que sejam quais forem as suas escolhas (amorosas, ideológicas, profissionais, etc.), o colo da D. Isaura continuará sempre (!) a ter um lugar só para si!

  Talvez seja sempre um bocadinho assim. Se é desejável que os pais sonhem os filhos (investindo-os das expectativas que não deixarão de alimentar as suas competências), não é menos importante que abram espaços de autonomia para, no lugar de potenciais conflitos de lealdades (e culpas mais ou menos difusas por não assumirem como seus sonhos que outros sonharam por si), surgirem escolhas e projetos autónomos.
  Talvez precisemos todos (adolescentes e adultos) de perceber que nunca(!) os pais deixam de ser fundamentais, mas que crescer nunca(!) é decalcar o que esperam de nós!
 Talvez precisemos todos (adolescentes e adultos) de perceber que não há autonomia sem vinculação (segura), nem vinculação (segura) sem autonomia! Afinal de contas, nunca(!) se cresce à margem da diferença, da subjetividade e da relação!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O melhor de nós não chega?

 O Marco é um tipo de coração grande e abraço sentido. Para lá de muitas outras qualidades, talvez essas tenham sido determinantes para construir um amor vivo (mas excessivamente medroso, a espaços) com a Maria. Inteligente e sensato é um profissional muito diferenciado. Apesar do gosto pelo trabalho e das competências que indubitavelmente tem, está muito longe de gerir a vida profissional com o prazer e a serenidade que gostaria (e que, de resto, as suas qualidades justificariam). Tudo se passa como se se sentisse, permanentemente, num conflito entre o desejo de arriscar, intervir, inovar… e o medo de que tudo possa falhar rotundamente.
 De cada vez que ousa sobrepor o desejo ao medo, as suas competências acabam por sobressair, valendo-lhe ganhos profissionais muitos significativos. Mas não, sem antes, sentir o coração apertado, muito para lá do razoável. Não, sem antes, dar mil voltas à cabeça, para se certificar que cumpriu escrupulosamente tudo o que são normas, diretrizes e regulamentos. Não, sem primeiro, antever os mil e um cenários (que quase nunca se confirmam) em que as chefias o repreenderão abertamente ou, de forma disfarçada, o colocarão no lugar, lembrando-lhe que ainda tem que comer muitas rasas de sal, antes de poder ousar. Como lhe lembra a Maria, entre a firmeza e a ternura, tudo se parece passar como se sentisse na obrigação de estar, permanentemente, ora a pedir licença, ora a pedir desculpa… por ser bom!
    À boleia deste seu lado medroso, lembra vários episódios, mais ou menos longínquos, em que foi sentindo este seu lado criativo, audaz, consequente e corajoso… desvalorizado, apoucado, ridicularizado até. Recua ao campo pelado da sua infância, para falar da sua estreia em jogos oficiais. Não cabia em si de tão vaidoso que estava com as chuteiras que comprara de propósito para aquele dia, à custa das poupanças que conseguira com uma gestão muito apertada da semanada. Ao intervalo ainda estava 0-0 e o Marco, entre as parcas oportunidades e a pressão de fazer tudo bem e depressa, não tinha, ainda, conseguido destacar-se. O treinador tinha acabado de lhe aconselhar mais serenidade na hora de ter a bola no pé, mas tinha-lhe elogiado o espírito de luta. Nada de grave, portanto… até que o pai entra pelo balneário adentro e, sem mais, se abeira dele e o aconselha a dar o lugar a um colega, “que seja menos trapalhão. Já estás muito cansado. É melhor saíres”. Como se isso não bastasse para, num ápice, transformar o seu brilho nos olhos num olhar cabisbaixo e embaciado (de vergonha, desilusão e raiva contida), o pai continuou num tom jocoso: “ai achavas que eram as chuteiras que fazem os jogadores”? Escusado será dizer que, na 2ª parte, as inseguranças do Marco acerca das suas capacidades futebolísticas se multiplicaram por mil!
   Nada que o tenha feito sentir de modo tão diferente assim quando, uns bons anos mais tarde, tentava intervir - com a sua visão, porventura exagerada, mas atenta e interessada - nas tertúlias de política nacional em que algumas vezes se transformavam os jantares de família. Diz-me, comovido: “parece que ainda consigo ver o ar de desdém do meu pai, secundado pelo meu avô ou pela minha mãe. E aquele pfu, enquanto revirava os olhos, que antecedia o: tens muito que aprender. Cresce e aparece! que me deixava furioso! Sabe, eu acho que não queria ter razão. No fundo, acho que só queria mostrar que já era crescido, que me interessava pelos mesmos assuntos que eles, que pensava e tinha opinião sobre as coisas. No fundo, no fundo… acho que só queria que eles se orgulhassem de mim!”

     Talvez seja sempre um bocadinho assim. Quanto mais o caldo afetivo e as oportunidades educativas o potenciam, mais os recursos se vão tornando robustos com o crescimento. Mas quando, ao mesmo tempo, se vai crescendo com a ideia de que o desejo de ousar (mesmo que se tenha de falhar muitas vezes, para fazer cada vez melhor!), está mais próximo de valer reprovação (mais ou menos aberta) do que encorajamento, talvez as pessoas se tornem mais inseguras em relação às suas qualidades! Quando o melhor das suas competências, dos seus sonhos e do seu desejo de crescer parecem valer mais crítica e apoucamento do que manifestações claras de orgulho, talvez as pessoas se tornem (todas!) um bocadinho mais medrosas… na hora de fazer pela vida. 
   Talvez por isso seja tão importante quem possa de fazer de Maria nas nossas vidas para, de uma assentada, se orgulhar de nós e nos ajudar a elaborar esta espécie de angústia de castração (como lhe foi chamando a Psicanálise) que, tantas vezes, vezes de mais, teima em inibir o melhor das nossas competências… e do nosso entusiasmo!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 5 de novembro de 2017

Para onde vai a tristeza?

   "Vinha estrada fora, a chorar desalmadamente. Não havia trânsito e conduzia em piloto automático. Liguei à Carla, a contar-lhe que 20 minutos antes o Pedro tinha acabado com o nosso casamento, com uma frieza no olhar que nunca lhe vira! Sim, o Pedro que ainda no fim de semana tinha estado comigo a jantar na casa dela, como se nada se passasse! Precisava de falar com alguém! A Carla gosta muito de mim. Muito mesmo. Mas ficou muito atrapalhada por me sentir assim. Fica sempre, nestas coisas. Disse-me para ter calma. Não falámos mais de cinco minutos. A seguir liguei à Francisca. Ouviu-me. Ouviu-me em silêncio. E chorou comigo. Sentia-a a chorar do outro lado, sabe? Parecia que a conseguia ver a chorar. E ainda hoje lhe agradeço! Desapareceu-me a tristeza, e a raiva, e o desespero, e todo aquele sufoco de quem tinha acabado de perder o chão e já mal sabia o caminho para casa, quanto mais o que fazer à vida? Não, não desapareceu. Mas a Francisca aguentou a minha dor. Não se atrapalhou. Não me disse para ser forte nem para ter calma. Ficou ali, a ouvir-me e a chorar comigo! Sentiu comigo! Acho que lhe vou ser grata por isso, para sempre!"
  
   Mas porque é que damos tão pouco espaço à tristeza? Porque é que, perante a dor do outro, tantas e tantas vezes não nos sai mais do que um não penses mais nisso ou um tens de pensar positivo? Como se o otimismo florescesse por decreto; ou o que pensamos e sentimos pudesse, num passe de mágica, ser controlado por um qualquer botão on/off!
   Porque é que, perante a dor do outro, tantas e tantas vezes não nos sai mais do que um tens de ser forte, tens de reagir? Como se reagir não fosse, antes de mais, olhar o sofrimento nos olhos, equacionar a perda, senti-la, chorá-la, enraivecermo-nos com ela… para a podermos pensar. Como se este trabalho de luto não fosse crucial para alavancar os movimentos proativos que permitam ir transformando o sofrimento em desejo e esperança, primeiro, e em projeto e ação intencional, depois.
   A ser assim, a tristeza (como a revolta) será uma reação natural (e saudável!) à dor que, inevitavelmente, algumas circunstâncias de vida acabam por despertar. Já a falta de um espaço relacional contentor (ao pé de quem é que podemos ficar abertamente tristes? A quem é que posso confiar a minha dor?) que a permita acolher, sentir e pensar será o terreno fértil para a inibição das suas manifestações abertas. Nestas circunstâncias, sempre que, reiterada e repetidamente, bloqueamos a expressividade do que sentimos, podemos estar a acumular, dentro de nós, uma espécie de “resíduo tóxico” (em que se vão transformando as emoções que fazemos por não pensar) que, à falta de espaços relacionais que o possam revitalizar, tenderá a colonizar mais e mais recursos saudáveis, deixando-nos, por isso, mais expostos à (psico)patologia.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 29 de outubro de 2017

Isso é tudo muito bonito, mas como é que a psicoterapia pode ajudar?

  Talvez o imaginário colectivo esteja, ainda, muito dominado por uma ideia positivista de ciência, e a ideia de saúde ainda muito acoplada a um modelo biomédico, de causalidade linear. A ser assim, o sofrimento mental só poderia resultar, de forma unívoca, de umas quantas reacções bioquímicas disfuncionais, afigurando-se a medicação psicotrópica como a única forma de corrigir estes desequilíbrios.
  Mas somos, felizmente, um bocadinho mais complexos do que isso! A actividade cerebral determina, em larguíssima medida, a nossa experiência, mas parece cada vez mais claro que a experiência e as relações humanas influenciam, elas próprias, aspectos muito importantes do funcionamento cerebral! É o que parece, por exemplo, decorrer de um estudo dirigido por Daniel Wiswesde, em que pacientes deprimidos melhoram significativamente os sintomas depressivos, normalizando, ao mesmo tempo, o funcionamento do sistema límbico (área cerebral muito associada ao processamento das emoções), depois de um punhado de meses de psicoterapia dinâmica.
  Quer isto dizer que a biologia cerebral não é fundamental no desenrolar da vida mental, ou que a medicação não pode ser muito útil para suster o sofrimento mental? De modo nenhum! Significará antes que a lógica da causalidade linear é curta na aproximação à complexidade humana.
  Há mais de 100 anos aprendíamos com Freud que a nossa vida é muito condicionada por emoções que fazemos por não pensar. Aprendíamos com o pai da Psicanálise que o normal e o patológico são, no essencial, quantidades diferentes das mesmas qualidades humanas. Os cognitivistas mostraram-nos como as experiências de vida podem moldar o modo como aprendemos a pensar nas mais diversas situações. Os modelos sistémicos aclararam a importância da comunicação, da complexidade e da causalidade circular. A Psicanálise contemporânea mostra-nos o lugar central da relação (desde a vida intrauterina, sabemo-lo hoje) na construção do funcionamento mental (em todos os seus aspetos mais e menos saudáveis).
  Se tentarmos intersectar todas estas portas de entrada, talvez possamos dizer que, em muitas circunstâncias, a ansiedade ou os sintomas depressivos, por exemplo, decorrerão tanto de equívocos e desencontros continuados na relação com o outro e com a verdade do que se sente (ou de experiências mais ou menos traumáticas) como de desequilíbrios bioquímicos (que, muitas das vezes, mais do que causa, serão, porventura, o correlato biológico do sofrimento).
  Será aqui que, a meu ver, entrará a utilidade da psicoterapia. Não apenas como uma oportunidade para as pessoas se sentirem genuinamente escutadas. Mas como um espaço relacional que acolhe as angústias de que vão procurando fugir (por as sentirem insuportáveis ou demasiado dolorosas, por exemplo), ao mesmo tempo que as legenda e liga com os aspectos essenciais das suas vidas. Esta nova relação, ao desconstruir alguns aspectos dos padrões relacionais (que, em boa medida, para o bem e para o mal, as trouxeram até ao ponto onde se encontram), funcionará, assim, como uma espécie de tubo de ensaio para uma relação mais clara e genuína com aquilo que sente (procurando pensar e gerir as emoções em vez de, continuadamente, as tentar silenciar), o que não deixará de se traduzir nas relações da “vida real” (tornando-as mais confiantes e confiáveis, mais criativas, assertivas e próximas) com as pessoas, o trabalho, as desilusões, a esperança ou o desejo.

(Texto originalmente publicado no P3, do Público)

domingo, 8 de outubro de 2017

(Des)atentos também somos (todos) nós!

  Para além de um ar mais ou menos entediado, o Francisco trazia, por intermédio dos pais, um role de queixas. De entre as que mais os preocupavam talvez a irrequietude e a falta de atenção, (na escola e na hora de fazer os TPC) fossem as que mais se destacassem.
  Era só a segunda vez que o atendia. Como na primeira, entrou na sala com um monumental ar de frete. Irrequieto e de olhar fugidio, parecia não ouvir uma palavra do que eu lhe dizia. Na tentativa de (estimulando a competitividade) esbater um bocadinho esta distância, propus-lhe uma partida de futebol (no campo improvisado em que, rapidamente, transformámos a sala). Tinha pinta e pés de jogador da bola, mas jogava com a mesma displicência com que fingia não ouvir uma palavra do que lhe dizia. A dada altura, na tentativa de subir a fasquia da competitividade (empatando o jogo), facilitei, de forma bem disfarçada (achava eu!) a entrada de um golo seu. Nesse exato momento, o Francisco agarra a bola com as mãos, aproxima-se de mim, olha-me nos olhos e atira-me um arrepiante: “tu deixaste entrar o golo de propósito”!

    A irrequietude e a desatenção terão sempre o mesmo valor?
  A vivacidade irrequieta e a desatenção da criança que, invariavelmente, “se despista” nos exercícios de matemática sempre que está para acontecer, no recreio, o dérbi do futebol escolar deverá mesmo merecer preocupação de maior?
  Se é expectável que um adulto numa situação de stresse intenso (a eminência do desemprego ou a espera pelo resultado de um exame médico muito importante, por exemplo) possa não parar quieto corredor acima, corredor abaixo, sem cabeça para mais nada, é assim tão estranho que uma criança possa reagir com irrequietude e desatenção face a fontes de stresse mais ou menos continuadas?
  Se, antecipando uma apresentação que poderá valer a promoção há muito desejada, é plausível que um adulto tenha dificuldade em concentrar-se numa ou noutra tarefa, não será compreensível que uma criança possa ficar agitada e desatenta perante o medo avassalador, mais ou menos omnipresente e muito pouco realista (!), de poder ser incompetente para a aprendizagem?
  Não será mais difícil para todos, crianças e adultos, estar sereno e atento quando, por algum motivo, se está angustiado? Ter quem nos ajude a conter e a traduzir em palavras essa angústia não nos tornará, a todos, mais competentes para a atenção?

  Os manuais de diagnóstico têm vindo a tornar-se cada vez mais precisos na organização de sinais e sintomas em diagnósticos. Serão, por isso, uma ferramenta importante para qualquer técnico de saúde mental. Já a transferência, mais ou menos direta, de alguns conceitos e diagnósticos (como a “perturbação da hiperatividade/défice de atenção”, por exemplo) para o imaginário coletivo sem a mediação de um enquadramento compreensivo que os possa balizar, parece-me contribuir muito pouco (até pelo risco de multiplicação de equívocos de que daí poderá resultar) para que conheçamos e ajudemos as crianças (os adolescentes ou os adultos) a crescer melhor!
  Se há, hoje, um consenso alargado de que o modelo biomédico, marcadamente positivista, é curto na aproximação à complexidade humana, talvez possamos considerar que tão importante como estar atento a sintomas (como a hiperatividade e a desatenção), será compreender o que poderão significar nas dinâmicas interna e relacional daquela criança e daquela família (escola ou comunidade).

 Afinal de contas, como (re)aprendi naquele dia, com o Francisco: por mais desatentos que possamos parecer à primeira vista, somos todos(!) muito sensíveis ao pormenor!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 24 de setembro de 2017

Um estranho que conhecemos bem!

   O João acabara de sair de casa, para a Faculdade. Com a sua partida, e a dos dois irmãos mais velhos, que lhe precedera, a casa parecia, agora, grande demais para a Maria e para o Pedro. O crescimento dos filhos, os projetos profissionais e o buliço do dia-a-dia foram-lhes ocupando a vida. Já mal se lembravam do que é ter espaços a dois. Na verdade, nunca se sentiram no direito de deixar os filhos com os avós para tirarem para si um fim-de-semana que fosse, como se investir na relação de casal (e na realização pessoal) não fosse, ao mesmo tempo, investir na parentalidade. A princípio ainda saiam para jantar fora no aniversário de casamento. Mas, com o passar dos anos, até isso se foi perdendo. E agora, 25 anos depois do nascimento do primeiro filho, viam-se, novamente, a sós. As noites interrompidas pelo pesadelo do João, pela febre do Bernardo ou pela tosse do Lucas foram sendo substituídas, à medida que cresciam, pela azáfama de acordar três adolescentes birrentos pela manhã; pelas correrias para as atividades extracurriculares ou pelas chamadas de atenção (mais ou menos inflamadas) com o tempo que gastavam ao computador ou ao telemóvel. E agora, 25 anos depois, viam-se, de novo, a sós. Com tempo para irem ao cinema ou verem filmes enroscados no sofá; com a possibilidade de jantarem fora e até de reservarem um ou outro fim-de-semana romântico. Mas já nem a Maria nem o Pedro sabiam bem como se fazia. Há muito que o abraço não saía naturalmente. E, quando saía, parecia não encaixar, deixando-os, a ambos, mais desconfortáveis do que enternecidos. Tudo se ia passando como se, sem o buliço da gestão diária da educação dos filhos, se sentissem, a cada dia, um bocadinho mais uns estranhos que já se conheceram bem. Com mais espaço a sós, a verdade é que as conversas (cada vez mais raras) se cingiam às preocupações com os filhos e à gestão da vida financeira da família. Começaram por desencontrar ritmos de sono, com a Maria e o Pedro a ficarem, à vez, até tarde entre a tv e o computador para, rapidamente, o desencontro se estender até ao ponto de mal falarem e nunca dormirem juntos.

  Talvez as relações (todas as relações) sejam sempre um bocadinho assim. Morrem mais um pedaço, de cada vez que as omissões se tornam a regra que, aos poucos, vai transformando o outro num estranho que já conhecemos bem.
  Talvez as relações (todas as relações) sejam sempre um bocadinho assim. Expandem-se vários universos (tornando-se mais sólidas e próximas) sempre que não se poupa nas palavras e nos gestos para olhar bem dentro do outro (como, de forma muito bonita, nos lembra o Principezinho).

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 3 de setembro de 2017

Norma 4.0: o insustentável peso do dever!

  Sempre recaíram sobre si grandes expectativas e, em boa verdade, uma espécie de pressão alta para não manchar o bom nome da família. Talvez por isso, a Sofia foi crescendo mais habituada aos quadros de honra e aos elogios de professores e contínuos, do que às correrias do recreio. Não viriam a ser muito diferentes os tempos da Faculdade: dominava as sebentas e os apontamentos, mas sobre a organização do curso (contestada por muitos dos seus colegas), a subida das propinas ou o corte nas bolsas, que atirou alguns dos seus colegas para fora da Universidade, não tinha muito a dizer. Apesar de ser a distribuidora oficial de resumos impecavelmente organizados e, de com isso, ter aproximado muitos dos seus colegas (que, de resto, a olhavam com um certo respeito) parecia guardar sempre uma distância de segurança. Era agora (que estava longe dos pais), mais do que nunca, assolada por uma espécie de fantasma mais ou menos omnipresente: O que é que as pessoas iam dizer? Como se não se sentisse no direito de ir além, um bocadinho que fosse, do escrupuloso cumprimento das expectativas que, desde cedo, se habituou a seguir sem (aparentemente!) questionar.
  A conclusão do mestrado levou-a a uma empresa de renome. E a nunca menos de 12 horas de trabalho diário, mal remunerado (bem-vinda a este enorme “avanço” civilizacional em que se tem transformado o mercado de trabalho para jovens, no século XXI). Sempre disponível (muito mais do que qualquer um dos colegas com quem entrara na empresa) – para trabalhos (não remunerados) ao fim-de-semana, tarefas extra e telefonemas fora de horas, vivia exausta. Dava, ainda assim, por si a ser a primeira a oferecer-se para qualquer tarefa suplementar. E a zangar-se furiosamente (para dentro, claro está!), de cada vez que não sentia o seu esforço reconhecido. Toda esta ira, todavia, rapidamente se transformava num misto de contentamento e culpa (e em maior disponibilidade para o trabalho…), sempre que surgia um elogio das chefias; ou num sentimento de exaltação, sempre que os pais expunham, junto de tios e primos, o seu percurso académico e profissional sem mácula (ainda que, claro, não lhe pagasse as contas…). O ciclo (vicioso) ia-se renovando a cada ano, até que, o afastamento da Filipa (única amiga que ia mantendo por perto) a promoção da Carla (para a função que ela própria ambicionava) e a transferência do Francisco para a mesma função (bem remunerada, agora) numa empresa da concorrência, parecem ter ajudado a precipitar uma queda depressiva que a todos surpreendeu. A todos menos à Sofia que (fosse com as insónias; as constantes dores musculares e de cabeça que nenhuma condição médica, felizmente, justificara; o olhar cada vez mais mortiço; o distanciamento dos amigos e colegas; a hiperatividade laboral ou a ausência de fontes de prazer) há anos dela dava sinais mais ou menos encriptados. A todos menos à Sofia que (fosse com a distância de segurança que, ao deixá-la cada vez mais sozinha, em bom rigor, a foi expondo mais do que protegendo do sofrimento; fosse com o modo como foi pondo sempre o cumprimento da norma e da expectativa à frente da subjetividade e da autonomia, ou com a exaltação narcísica que retirava de cada elogio ao seu percurso certinho) há anos dela procurava fugir.

  Talvez seja sempre um bocadinho assim quando, invariavelmente, nos “protegemos” do que nos magoa e assusta com aquilo que, ao mesmo tempo, nos afasta do melhor das nossas competências. Esta espécie de patologia da adaptação (com que Sami-Ali enfatizou os perigos da substituição do imaginário e da subjetividade pela norma e pelo banal) ou de falso self (com que Winnicott enfatizou a força patogénica da adaptação excessiva à norma) até pode aportar, num primeiro momento, ganhos académicos e profissionais (e injeções de autoestima a eles associados). Mas parece, a prazo, desvitalizar a relação com o outro e com o mundo, deixando as pessoas mais à mercê do imenso e profundo vazio que este ciclo vicioso parece ir, paulatinamente, cavando (e que quaisquer circunstâncias dolorosas de vida acabarão, provavelmente, por desnudar). A ser assim, talvez só as relações que (re)criam mais do que repetem (a norma e a expectativa) possam preencher esse vazio com (inter)subjetividade, imaginário, espontaneidade, autonomia, conflito, diferença, desejo, esperança, projeto e ação intencional, preenchendo de vida (e de Amor!) as vidas!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.