domingo, 20 de outubro de 2019

Coragem e outros medos!

O João tem uma mão cheia de quilos a mais e é demasiado preso de movimentos para ser bom a jogar à bola. Nas aulas, o rubor toma conta de todo o seu rosto só de imaginar que um Professor o pode interpelar para ler um texto em voz alta, ou para ir ao quadro resolver um exercício. O Manuel e o Francisco, intuindo o pouco à vontade do João, não perderam tempo. Começaram a ridicularizá-lo, levando consigo uma parte muito significativa da turma. Chamavam-no vermelhão, a princípio. Depressa recuperaram o hit da Fafá de Belém, cantando em coro: “vermelho, vermelhusco, vermelhão” de cada vez que o João passava. Estenderam, depois, os mimos à pouca destreza física que o João expressava nas aulas de Educação Física e, daí, à forma atrapalhada como se relacionava com os colegas.
   A cada dia que passava, mais o caminho para a Escola parecia uma espécie de via verde para a tortura. O João ia procurando ocupar o menos espaço possível (quem lhe dera ser invisível por aqueles dias), mantendo o seu sofrimento em segredo. Tinha vergonha. Muita vergonha. A sua autoestima andava pelas ruas da amargura. Até as notas que, apesar de tudo, a iam alimentando começariam a ressentir-se em breve. Temia, porventura, sentir-se ainda mais ridículo, fraco e desamparado se procurasse ajuda junto dos pais ou dum ou outro Professor. Sentia-se uma fraude, um fraco, um falhado. E tudo o que queria era sentir-se um vencedor aos olhos dos pais. E da Joana, do canto da sala que, por mais que uma vez, ousou defendê-lo contra as investidas de boa parte dos colegas.
           
   Sim, o João precisa de ajuda! Precisa de quem o proteja, em primeiro lugar, pondo no lugar quem usa e abusa das fragilidades do João para esconder e acalmar as suas. Precisa de quem, ao ajudá-lo a descodificar o que sente, o ajude a perceber que só se é verdadeiramente um vencedor para alguém quando há, na relação, um lugar para expor e olhar de frente as fragilidades. Precisa de quem o ajude a perceber que, sem esse espaço de intimidade, até se pode fingir bem, mas talvez nunca se seja verdadeiramente seguro de si. Precisa de quem o ajude a perceber que, mesmo com todas as fragilidades e medos do mundo, tem mais do que qualidades para ser um vencedor junto dos pais, das Joanas que lhe aparecerão vida fora, e de todas as pessoas que se vão deixar encantar pelas suas qualidades e fragilidades. Precisa de quem o ajude a puxar pelas suas competências, percebendo, por exemplo, que até pode não ser um Ronaldo dos recreios, mas que o porte físico considerável e a velocidade acima da média podem ser uma grande vantagem competitiva no rugby. Precisa de quem, ao ajudá-lo a encontrar-se no que sente e a daí retirar contrapartidas práticas, o ajude a usar as suas qualidades para aprender a pôr no lugar os Maneis e os Franciscos da sua vida. Estará, nessas circunstâncias, muito mais perto de se sentir (entre o medo e a audácia, as vitórias e as deceções) capaz de, com entusiasmo, nunca desistir de (re)encontrar o caminho para se sentir o vencedor no coração de todos aqueles que mais importam.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 21 de julho de 2019

Ataco com fúria para me proteger!

   Foi crescendo com a ideia de que não era bom a fazer amigos. Nem no futebol, no basquete, ou na relação com a escola, a aprendizagem e os professores. Muito menos a fazer os pais sentirem-se orgulhosos das conquistas que, invariavelmente, pensava nunca estarem ao seu alcance. Por mais que tivesse um conjunto de competências de base para a relação ou para a aprendizagem, era difícil para o Francisco não se sentir uma espécie do patinho feio da família, da escola ou das atividades extracurriculares. Por mais que tivesse um conjunto de competências de base para se chegar aos outros, era difícil para o Francisco não assumir que a generalidade dos colegas e professores não morriam de amores por si. Por mais que tivesse um conjunto de competências de base merecedoras de orgulho, era difícil para o Francisco escapar à ideia de que era uma espécie de desilusão oficial para os pais. Não admira, portanto, que na hora de se misturar com os colegas, no recreio, as suas competências relacionais fossem ofuscadas pelo medo de se sentir rejeitado e humilhado. E que, em função disso, camuflasse o medo numa postura ora mais distante e altiva, ora mais arrogante e desafiadora. Com os professores não parecia ser muito diferente. Especialmente com aqueles que sentia gostarem menos de si. Entrava em escaladas de conflito que nem as sucessivas chamadas à direção pareciam conseguir parar. O registo antes quebrar que torcer parecia pautar, também, muitos aspetos da relação com a mãe. O desafio constante (para lá de todos os limites razoáveis) parecia aumentar de forma proporcional aos castigos com que o procurava disciplinar. Já com o pai, era mais difícil para o Francisco não quebrar. Não que o pai fosse particularmente austero. Mas, ao pé dele, o seu ar de durão rapidamente dava lugar a uma expressão abertamente triste, que acabava por rebentar num choro sofrido, mas já no quarto, para onde fugia para chorar sozinho, durante horas.

   Talvez o Francisco precise, de facto, de chorar durante horas. Mas não sozinho! Precisará, parece-me, de quem lhe páre os exageros (metendo-lhe o dedo no nariz com tanta convicção quanto a que for necessária) ao mesmo que acolhe as suas dores e medos, e os ajuda a compreender. Precisará, parece-me, de quem o ajude a perceber que, ao contrário do que foi imaginando, não tem nenhum defeito de fabrico que o impeça de se chegar aos outros. Que sente bem as injustiças e que tem o direito (e o dever!) de se revoltar contra elas. Mas que, quando estamos muito assustados, às vezes atacamos, com fúria, para nos protegermos. E que isso até pode afastar quem nos magoa mas, muitas vezes, é também um chega para lá monumental a todos aqueles que gostam de nós e que, com o seu amor, nos podem ajudar a metabolizar a dor. E que o grande desafio, nestas circunstâncias, é dar um chega para cá a quem não nos deixa ser arrogantes e altivos, ao mesmo tempo que nos ajuda a traduzir em palavras, em histórias e em gestos, os sinais de fumo  (da arrogância ao desafio) com que vamos comunicando a dor. Se assim for, estaremos todos mais aptos para reconhecer, em nós, as competências que nos tornam “gostáveis”. E, por isso, mais aptos para reclamar, com clareza, o amor, o cuidado e o orgulho de todos quantos são fundamentais para nós.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

O que não nos liga não nos torna mais fortes!


A Maria foi crescendo muito metida consigo, com a ideia difusa de possuir um qualquer irreparável defeito de fabrico. Só isso explicaria que as notas ficassem sempre aquém das da irmã e das primas. Só isso explicaria que, em toda a infância e adolescência, nunca se tenha sentido verdadeiramente acolhida em nenhum grupo. Só isso explicaria que se fosse sentindo vezes demais uma espécie de corpo estranho, que ninguém conseguia decifrar.
 Conta-me, num choro sentido, a história de uma personagem de banda desenhada que a acompanhou durante toda a adolescência: a Kate era uma adolescente introvertida, sozinha e muito, muito triste. Em pequena teria sido assolada por uma espécie de maldição, em função da qual não podia olhar o mundo lá fora para lá do pôr do sol, sob pena de ter uma visão catastrófica, de cegar logo depois e de morrer, por fim. As cortinas de sua casa eram, por isso, fechadas, uma a uma, mal começava a cair a tarde.  
  
   Talvez o que a Maria quisesse dizer fosse que, ao contrário do que a maldição da Kate dava a entender, o conhecimento (do mundo lá fora e, sobretudo, do mundo que pulula dentro de nós) é vida! Pode assustar ou doer muito, num ou noutro momento. Mas é vida. E relação. Ou não precisássemos todos de quem (dentro de nós e no mundo lá fora), acolhendo o medo do desconhecido e acreditando no melhor de nós, nos ajude a desbravar avenidas no pensamento.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 10 de março de 2019

Posso-me zangar?


  Não se lembra de uma única chamada de atenção dos Professores, em criança. Todos – professores, funcionários, pais dos colegas – lhe elogiavam a delicadeza, o bom trato, a inteligência, o foco nas tarefas escolares, o modo como ignorava olimpicamente as provocações dos colegas ou como geria conflitos no recreio com a maturidade de uma adulta muito bem resolvida. Com os pais não era muito diferente. Em toda a sua infância, não recorda mais do que duas ou três chamadas de atenção mais vigorosas. Recorda-lhes o motivo, mas principalmente a culpa avassaladora e o medo a perder de vista com que as viveu. A imagem, a roçar a perfeição, que se foi habituando a vestir trazia-lhe inúmeros ganhos: do ar babado dos pais e avós, à admiração de professores e funcionários. Mas, ao mesmo tempo, que se sentia profundamente valorizada por tudo o que fazia bem, foi crescendo, dentro de si, o medo de não haver espaço para o deslize: na sua performance escolar, familiar e social, mas também em relação a tudo o que sentia. E, à medida que as vestes de “menina perfeita” se lhe agarravam à pele, crescia a culpa de cada vez que não conseguia controlar milimetricamente o que sentia, pensava ou fazia e lhe saíam um ato mais irrefletido, uma fantasia mais vincada ou uma performance aquém da perfeição. Estas poucas vezes em que, num rasgo de vida, se distraía eram, invariavelmente, seguidas por uma culpa imensa, uma tristeza a perder de vista, um medo avassalador da perda e, claro, por um reforço de todos os instrumentos que a ajudassem a ser mais certinha ainda! Afinal de contas, se estava claro para a Maria que todos admiravam a sua imagem de “boa menina”,  ia galopando sobre os seus recursos saudáveis o medo difuso de que todos a deixassem cair no dia em que suspeitassem que também tem um lado lunar. 
   Diz-me, num choro zangado: “mas tem ideia do que é crescer a não me poder zangar com ninguém? Com o estúpido do Tomás, que dia sim dia não me chamava betinha da Professora. Tem ideia do que é evitar jogar à sueca no liceu, porque quando perdia só me apetecia virar a mesa e mandar com as cartas à cara da minha colega que não jogava um caracol? E, apesar disso, acabar, mais uma vez, a fazer de boa samaritana: a tolerar as suas críticas à forma como eu jogava e ainda a confortá-la por cima, porque eu nunca podia ser outra coisa que não a Maria querida? Tem ideia do que é? E os meus pais? Como é que a minha mãe nunca deu conta que eu era tudo menos uma menina feliz? Como é que nunca deu conta que, por detrás, daquele doce de adolescente, estava uma menina às voltas com um vendaval de medos? Porque é que eu namorei, anos a fio, com palermas que só me faziam sentir inferior e mal-amada e eu, para variar, lá estava a fazer de boa samaritana compreensiva? E porquê que ainda hoje me custa tanto pôr as pessoas no sítio? Porque é que, por mais razão que tenha, ainda me sinto culpada se meto o dedo no nariz de alguém?

   Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez as emoções e os sentimentos (da tristeza à raiva, passando pelo medo, pelo encantamento, pela alegria ou pela desilusão) sejam, em certo sentido, “pensamentos à procura de um pensador” (recordando Bion) que, sempre que não encontram espaço relacional para se exprimirem, vão criando ruído e entraves ao crescimento… e à relação. Já quando encontram quem os acolha (não se assustando, ao mesmo tempo que sinaliza limites) e ajude a pensar (ajudando a vesti-los de palavras e a liga-los com aspetos essenciais da sua história) serão uma espécie de força motriz de vida, que impulsiona o crescimento… e aproxima o Outro!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

O papão não, por favor!


As crianças vivas fazem birras! E ainda bem! Birras no supermercado, birras para não ir para a cama, para não comer a sopa, para não fazer os TPC, para ver mais televisão ou não largar o tablet, etc., etc.  E, muito compreensivelmente (atendendo às mil e uma preocupações que vão tendo de gerir – do trabalho às contas para pagar, das negativas do mais velho às birras do mais novo, passando pela saúde da avó ou pela perda de um amigo próximo, por exemplo) nem sempre os pais conseguem estar tão disponíveis e seguros quanto são capazes, na hora de mostrar as linhas vermelhas que devem balizar as reivindicações das crianças.

 Nessas circunstâncias, uma ou outra vez, os pais apelam ao papão, ao senhor do saco, ao senhor polícia ou até ao lado revanchista do Pai Natal (capaz de mirrar toda a magia com um só saco de carvão). E isso é batota! Uma batota compreensível, mas batota! Ao delegarem a sua autoridade nestas entidades mais ou menos estranhas estarão, nas entrelinhas, a dizer aos filhos qualquer coisa como: “por mim até podias comer só chocolates e nunca largar o tablet… mas contra o papão ou o homem do saco, eu não posso fazer nada”. Ora, se as crianças vão olhando (e bem!) para os pais como tendo um toque de super-heróis, capazes de tudo para as proteger, talvez não faça muito sentido dizer-lhes, ainda que nas entrelinhas: “olha que afinal não. Não sou bem eu que tenho a força necessária para te proteger e te segurar venha o que vier; para fazer por ti as escolhas que ainda não podes fazer sozinho, ou para te pôr no sítio quando exageras. Há um tal de papão ao pé do qual eu não posso lá grande coisa”. A ser assim, as crianças precisarão de superpoderes sim!  Mas dos superpoderes humanos dos pais que têm dúvidas e também se enganam; que às vezes também estão cansados e preocupados, mas que, em circunstância alguma deixam de, em nome próprio, fazer valer o que consideram ser o melhor para os filhos.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Namorar o Amor!


Não havia música de fundo. (Só burburinho). Nem glamour. (Só fumo no ar). Nem flores. (Só amontoados de beatas nos cinzeiros). Talvez não fosse, de todo, o cenário que se imagina para ouvir histórias de amor. Mas foi ali, no último dia do ano, bem no meio de uma sala de fumo de um grande aeroporto internacional, que um jovem australiano, com a preciosa ajuda de uma bem-disposta senhora holandesa, mostrou que não há guetos nem interditos para as histórias de amor. O jovem viajava há mais de 24 horas. Aquela era a última escala antes de aterrar em Milão, bem a tempo de passar o ano com a belíssima italiana que mostrava, com orgulho, à senhora holandesa de cabelo grisalho e olhar ternurento. A senhora, num tom afetuoso e genuinamente preocupado, pergunta-lhe se a belíssima italiana sabia que ele ia. Ele descansa-a, assegurando-lhe que ela sabe, até porque queria que ela morresse de amor… mas nunca de ataque cardíaco! Explica-lhe que se apaixonara pela Francesca há um punhado de meses, em Adelaide, na Austrália e que, desde então, se tem desunhado para, literalmente, dar volta ao mundo só para poder cair no seu abraço.
   O burburinho tinha, entretanto, desaparecido. Não havia, naquela exígua sala de fumo, quem conseguisse tirar os olhos (e os ouvidos) do entusiasmo daquele jovem, de olhar brilhante e gestos inquietos. Uns olhavam-no com uma muito humana pontinha de inveja (como que perguntando-se: “mas porque é que nunca fiz uma coisa destas?”), mas com admiração (“Que grande tipo!”; “Que grande história!”), ternura (como que reconhecendo naquela bela história as próprias histórias em que, mesmo com menos pompa e muito menos circunstância, terão dado a “volta ao mundo” para namorar o amor) e esperança (como que, inspirando-se, para fazerem, mais e mais vezes, das suas relações amorosas uma espécie de volta ao mundo a dois). Outros, porém, não disfarçavam o sorrisinho cínico. Com a aspereza e a inveja de quem, há muito, desistiu de reclamar (e de lutar!) por quem lhe dê a volta ao mundo… todos os dias!

   Que o S. Valentim (com ou sem flores, presentes ou jantares à luz das velas) sirva para desconfinar as histórias de amor! E, com elas, a esperança, o desejo, a reivindicação e a luta (!) pelas voltas ao mundo que só o Amor consegue dar!

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Estrelas guia e outros milagres!


  Consumidor voraz de cinema, o Pedro costumava falar de si através dos filmes e séries, na (pouco) secreta esperança que eu o pudesse ajudar a ligar os enredos e as personagens, com os novelos da sua vida. Uma das suas personagens favoritas era o Giusepe, pequeno herói de um velho filme, que uma tia avó lhe dera há muitos Natais atrás. De sorriso reguila e joelhos esfolados de tanto trepar às árvores e saltar muros, o Giuseppe foi apanhado de rompante pelo terror Nazi, como milhões de outros meninos (e graúdos) de origem judia. Sempre que a mãe ouvia as passadas pesadas dos soldados a subir a velha escadaria de madeira que dava acesso à casa, escondia-o numa espécie de alçapão secreto. E dizia-lhe, numa voz terna, mas firme: “não tenhas medo!” A cena repetiu-se vezes sem conta, até que, numa manhã fria de janeiro, Giuseppe, escondido no alçapão, foi o único judeu do bairro a não ser levado pelos soldados das botas pesadas. Acabou por ser adotado por uma vizinha, amiga da família, aos cuidados de quem cresceu. Nunca mais largou o amuleto da sorte que a mãe, adivinhando o que viria a acontecer, lhe tinha dado, logo após a primeira visita dos soldados Nazis. E sempre (mas sempre! enfatiza o Pedro) que se sentia assustado ou inseguro, recordava a voz terna e firme da mãe a dizer-lhe: “não tenhas medo”. O medo não desaparecia. Mas a coragem ganhava-lhe aos pontos (sublinha o Pedro).

 Talvez o que o Pedro estivesse a querer dizer fosse que queria pensar as personagens e as histórias da sua vida, arrumando-as e desarrumando-as as vezes que fossem necessárias, até encontrar quem lhe pudesse sussurrar, numa voz terna e firme: “não tenhas medo!” Talvez o que o Pedro estivesse a querer dizer fosse que todos precisamos de quem, dentro de nós, faça de amuleto da sorte, não se assuste com os nossos medos,  e nos ajude a serená-los, a pensá-los, a configurá-los em palavras, histórias e gestos... E que essas pessoas, mesmo acabando por partir (partindo-nos, com isso, o coração), são eternas, dentro de nós! Quais estrelas guia, vivem milhares de anos luz só para nos iluminar o caminho! Talvez o que o Pedro estivesse a querer dizer fosse que a audácia, a autonomia e o desejo nunca possam crescer à margem desta confiança básica (recordando Erikson) na relação.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.