domingo, 21 de fevereiro de 2021

Autoestima: o Outro que mora em mim!

   Sente-se profundamente culpado. Inferior. Com defeito. Por não conseguir controlar a ansiedade. Nem a raiva ou o desamparo. Por não conseguir controlar milimetricamente o que sente e o que pensa. Por se sentir inseguro ou, como costuma dizer, por ter baixa autoestima. Insiste na ideia de que: se eu não gostar de mim, quem gostará?, ao mesmo tempo que dá a entender que ninguém o pode ajudar, para além dele próprio... gostando de si. 
   O Mário é um homem inteligente, sensível e sagaz. Mas assustado, muito assustado. E dominado por um profundo e difuso sentimento de desamparo. Mais depressa se pune por tudo o que não consegue, do que se permite sentir prazer ou orgulho por tudo o que foi construindo, sem alguma vez ter estado certo de com quem podia contar para lhe embalar o medo, aplacar os fantasmas ou parar os exageros. E, não menos importante: para o olhar dentro, com aquela profundidade de amor e orgulho capaz de fazer qualquer um sentir-se nada mais nada menos que o special one ... do mundo de alguém. 

   Sem dúvida que é importante sintonizarmo-nos com as nossas qualidades! E puxarmos por elas. Mas, frases batidas como: Ama-te a ti mesmo ou se eu não gostar de mim, quem gostará?, funcionando muito bem como slogans, (ainda que bem intencionados) correm o risco de se desencontrarem anos-luz daquilo que as pessoas sentem. Porque, ao contrário do que dão a entender, a relação com o outro é fundamental na forma como nos sintonizamos com o melhor das nossas qualidades. Como aprendemos com Winnicott, o olhar do outro significativo é determinante na forma como nos olhamos e olhamos o mundo. Ser amado será, assim, condição essencial para o ser humano se sentir amável e poder amar... de coração inteiro!
   A ser assim, muito mais do que apelar a uma autossuficiência (cúmplice da solidão e do desamparo), que o ser humano (felizmente!) nunca alcançará, estaremos a promover autoestima (e humanidade!) sempre que não desistimos de insistir em puxar para nós quem nos olhe dentro! 

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 31 de janeiro de 2021

Passa ao outro e não ao mesmo: culpa e pandemia.

  Com teste positivo para a COVID-19 nos primeiros dias de Janeiro, a que se sucederam testes positivos a toda a família nuclear, depressa as fortes dores de cabeça e de corpo tomaram conta do Manuel. Mas, por mais que as dores o incomodassem muito, o que mais lhe doía era mesmo a ideia de poder ter sido ele a contaminar a família. Por mais que todos estivessem, apenas, com sintomas ligeiros, era difícil não se deixar engolir por uma angústia avassaladora que, ora em lume brando, ora a todo o vapor, o transportava para um crescendo de cenários catastróficos, que não conseguia parar: as filhas, apesar de saudáveis, poderiam, azar dos azares, acabar agarradas a um ventilador? E a mulher? O que poderia acontecer à mulher? E se as perdesse? E ele, o que aconteceria se ele fosse mais um a engrossar os números de internados? Apesar de ter sido, sempre, muito rigoroso no cumprimento das recomendações das Autoridades de Saúde, não conseguia deixar de se sentir consumido por uma culpa insuportável. E revisitava, de modo obsessivo, todas as vezes em que se poderá ter descuidado, um bocadinho que fosse. E encontrou, claro, um par de situações em que, apesar de todos os cuidados, pode ter facilitado. Mas será razoável pensar que é possível não haver um descuido em 11 meses de cuidados pandémicos? 

   A situação é, de facto, dramática. Vivemos em sobressalto, assombrados por um fantasma de morte que, a qualquer momento, nos pode tirar pessoas, empregos, rendimentos, futuro... Vivemos tristes, pelas perdas de pessoas, de abraços, de estilo de vida, de emprego, de rendimento económico, etc. E a culpa? De quem é a culpa? A culpa não pode morrer solteira! Ora é dos governos, que não tomam medidas. Ora dos incumpridores que crucificamos nas redes sociais. Passa a outro e não ao mesmo, que a dor é, muitas vezes, mais intensa do que aquilo que seria suportável. E será muito em reação a esta insuportabilidade do sofrimento que se procuram bodes expiatórios que possam abrigar a culpa. Quer isto dizer que as medidas dos governos não são criticáveis numa altura destas, ou que não existem comportamentos de tal modo irresponsáveis que mais não são do que casos de polícia? De modo nenhum! Quererá antes dizer que projetar massivamente a angústia em culpados de geometria variável (governos – por mais que, evidentemente, as suas medidas possam ser criticáveis;  incumpridores – por mais que, naturalmente, comportamentos irresponsáveis mereçam penalização adequada; negacionistas – por mais que a sua denegação massiva e perigosa diga muito mais do seu mundo interno do que da realidade) até pode, numa ou noutra circunstância, ser a única forma de aliviar, momentaneamente, uma dor insuportável mas, seguramente, não nos deixa mais perto de combater eficazmente a pandemia. 
    A ser assim, talvez seja importante, lembrarmos a todos os Manuéis, as vezes que forem precisas, que são vítimas e não culpados! Que é da responsabilidade de cada um de nós protegermo-nos o melhor que pudermos, cumprindo escrupulosamente as indicações das Autoridades de Saúde; mas que, ainda assim, podemos infetar e ser infetados. E a culpa não é nossa! É do vírus! E é à boleia da destruição que tem causado que não haverá muito como (e ainda bem!) não sentirmos medo, tristeza, culpa e raiva! Saibamos nós não desistir de aproximar quem (nas relações amorosas, familiares, comunitárias ou profissionais) nos possa ajudar a transformar a intensidade de tudo aquilo que vamos sentindo, em gestos de relação e vida na luta contra a morte. Ou não fossemos, antes de tudo o mais, seres relacionais. 

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 17 de janeiro de 2021

Sim, estamos cheios de medo (outra vez) ... e ainda bem!

 Sim, estamos cheios de medo! De adoecer, de morrer, de perder pessoas rigorosamente imprescindíveis. De, sem querer, disseminarmos o mal. Sim, estamos cheios de medo! Da possibilidade das imagens trágicas de hospitais em rutura que nos chegaram de Itália, Espanha e tantas outras geografias se repetirem connosco. Sim, estamos cheios de medo! Da avalanche económica que todos já percebemos colossal. E estamos tristes. Pela vida mais ou menos suspensa por mil e um constrangimentos; pelos longos e penosos 10 meses sem tocar, cheirar, abraçar, beijar alguns dos que mais gostamos. Pior, porque muitos de nós, dramaticamente, já perderam pessoas preciosas. E estamos zangados, muito zangados! Um vírus, vindo do nada, virou-nos a vida do avesso e deu corpo a um batalhão de fantasmas! A realidade (dramática!) dos hospitais entra-nos casa adentro, e amplia mais e mais a intensidade do que vamos sentindo. 

  Por mais que muitos de nós nunca tenham tirado os pés do chão e a cabeça da consciência do perigo, o alívio nos números do mês de Dezembro, a viragem simbólica do ano (num registo mais ou menos mágico de que a pandemia era coisa do malfadado 2020) e a esperança (real!) na vacina que nos há de ajudar a vencer a pandemia, terão, porventura, alimentado a ideia de que o pior já tinha passado. Mas, com o ano novo, qual murro impiedoso no estômago, veio uma degradação assustadora da situação. E, com ela, a intensificação do medo, da tristeza e da raiva. E ainda bem! 
  O medo é protetor perante situações ameaçadoras. Será muito à boleia do medo (e do sentido comunitário) da rutura dos hospitais, do medo de adoecer, de morrer, de perder pessoas rigorosamente imprescindíveis e de, sem querer, disseminarmos o mal, que nos motivamos para cumprir escrupulosamente as indicações das Autoridades de Saúde. Será muito à conta da raiva que toda a situação inevitavelmente desperta, que vamos fazendo das tripas coração para dar vida à luta contra uma pandemia que insiste em dar corpo ao fantasma de morte. Será com a contribuição da tristeza (naquilo a que Melanie Klein chamou de posição depressiva) que podemos olhar para dentro, elaborar as perdas para, a partir daí, dar vida à luta pela vida! 

  Mas o medo, a raiva e a tristeza não podem atrapalhar? Podem! Muito! 
Quanto mais profundas as fragilidades pessoais e menos o espaço relacional, familiar, comunitário e social, para acolher e transformar a intensidade de tudo o que vamos sentindo nestes tempos teimosamente difíceis, mais o medo dará lugar ao pânico, a raiva ao ódio e à violência, e a tristeza ao desamparo e ao desespero. E mais perto estaremos de um pânico paralisante, de uma clivagem arcaica do mundo em “nós” (bons) vs “eles” (maus), e de uma denegação maníaca do medo e da própria realidade (terreno fértil para perigosos comportamentos de risco, teorias da conspiração e discursos que mais não fazem do que projetar a angústia nos mais diversos bodes expiatórios). 
  Queiramos ou não, estamos juntos na tempestade (bem sei que em barcos de resistência e conforto muito desiguais). E não temos como escapar à interdependência (afetiva, social, económica, de saúde, etc.) da natureza humana: sim(!), na nossa autonomia dependemos todos uns dos outros! Não parece, por isso, haver reação de vida a esta emergência (sanitária, antes de tudo, mas também afetiva, social e económica) que não seja a da humanidade de não desistir de transformar a intensidade de tudo aquilo que vamos sentindo em gestos de relação e vida!

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Para que serve a inveja?

  Estava entusiasmada. Mas nervosa. Afinal ia defender, perante uma plateia que admirava muito, o trabalho em que mergulhara com alma nos últimos anos. Começou a medo, com a voz trémula e o coração acelerado. Mas, com o passar dos minutos, foi-se soltando e explanando o trabalho com consistência, entusiasmo e qualidade, muita qualidade. Correu-lhe manifestamente bem e, no final, não cabia em si de contente. Até que a colega, com quem partilhara parte do projeto, a decidiu congratular com um sorridente: disseste tantos portantos. Atordoada com o golpe num primeiro momento, depressa pensou: és tão invejosa! Se pensas que me vais roubar o momento estás muito enganada! Mas a verdade é que o comentário da colega ficou a ecoar-lhe no pensamento. O suficiente para lhe esmorecer o orgulho, nota a Maria, ao mesmo tempo que evoca as vezes em que das suas conquistas resultaram reparos e mas a mais e Parabéns! abertos e rasgados a menos. Ou, pior, todas as vezes em que silenciou os seus sucessos (e o prazer deles decorrente) por intuir que não teria quem consigo os celebrasse, de peito aberto e abraço grande. Ou, ainda, todas as vezes em que os viveu numa espécie de culpa e vergonha, como se, com eles, pudesse atropelar algumas das pessoas de quem mais gosta. Em jeito de síntese, a Maria recupera o refrão de uma canção dos Deolinda para dizer que, às vezes, uma ou outra pessoa importante para si lhe fazia sentir, de forma mais velada ou mais aberta: o teu bem faz-me tão mal! Recorda, mais tarde, uma colega com quem trabalhara há muitos anos e com quem praticamente não falava desde então. Até ao dia em que, do nada, recebeu uma mensagem sua, a dar-lhe os Parabéns pela altíssima qualidade dos seus relatórios técnicos. Pontua com um enfático: Foi de uma bondade, não lhe sei explicar! Acho que a Marta não tem a noção do quão foi importante para mim aquela manifestação espontânea e desinteressada! A Marta é, de facto, uma pessoa muito especial! No início das nossas carreiras, quando trabalhámos juntas, concorremos as duas a um prémio para jovens profissionais. Eu tive a sorte de ganhar! E ela ficou em segundo. Mal saíram os resultados ela ligou-me e disse, palavra por palavra: sacana, ganhaste tu! Ai que inveja! Parabéns! Agora, por castigo e celebração, vá tudo junto, tens de pagar o jantar! Eu ganhei-lhe e ela foi capaz de celebrar comigo! Acho que é isso que eu ando à procura: de quem celebre comigo!

   Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez o que magoe e afaste não seja bem a natureza do que se sente (quem nunca sentiu inveja que atire a primeira pedra!) , mas muito mais a forma como se procura esconder (do outro e de si!), branqueando-o ou expressando-o, em bruto, de forma retorcida e impulsiva. A ser assim, talvez as únicas emoções “negativas” (que afastam e amachucam) sejam mesmo as que ficam por pensar e comunicar e que, por isso, encontram no agir impulsivo (violento e destrutivo, muitas vezes) a única forma de expressão. A ser assim, talvez o grande desafio seja mesmo o de pensarmos as emoções, de as vestirmos de palavras, histórias e relação (naquilo a que Bion chamou função α), para as podermos comunicar com toda a clareza e afeto de que formos capazes. 

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.


domingo, 11 de outubro de 2020

Um admirável mundo novo... em tempos de pandemia!

  Desde que, há uns anos, foi ver o cortejo académico do primo que sonhava com a vida de universitário, com as festas e as noitadas, com a autonomia e o mar de pessoas e oportunidades que a Faculdade lhe iria trazer. Depois de um ano de ansiedade miudinha, de exames e de estudo empenhado, o João entrou, finalmente, no curso e na Universidade que sonhara. Mas a pandemia trocara-lhe as voltas. Fora duro o 12º ano. Como é que pode não ser difícil gerir o medo de uma pandemia, as aulas online, primeiro, e o medo do regresso, depois? Como é que pode não ser difícil gerir o conflito entre o impulso (saudável!) para estar com o grupo de amigos, e o medo dos riscos e a culpabilidade que isso pode representar? 

   Nos últimos dias antes da partida para a cidade que escolhera para estudar, eram mil e uma as apreensões que lhe esmagavam o entusiasmo: como é que ia conseguir fazer amigos nestes tempos de distanciamento físico? Como é que se iria integrar se não existem festas, nem copos, nem noitadas? Como é que iria tropeçar no amor (como tantas vezes sonhara) se a máscara esconde as covinhas que faz quando sorri genuinamente? E se tivesse de ficar de quarentena, sozinho, num quarto que ainda está longe de sentir como seu? Pior, e se ficasse infetado e infetasse todos à volta? Como iriam ser as aulas? Como é que os mil e um medos lhe iriam permitir concentrar-se em aprender tudo o que tinha que saber (modelos de aulas, espaços físicos e virtuais, horários, etc.) para se organizar?
   Comoviam-no, por estes dias, os conselhos e gestos protetores dos pais. Mas, tão depressa, corria para o seu colo como, a seguir, não lhe saía muito mais do que um: “que melgas, eu já sou crescido!”. No dia em que, finalmente, os pais o levaram ao quarto que tinha alugado a dois passos da Universidade, não parece ter sido tão diferente assim (com uma intensidade ampliada pela proximidade do futuro). Ao almoço, manteve, por fora, a postura de “homem crescido sem medos”. Com mais custo, mas aguentou-se, depois, enquanto a mãe lhe fazia as mil e uma recomendações acerca dos cuidados com a COVID-19, da roupa, da comida e das saídas à noite, e o pai lhe falava, entre o entusiasmado e o assustado, da necessidade de conciliar responsabilidade académica e sanitária, com integração social. Talvez o João quisesse dizer: “eu sei, eu sei que há muito que sonhava com isto. Eu sei, eu sei, que isto vai ser bom para mim, mas estou com tanto medo! Tenho tanto medo de não estar à altura das matérias, de me acharem ridículo na Faculdade, de não ser tão fácil fazer amigos como sempre imaginei que iria ser... E depois há a COVID-19. Como é que se lida com a COVID-19 longe de vocês?”. Talvez o João quisesse dizer: “Vai correr bem, não vai?”, ao mesmo tempo que corria para os braços dos pais e lhes dizia: “vão cá estar sempre para me segurar quando não correr bem, não vão? Mesmo quando eu, inflamado e um bocadinho arrogante, disser que sou um homem crescido, e que não tenho medo de nada?”… Mas só lhe saiu um: “Mãe!!! Eu já tenho 18 anos! Dah, isto foi o que eu sempre quis!”. Depois de uma despedida tão calorosa quanto esta postura sobranceiro-assustada permitiu, assim que os pais fecharam a porta da sua nova casa, o João deitou-se sobre a sua nova cama (como lhe parecia estranha a textura do edredão, o cheiro e as esquinas da nova casa) e chorou. Chorou desalmadamente. De medo (do que aí vinha). De raiva (por não ter procurado a segurança que alavanca o entusiasmo no colo dos pais). Até que o telefone tocou. Enxugou as lágrimas, mas não conseguiu disfarçar a voz triste e arrastada. Eram os pais, em uníssono, a dizer: “Hei, João, a primeira noite é um bocadinho assustadora. A 2ª, a 3ª e a 4ª também ainda podem ser um bocadinho. Mas vai, evidentemente, correr bem!”. Desta vez o João chorou com os pais. Nem a distância que o telefone impõe o impediu de sentir o colo dos pais, bem ali, para si, forte e seguro, para o que desse e viesse. E o medo, pouco a pouco, foi-se tornando menos avassalador, abrindo-se, agora, espaço para que pudesse conviver com o entusiasmo de quem estava prestes a agarrar um admirável mundo novo.  

   Nunca percebi muito bem o slogan “não há ano como o de caloiro”, que se vai perpetuando em muitos meios académicos. A entrada no Ensino Superior é, de facto, uma fantástica janela para o mundo; um mar de oportunidade de abertura ao conhecimento e à diferença (de pessoas, percursos de vida, ideias, etc.). Mas, um slogan como este parece dar a entender que a adaptação a um admirável mundo novo (que implica, as mais das vezes, a saída de casa dos pais) tem de ser fácil e rápida. E quase nunca é! E não se fará à margem de um conflito interno entre o entusiasmo de se deixar encantar com as oportunidades (pessoais, sociais, amorosas, intelectuais, etc.) e o medo do desconhecido. Talvez, por isso, se aproxime mais da publicidade enganosa do que de uma fórmula capaz de legendar o que os jovens sentem, nestas circunstâncias. 
   A ser assim, talvez lhes possamos dizer que dificilmente há adaptações sem alguma turbulência interna (de convivência entre o entusiasmo e o medo); e que os medos tendem a tornar-se muito menos assustadores (deixando de tolher o melhor de nós), sempre que somos capazes de os confiar aos colos que nos ajudam a transformá-los (numa espécie de grito: vou com medo, mas vou!)
   A ser assim, talvez possamos dizer aos seus pais que, se não há autonomia sem vinculação, os filhos continuam a precisar muito deles – quer para os encorajarem a voar, quer para lhes assegurar - por palavras e gestos – que, por maior que possa ser a tempestade, serão sempre (!) o seu porto seguro!

*Título de um romance de Auldous Huxley

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Desconfinar o medo

  Ei-la a destruir vida social e económica; a disseminar doença e sofrimento; a expor, como há muito não se via, a insuportável chaga da pobreza, ou a escavacar as fissuras da saúde mental, que estariam antes (um bocadinho) menos expostas. A pandemia de covid-19 é, porventura, o maior e mais global desafio da Humanidade em muitas décadas.

  Perante a incerteza e a magnitude da calamidade, talvez não haja muito como não pairarem nuvens negras de um medo mais ou menos omnipresente: medo de contaminar e ser contaminado (ou, numa formulação mais crua, medo de matar ou morrer), de perder pessoas rigorosamente imprescindíveis, de perder o emprego e os rendimentos; medo do presente e, sobretudo, medo do futuro.

 Ao mesmo tempo que Freud nos ensinava que os determinantes do comportamento humano vão muito para além da racionalidade, trazia humanidade à forma como olhamos a saúde mental, lembrando-nos que o normal e o patológico são, no essencial, quantidades diferentes das mesmas qualidades humanas. Mais de 100 anos volvidos, é assim que parece funcionar com o medo ou com a raiva, por exemplo. Emoções como o medo e a raiva são saudáveis! Serão uma espécie de primeira linha de defesas (como nos lembra o Professor Eduardo Sá) ou de marcadores somáticos (como lhes chama o neurocientista António Damásio), a indicar-nos o caminho para podermos reagir à adversidade. Neste sentido, será graças ao medo a que, felizmente, vamos sendo capazes de acrescentar sentido comunitário, que cumprimos, com responsabilidade, as recomendações das autoridades de saúde. Será graças à revolta que assumimos o risco ponderado de lutarmos pela normalidade possível, não permitindo que o vírus limite a nossa vida (pessoal, familiar, profissional e comunitária) para lá do estritamente necessário.

 Haverá, todavia, muitas circunstâncias, em que o medo ou a raiva não encontrarão acolhimento relacional (nos planos pessoal, familiar, laboral, social e comunitário) para se expressarem abertamente, e transformarem em palavras, em enredos e em gestos intencionais. Será neste contexto que – tenho para mim - aumentará exponencialmente a probabilidade do medo atrapalhar muito mais do que aquilo que protege; seja pela recusa em assumir qualquer risco, por mais ponderado que seja; seja pelo desafio constante ao perigo, numa espécie de denegação (mais ou menos maníaca) dos riscos (e do próprio medo!). Não será tão diferente assim com a raiva. Na impossibilidade de, na relação (pessoal, familiar, laboral, social e comunitária), se transformar numa revolta proactiva, subsidiária da esperança e da coragem na reação, a raiva (assim como o medo) parece ficar à solta, em bruto, à mercê dos mais variados discursos populistas que a captem e a catapultem para a projeção em diferentes grupos sociais e/ou teorias da conspiração. 

  

  Se não há como, num passe de mágica, apagarmos a devastação que a pandemia arrasta, a verdade é que podemos reagir-lhe! Assim saibamos acarinhar o papel protetor do medo e da raiva, vestindo-os de relação e sentido comunitário.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

O que não nos liga não nos torna mais fortes!

A Maria foi crescendo muito metida consigo, com a ideia difusa de possuir um qualquer irreparável defeito de fabrico. Só isso explicaria que as notas ficassem sempre aquém das da irmã e das primas. Só isso explicaria que, em toda a infância e adolescência, nunca se tenha sentido verdadeiramente acolhida em nenhum grupo. Só isso explicaria que se fosse sentindo vezes demais uma espécie de corpo estranho, que ninguém conseguia decifrar.
 Conta-me, num choro sentido, a história de uma personagem de banda desenhada que a acompanhou durante toda a adolescência: a Kate era uma adolescente introvertida, sozinha e muito, muito triste. Em pequena teria sido assolada por uma espécie de maldição, em função da qual não podia olhar o mundo lá fora para lá do pôr do sol, sob pena de ter uma visão catastrófica, de cegar logo depois e de morrer, por fim. As cortinas de sua casa eram, por isso, fechadas, uma a uma, mal começava a cair a tarde.  
  
   Talvez o que a Maria quisesse dizer fosse que, ao contrário do que a maldição da Kate dava a entender, o que mata (devagarinho) serão os movimentos que nos levam a fecharmo-nos sobre nós próprios, cerrando as cortinas da curiosidade e da relação. Já o conhecimento (do mundo lá fora e, sobretudo, do mundo que pulula dentro de nós) é vida! Até pode assustar ou doer muito, num ou noutro momento, mas é vida! E relação! Ou não precisássemos todos de quem (dentro de nós e no mundo lá fora) nos acolha a angústia do desconhecido e o medo de conhecer (também o que já se pressente), para sermos mais curiosos, mais vivos, mais afoitos... e mais inteligentes!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.