segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Os Professores que encantam … também choram.

  A Maria é professora vai para 14 anos. Entre horários completos, parciais e substituições conseguiu colocação em todos os anos letivos. Quase sempre longe de casa. Este ano não é diferente: faz 160 Km diários para se poder multiplicar entre as turmas do 5º e 6º ano, o marido e a filha de 6 anos.
  Chegada a hora de concorrer ao Ensino Superior, o entusiasmo pela arte de ensinar falou mais alto do que as vozes preocupadas que a aconselhavam a optar por uma área com um futuro mais seguro. O Curso, que fez com afinco, só fez crescer dentro de si o entusiasmo. Com o estágio, o encantamento ganhou corpo na certeza interior de ter feito a escolha certa: “se eu ainda tinha dúvidas, nesse ano percebi de vez: eu nasci para ensinar. Eu nasci para aprender com os alunos a ensinar melhor”, diz com um brilhozinho nos olhos.
  Apesar de todos os constrangimentos, incertezas laborais e inseguranças pessoais, a Maria, ano após ano, renovava o encantamento de ajudar crianças a crescer por via do conhecimento do mundo e de si próprias. A competência, a exigência e a firmeza, o afeto e a disponibilidade que os alunos lhe reconheciam, sempre lhe foram permitindo gerir as turmas da melhor forma possível. Não que não tivesse tido dificuldades sérias ao longo deste percurso. De adolescentes com problemas de comportamento muito acentuados, a crianças com problemas persistentes de insucesso escolar, de tudo foi vivendo um pouco, sem nunca desistir de se sintonizar com estes miúdos, procurando, sempre, todos os recursos para os ajudar a reencontrarem-se num desenvolvimento saudável.
  Sem saber bem como, tudo mudou: “sempre fui uma mulher de sangue na guelra. Podia estar cansada sim, mas ia sempre para a Escola com entusiasmo. Podia estar cansada, sim, mas vinha para casa cheia de entusiasmo para abraçar o meu marido e a minha filha. Já não me reconheço. Já não sou a mesma. Para onde foi a paixão por ensinar? Para onde foi a Maria que nunca desistia dos alunos, mesmo os mais problemáticos? Pior, onde está a Maria que via no abraço do marido um porto seguro? Dantes, quando eu estava triste, falava, falava, falava com ele e sentia que ali, no seu abraço, tudo se resolvia. Agora fecho-me. Sinto que ele já não está lá para mim. Ou sou eu que já não o sei procurar. Estamos distantes. Ou estamos distantes ou estamos a discutir. Não estão nada fáceis as coisas entre nós. Até com a minha filha, tenho menos paciência. Tudo me irrita. Preparar aulas, levar a filhota ao parque, os almoços de família em casa dos meus pais e dos meus sogros. Tudo me irrita. Depois sinto-me culpada. Durmo mal e ando sempre mal disposta. Não tenho energia para nada. Eu que tinha sempre energia para tudo! E foi por isso que decidi: basta! Está na hora de procurar ajuda. Eu quero voltar a sentir-me a mulher viva, com sangue na guelra, que apesar de todos os medos, sempre me senti”.

  Quantas vezes, entre as exigências desmesuradas de um trabalho que devia entusiasmar mais do que entediar (perdendo-se em burocracias desnecessárias, por exemplo), e a complexidade de compatibilizar tudo isso com uma vida pessoal e familiar já de si complexa, as pessoas não se vão, devagar devagarinho, desencontrando dos seus recursos saudáveis? Quantas vezes, entre a espuma dos dias e a urgência do imediato, as pessoas não fazem por calar (varrendo, invariavelmente, para debaixo do tapete) tudo aquilo que a natureza humana não permitirá nunca que deixemos de sentir? Sempre que assim é, estaremos muito mais próximos – creio - de ficarmos dominados por emoções por pensar que, ao mesmo tempo que alimentam uma espécie de sentimento de solidão - de quem se vê sozinho com as emoções que tenta não sentir (como se isso fosse possível…), não pensar e não comunicar - contaminam todas as áreas da nossa vida. Semeando enfado e ressentimento onde devia haver entusiasmo. Plantando angústia e desamparo onde devia crescer relação e vida. Num ciclo vicioso que urge quebrar. 


Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.  

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Ainda Paris: os monstros também são humanos… por muito que nos custe.

    Ainda a tragédia de Paris. Alguns de nós (por medo, creio) apressaram-se, de forma mais aberta ou mais velada, a associar os atentados da eterna Cidade Luz aos refugiados. Não, muitos de nós não esperaram sequer pela confirmação de que o suposto passaporte sírio é mesmo verdadeiro. Não passou, sequer, pela cabeça da maioria de nós que se pudesse tratar do passaporte de uma das vítimas da carnificina no Bataclan. Porque, claro, não há como um cidadão sírio gostar de heavy metal. Só poderia ser, claro está, o passaporte de um terrorista que, para além das bombas e da Kalashnikov, fez questão de levar a sua identificação consigo para facilitar o cruzamento de dados à polícia.
   Outros, de entre nós, apressaram-se, a culpar os serviços secretos e as falhas na segurança. Afinal de contas tinham havido 1001 avisos e isto não podia ter acontecido. E não podia mesmo. É uma tragédia. Um terror. O mal feito coisa em si. Outros, ainda, apressaram-se a associar o terror aos muçulmanos em geral, como se o mal fosse um exclusivo dos crentes em Alá.
   Perante tamanho terror, esta cisão do mundo entre bons e maus ou entre competentes e incompetentes em matéria de segurança, até pode servir para, num primeiro momento, circunscrever o medo e tornar o sofrimento um bocadinho menos insuportável: o mal estaria bem identificado, teria uma cara e poderia, por isso, ser vencido para sempre. Seria, afinal de contas, só investir nos serviços secretos (por mais que isso seja, evidentemente, necessário) e combater os “maus” (por mais que isso seja, evidentemente, uma necessidade urgente).
   Mas, há mais de 100 anos, aprendemos com Freud que o bem e o mal, assim como a saúde mental e a doença são muito mais polos de um contínuo - relacionado, em boa medida, com a humanidade com que tivemos ou não oportunidade de crescer - do que categorias isoladas (resultantes, as mais das vezes, de um “defeito de fabrico”) que dividem o mundo em branco e preto.
   Por muito que fosse mais fácil dar um rosto ao mal (fosse ele uma etnia ou uma confissão religiosa), a verdade é que tenhamos nós nascido em Portugal, na Síria, na Suécia, nos subúrbios cinzentões de Paris ou Londres, no seio de uma família pobre ou de uma família com sobrenome pomposo, somos todos feitos da mesma matéria. Não há, por isso, qualquer razoabilidade na ideia de que os muçulmanos, por serem muçulmanos, serão mais propensos ao terrorismo. Infelizmente, a maldade feita terror, não é um exclusivo de nenhuma etnia ou confissão religiosa (basta lembrar o cidadão norueguês que disparou indiscriminadamente sobre um acampamento de jovens ou o piloto alemão que assassinou muitas dezenas de pessoas despenhando, aparentemente de forma propositada, o avião da Germanwings).
   A este propósito, dizia-me, por estes dias, um amigo mais velho (que, há um par de décadas, em trabalho, palmilhou, de lés a lés, e vezes sem conta, países como o Irão e o Iraque): “estás a ver o que é um miúdo pobre de uma aldeia perdida no deserto. O horizonte dele é onde o sol se põe. Não tem posses para comprar uma mulher”. Qualquer manifestação mínima de sexualidade - “olhar, só olhar para um corpo feminino (porque a cara está coberta pela burka) – é severamente punida. Não pode beber álcool nem tem qualquer outra fonte de prazer mundano. Não tem qualquer perspetiva de futuro que não seja o de tentar sobreviver dia após dia… estás a ver: um miúdo destes – que não é ninguém e, pior, que não pode sequer sonhar ser seja o que for - não está mais suscetível a ser aliciado por um grupo terrorista? Acenam-lhe com a cenourinha de se tornar importante, com o acesso ao contacto com as mulheres… quanto mais não seja depois de morrer…”. Presumo que sem saber, este bom amigo trouxe-me ao pensamento os teóricos da vinculação que, há 60 ou 70 anos, sustentaram aquilo que hoje, em pleno séc. XXI, ainda é uma “verdade” muito consistente e que, grosso modo, se poderia resumir na ideia de que o sentimento de se ser amado (independentemente da latitude onde se nasce, cresce ou morre) é uma necessidade primária, tão básica quanto uma alimentação saudável. Até que ponto (nas aldeias do deserto, no centro ou na periferia de uma qualquer capital Europeia) miúdos muitíssimo desorganizados e desamparados, não estarão mais suscetíveis de aderir a organizações terroristas que lhes dão a ilusão – muito distorcida e muito doentia, é certo – do sentimento de pertença, de se sentirem valorizados, protegidos e até amados?
   Estou, com isto, a querer desculpabilizar, de forma velada, comportamentos tão hediondos? De modo nenhum! Não vejo como não considerar que têm, sem dúvida, uma dimensão muito significativa de responsabilidade pessoal e que, portanto, uma aproximação punitiva e securitária (sem contemplações) é fundamental na luta contra o terrorismo (seja ele de que natureza for).
   Mas, evidentemente, a complexidade do fenómeno do terrorismo não se compadece com lógicas simplistas e causalidades lineares. Se, na linha de Freud, assumirmos que somos todos feitos da mesmíssima matéria, e com os teóricos da vinculação, que todos precisamos de nos sentir amados (com a sintonia, o colo e as regras que todo o amor implica) tanto quanto precisamos de uma alimentação saudável, então, talvez valha a pena perder algum tempo com a hipótese de que a adesão à violência hedionda talvez seja mais provável sempre que, reiteradamente, não encontramos (nas relações próximas, em primeiro lugar, mas na comunidade em geral também) nenhuma via saudável que simbolize, um bocadinho que seja, o sentimento de se ser contido (no sentido que Bion lhe dava) e amado.
   Perdoem-me a “lamechice”, mas não resisto a citar, a este respeito, o Nélson Mandela (ele que sendo, com inteiríssima justiça, um dos símbolos maiores do melhor que a humanidade alguma vez foi capaz de fazer, não deixou, durante um curto período do início do seu percurso público, de ser um defensor da violência feroz como arma contra violências maiores): “Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.

PS: como acho que, simbolicamente, diziam as pessoas que saiam do Estádio de França, ao entoarem, emocionadas, a Marselhesa ou todas aquelas que se disponibilizaram para, naquele fatídica noite, acolherem turistas perdidos no caos, em suas casas, estou convicto de que o medo não vencerá! 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Generosidades, medos e outros apelos.

   A Maria tinha tido, naquela manhã, uma consulta médica a propósito de um problema incómodo, que a deixava muito embaraçada. Imaginava-a, por isso, mais cabisbaixa nesse dia. Assim tem sido, nas últimas semanas, de cada vez que tem de se confrontar com a sua condição médica. Só voltaria a arrebitar quando tudo passasse, vaticinara há um par de semanas.
   Chegou à mesma hora de sempre. Mas, ao contrário do que eu imaginara, vinha solta, de peito cheio e olhar vivo. Conta-me que apanhou um médico, “já meio velhote, com ar de avô, está a ver?”, que lhe explicou, detalhadamente, a evolução expectável do seu quadro clínico, que a ouviu e que foi capaz de antecipar algumas das suas angústias e embaraços. “Senti que o médico estava ali mesmo comigo, sabe?”. Continua: “e isso fez-me sentir muito bem. Serenou-me. Voltei para o trabalho e lembrei-me que uma das minhas colegas andava a ler um livro que se chama Justiça Generosa ou qualquer coisa assim. Andei todo o dia a pensar nisso. Nos gestos de generosidade. No gesto de generosidade que aquele médico com ar de avô que conta histórias teve para comigo. E em muitos gestos generosos que foram tendo para comigo ao longo da vida. E em como isso me faz bem. E em como quando as pessoas repetem os gestos de generosidade para connosco, mesmo que, por algum motivo, deixem de fazer parte do nosso círculo de relações, nos acompanham para sempre, como uma espécie de farol que nos guia os passos. E em como ser generosa é muito diferente de ser boazita. Sabe, pensando bem, a esta distância, eu acho que não o procurei só para me ajudar com o pânico em que me deixava a ideia de ter de dar formação aos meus colegas... Pensando bem, a esta distância, eu acho que também queria que me ajudasse a ser menos boazita e mais generosa. Acho que, no trabalho, os meus colegas, o meu chefe, todos falam de mim como a boazita. É melhor ser boazita do que outras coisas, mas soa assim um bocado a “totó”. E eu não quero ser “totó” nenhuma! Acho que queria que me ajudasse a dar um murro na mesa quando vêm, injustamente, para cima de mim. A dizer que não quando sinto que devo dizer que não. Sem culpabilidades nem medos do que possam pensar ou dizer. Sabe, em muitas das coisas boazitas que fiz, acho que não estava a ser tão generosa assim. Os gestos de generosidade são diferentes. Estamos mesmo ali com as pessoas. Tocamos-lhes a alma. Os gestos de generosidade fazem-nos bem. Não servem para acalmar culpabilidades e medos. Vêm de dentro. São genuínos. Acho que é por isso que aproximam as pessoas”. 


Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal. 

domingo, 18 de outubro de 2015

Dores de crescimento

  Os pais do João acabam de chegar da reunião com a Diretora de turma. Apesar dele nunca ter tido notas tão exemplares quanto a irmã mais velha, sempre se foi safando com alguma facilidade. Ainda que o seu lado irreverente lhe tenha, sempre, barrado o acesso ao epíteto de exemplo para a turma (que a irmã foi colecionando ano após ano) nunca, no seu percurso escolar, os pais tinham ouvido queixas graves acerca do seu comportamento. Agora no 11º ano, “quando devia estar preocupado com a média” nota o pai, acumulam-se as faltas. E as negativas. E os repentes impetuosos com a Professora de Educação Física ou o Professor de Química. A juntar a um clima de grande crispação com a mãe e de distância tensa com o pai.
   Os pais estão muito zangados com o João: “Nunca a irmã (já no 1º ano da Faculdade) nos deu dores de cabeça assim” pontua o pai. E muito preocupados: “ele só quer boa vida. Falta às aulas. À 5ª, 6ª e sábado à noite não para em casa. Eu digo-lhe que é melhor ficar em casa a estudar, mas quando dou conta ele já saiu. Eu sei lá com quem é que ele anda” nota a mãe.
 Decidem, de imediato, que o João terá de tirar o piercing que, orgulhosamente, ostenta na sobrancelha. A discussão aquece muito para lá do razoável até que o João corre para o quarto, deixando soltar as primeiras lágrimas só depois de bater a porta com estrondo.
  Na 6ª feira seguinte, enquanto o João ultimava, cuidadosamente, os pormenores do seu estilo milimetricamente “maltrapilho” (como, jocosamente, lhe chama o pai) a mãe diz, mais uma vez, ao João para não sair. Já ele tinha entrado na porta do elevador e ainda a mãe discursava acerca dos malefícios do sair à noite com tanta frequência, na sua idade. A história repetiu-se no sábado seguinte. E nas 5ª, 6ª e sábados que se lhe seguiram.
   A relação entre o João e os pais parece, cada vez mais, uma espécie de guerra fria. A tensão permanente no ar só se materializa em conflito aberto quando o assunto é o piercing. E, aí, não é difícil imaginar que ultrapassa todas as regras do bom senso.
  Talvez o João precise de ajuda para se encontrar no turbilhão de coisas que vai sentindo dentro de si. Talvez os pais precisem de quem os ajude a sintonizarem-se com o João. Falam do medo quanto ao futuro do João. Mas mantêm sob silêncio (talvez na esperança de o fazer desaparecer) o fantasma de não serem bons pais ou do João, verdadeiramente, não gostar deles.
    Se o João conseguisse traduzir o que sente em palavras tão bem como traduz as letras dos Muse e dos Pearl Jam para as suas colegas, talvez pudesse dizer aos pais que, por mais que tenha 1,80 m e barba de homem, precisa muito dos pais. Para lhe balizarem o crescimento com regras claras e firmes, por um lado, e para o segurarem num abraço, por outro.
   Se o João conseguisse traduzir o que sente em palavras tão bem como traduz as tácticas em noite de Liga os Campeões, talvez pudesse dizer aos pais que morre de medo de, aos seus olhos, nunca chegar aos calcanhares da irmã. Que as suas negativas não são resultado de incapacidade ou de preguiça (como poderiam pensar os mais distraídos). Que acontecem muito mais em função de estar muito receoso relativamente ao seu próprio valor e que, nessas circunstâncias, às vezes, se adota uma postura sobranceira de: “se eu quisesse tirava boas notas, eu é que não estudo”, que é assim uma maneira de nunca se por à prova!
   Se o João conseguisse traduzir o que sente em palavras tão bem como faz a sua guitarra soar os acordes das músicas dos The Cure, talvez pudesse dizer ao pai que sente muita falta de quando iam ao estádio só os dois ou quando os jogos do Porto na TV eram uma espécie de ritual sagrado vivido a dois. E que, de cada vez que o pai não toma a iniciativa para esses programas a dois, outrora invioláveis, se sente um bocadinho abandonado e com medo de não passar de uma desilusão para o pai. E que chorou, sozinho no quarto – por se sentir abandonado e desvalorizado de uma assentada - quando foi ignorado pelo pai, que queria ver o debate na TV, quando, pela primeira vez, o interpelou para discutir política. Vinha entusiasmado dos dias em que passou fora, com o primo mais velho, na Queima das Fitas: para além dos concertos, da festa, e das cervejas à beira rio, o grupo de amigos do primo discutia política como se fossem mudar o mundo numa só noite.
   Se o João conseguisse traduzir o que sente em palavras tão bem quanto interpreta o espírito do futebol amador quando se esfalfa num ou noutro jogo em casa, talvez pudesse dizer à mãe que, por mais que proteste, se sente protegido e amado de cada vez que ela é mãe galinha. Mas que, de cada vez que ela e o pai não o impedem, com firmeza, de fazer o que não é melhor para si (como nas saídas à noite em catadupa) - e, por mais que isso, num primeiro momento, até o possa fazer sentir triunfante (à semelhança de uma criança que, repetidamente, leva a sua avante com a birra de supermercado) - acaba sempre por o fazer sentir sozinho e um bocadinho inseguro em relação ao amor dos pais, numa lógica de: “se eles gostassem mesmo, mesmo de mim, não me deixavam (custasse o que custasse) fazer o que não é melhor para mim”! Se assim fosse, talvez pudesse falar com os pais, com um primo ou com um amigo mais próximo da discrepância que sente entre a popularidade que tem entre as raparigas e o medo imenso de se chegar com convicção à Margarida do 11º C, por quem suspira intervalo após intervalo e, com quem parece estar a perder terreno a olhos vistos para o betinho do 12º A. Talvez pudesse dizer aos pais que, por tudo isto e muito mais, carrega, dentro de si, um misto de medo, mágoa e raiva. E que este turbilhão - que só parece poder tornar-se mais ou menos manifesto à boleia de um braço de ferro à volta de um piercing na sobrancelha - parece servir de pano de fundo a todos os desencontros que tem vindo a acumular com a vida.

 Tudo parece passar-se, com o João e os pais (e com tantos e tantos adolescentes, adultos e crianças) como se, de repente, estivessem sentados no mesmo banco de jardim, de costas uns para os outros, numa qualquer tarde solarenga de Outono. O que mais queriam era aproximarem-se, sentarem-se lado a lado, frente a frente, entenderem-se de uma vez. Mas chegada a hora da verdade, de tão destreinados que estão em falar claro (numa espécie de ligação direta entre o que sentem e o que põem em palavras), os apelos (toldados pelo medo e pela mágoa) teimassem em sair, invariavelmente, em forma de chega para lá… como que à espera de um descodificador que lhes devolva a simplicidade do falar claro. 


Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

(Não) quero tantas coisas que já (não) sei o que quero!

   O João está a conseguir, no 11º ano, manter a média bem acima dos 18. É barra a biologia, mas é a física e a matemática que mais o encantam. É neto de um médico diferenciado. Desde que começou a brincar com o estetoscópio do avô que todos lhe vaticinaram, mais ou menos em surdina, o futuro: seria nada mais nada menos que um médico brilhante. Essa sempre foi uma meta assumida por si. Sempre até há um par de meses, quando começaram a surgir as dúvidas. A paixão por aviões (não há modelo da Boeing ou da Airbus que não descreva com uma enorme naturalidade) e por máquinas em geral têm-no feito vacilar: a Engenharia Aeroespacial ou a Engenharia Mecânica têm, timidamente, vindo a surgir como hipóteses. Para além disso, diz o João: “eu até me via a investigar Biologia Molecular, por exemplo, mas ser médico mesmo, aquela vertente mais clínica de estar o dia todo a ouvir pessoas, levar com histórias desgraçadas, não sei se é para mim”.
  
  A Joana, da mesma turma, sente-se perdida. Foi, vagamente, alimentando a ideia de enveredar por Enfermagem ou, talvez, tentar Medicina em Espanha. Mas, tem vindo a descobrir que o estudo da biologia humana (que implicaria a Enfermagem ou a Medicina) não a encanta por aí além. Talvez o que mais a seduza num percurso muito ligado à saúde seja a dimensão de relação humana, a ideia de poder ajudar o outro, olhos nos olhos. Mas não morre de amores pelo frenesim de um Hospital ou de um Centro de Saúde. A psicóloga da Escola falou-lhe da área social (com Educação Social ou Serviço Social, por exemplo), como uma possibilidade para concretizar esta sua apetência para funções que possam implicar a relação como instrumento de trabalho.
            
  O percurso profissional é, ainda, fonte de sustento, como sempre foi. Mas é, cada vez mais, fonte de (in)satisfação e (não)realização pessoal. Tenho para mim, por isso, que quando se escolhe uma área profissional que compatibilize paixão e apetência, se estará mais próximo do trilho do sucesso e, mais importante, do caminho da realização e da satisfação profissional.
 Tenho, por isso, a ideia de que, em muitas circunstâncias, uma orientação vocacional cuidadosa e aprofundada é muito mais do que um capricho. Será, tenho para mim, uma ajuda valiosa para sustentar uma opção demasiado relevante para ser deixada ao acaso ou ao sabor de um impulso de momento. Sê-lo-á especialmente para todos aqueles para quem, no meio de tantas escolhas possíveis, não parece emergir, de dentro, uma convicção segura acerca do caminho a seguir. Será, tenho para mim, uma ajuda tão mais valiosa quanto mais puder cruzar interesses e apetências vocacionais com características de personalidade e variáveis cognitivas. Afinal de contas, é fácil imaginar que um arquiteto que case rigor com abstração espacial e criatividade estará mais perto de ser um bom arquiteto. Ou que um engenheiro que compatibilize raciocínio lógico, abstração espacial e raciocínio mecânico estará mais próximo de se poder destacar. Ou que um professor será muito mais facilmente um bom professor se, para além do domínio científico das matérias, tiver interesse e apetência para gerir relações interpessoais. Ou que um enfermeiro ou um médico, para além do domínio científico e de todo o raciocínio analítico complexo (que permite, por exemplo, chegar a um diagnóstico certeiro) tenderá a ser tão melhor médico ou enfermeiro quanto mais apetência tiver para gerir relações interpessoais e estabelecer relações de ajuda. 


Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal. 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

“Mas como é que se pode ajudar as pessoas só com conversa?”

"Mas como é que se pode ajudar as pessoas só com conversa?" perguntava a Joana, num tom mais curioso do que desconfiado.

 O modelo positivista de ciência foi, durante muito tempo, tempo demais, alimentando a ideia de que corpo e mente seriam duas entidades rigorosamente separadas ou, quando muito, com uma ligação de sentido único (em que o biológico determinava a experiência psicológica). A ser assim, claro que sintomas de ansiedade ou agitação psicomotora, sintomas obsessivos ou de impulsividade, depressivos ou de tonalidade mais narcísica, etc. etc. só poderiam decorrer de desequilíbrios biológicos (as mais das vezes contidos no código genético) que, por conseguinte, poderiam ser corrigidos, única e exclusivamente, com medicação. Chegou, mesmo, entre alguns setores da ciência, a ter-se a esperança de que os avanços notáveis no conhecimento do sistema nervoso seriam capazes de traduzir milimetricamente a subjetividade humana em circuitos neuronais e fórmulas bioquímicas. A ser assim, o anúncio do fim da Psicologia e das psicoterapias estaria, portanto, por poucos anos.
  Mas foram, curiosamente, os avanços notáveis nas neurociências que, ao mapearem muitos dos caminhos neuronais e bioquímicos da subjetividade humana, contribuíram decisivamente para a clarificação (que vem sendo reclamada pela Psicologia há muitas décadas) de que as relações humanas, especialmente as mais próximas e significativas, são fundamentais no desenvolvimento humano e na estruturação daquilo que são os aspetos mais saudáveis e mais doentes das pessoas. Foram, também, os avanços admiráveis nas neurociências que permitiram clarificar que mente e corpo são duas faces da mesma moeda, que comunicam e se constroem mútua e permanentemente. Não que o substrato biológico ou o código genético não sejam fundamentais. São, com toda a certeza. Mas, ao contrário da visão que parecia decorrer de um modelo positivista de ciência (radical em muitos aspetos), se excetuarmos os casos de doença genética (como a trissomia XXI, por exemplo), avolumam-se as evidências de que, em matéria de saúde mental, a sustentação biológica e o código genético estão longe de ser uma espécie de fatalidade: interagem e modificam-se com a experiência e com a relação.
  Nestas circunstâncias, a angustia, a ansiedade, a insegurança, o medo ou os sintomas depressivos, por exemplo, decorrerão, muitas das vezes, mais de equívocos e desencontros continuados na relação com os outros significativos e com a verdade do que se sente, ou de experiências mais ou menos traumáticas do que propriamente de desequilíbrios bioquímicos (que mais do que causa, serão, nesta aceção, o correlato biológico do sofrimento). É aqui que, a meu ver, entra a utilidade de diversos modelos e técnicas de acompanhamento psicológico. Não apenas como um espaço em que as pessoas são genuinamente ouvidas e escutadas, como porventura poderia pensar a Joana. Isso, diria ela (talvez com razão), não sendo pouco e muito menos fácil, poderá, com alguma sorte, ser encontrado, também, no seio de algumas relações amorosas ou junto de um ou outro grande amigo. Mas também (talvez o aspeto mais diferenciador), enquanto espaço criativo em que a pessoa vive “na pele” a experiência de haver alguém ao pé de quem é possível sentir, sem claudicar, as angústias de que vai procurando fugir, ao mesmo tempo que se compreendem, legendam e ligam com os aspetos essenciais da sua vida. Esta nova relação, ao desconstruir alguns aspetos dos padrões velhos (que, em grande medida, trouxeram a pessoa até ao ponto onde se encontra), funcionará, assim, como uma espécie de tubo de ensaio para uma relação mais clara e genuína com tudo aquilo que sente (pensando as emoções em vez de, continuadamente, as procurar silenciar). E, deste modo, como um treino protegido primeiro, e como uma prática generalizada às relações da “vida real” depois, tornando-as mais criativas, harmoniosas, assertivas e próximas.

domingo, 13 de setembro de 2015

E quando o regresso às aulas dá um nó na barriga?

   O João anda elétrico. Tudo o entusiasma no corredor que o hipermercado preparou milimetricamente para o regresso às aulas. Os cadernos, as canetas de feltro, os lápis de minas. O cheiro novo dos manuais. É assim com o João, a Francisca e o Tomás. Mas não com a Filipa, que se arrasta pelo corredor do material escolar, entre as chamadas de atenção irritadas da mãe. A iminência do início das aulas faz soar, dentro de si, todas as campainhas de alarme. Estão a voltar as dores de barriga e as dores de cabeça. As mesmas em que, no final do ano passado, tentava apanhar boleia para não ir à escola pela manhã. As mesmas que valeram uma série de chamadas da Professora a sugerir à mãe que fosse buscar a Filipa porque não se estava a sentir bem. Chegava a ficar pálida e ensopada em suores frios. O veredito médico, suportado em análises detalhadas, não deixa margem para dúvidas: a Maria é, felizmente, uma menina saudável! Saudável, mas completamente dominada por um medo sem fim...
   Sempre muito metida consigo, não tem muitos amigos na Escola. Nem fora dela, na verdade. Tem as competências cognitivas mais do que suficientes para ter sucesso escolar mas, de cada vez que é a sua vez de ler alto fica gelada. Não que não seja capaz de ler. É! Mas a voz fica trémula e a leitura cada vez mais entrecortada, à medida que a sua expressão se fecha cada vez mais e o rubor parece poder rebentar a qualquer momento numa cascata de choro de medo e raiva. Nas fichas de avaliação não é muito diferente: os exercícios são do mesmo tipo dos que fez com a explicadora, sem dificuldades de maior. Mas chegada a hora da verdade, a mão treme e o raciocínio bloqueia.
   A avaliação da Professora, a convicção da explicadora e os resultados dos testes cognitivos a que foi sujeita na escola apontam (todos) no mesmo sentido: não é por falta de competências cognitivas que a Filipa não tem boas performances. Os pais querem muito acreditar nisso, mas parecem ficar presos a uma discrepância por demais evidente entre os 90% do irmão mais velho e as baixas performances da Filipa. Como se nunca, dentro deles, deixasse de remoer, baixinho, a dúvida: “e se a nossa Filipa é mesmo incapaz?”. 
   Mas não é só na matemática e no português que a Filipa parece perder por falta de comparência. Também foi assim no basket: nem a vantagem competitiva de ter uma altura bem acima da média a impediu de desistir (e de jogar de forma desistente desde o primeiro momento). É assim na relação com as crianças da idade dela ou com o irmão, ao pé de quem se coloca, invariavelmente, numa postura de patinho feio.

  Foi-se olhando, vezes de mais, para o sucesso escolar como uma variável diretamente proporcional às competências cognitivas. E, mesmo depois de tantas evidências (teóricas, clínicas e empíricas), para as competências cognitivas como se fossem asseticamente independentes do desenvolvimento afetivo. Como se a crença que os adultos significativos têm nas capacidades da criança fosse um pormenor de somenos importância. Como se fosse compreensível um craque da bola falhar um penalti na final das Champions porque lhe tremem as pernas, mas já não fosse equacionável que uma criança completamente dominada pelo medo (de falhar, de desiludir os pais e os professores, de ser um zero à esquerda ou a “burra oficial” da escola, da família, do bairro, etc.) trave a fundo a expressão de qualquer potencial cognitivo, por mais sofisticado que possa ser. Como se não fosse expectável que uma criança que vai acumulando, dentro de si, equívocos atrás de equívocos - por, invariavelmente, não conseguir entender, desenriçar e traduzir em palavras e em histórias a complexidade do que vai sentindo – possa começar a manifestar, progressivamente, dificuldades nos mais diversos domínios. Como se não fosse natural que a confusão e o medo que poderão daí decorrer se façam sentir de forma cada vez mais vincada e generalizada a várias áreas. Como se sentir-se lida por dentro, investida de expectativas, valorizada nas suas competências e parada com firmeza nos seus exageros, não fizesse a curiosidade e o entusiasmo ganharem terreno ao medo. Como se, quando assim é, não estivéssemos todos (crianças e adultos) muito mais aptos a arriscar para lá do perímetro de segurança. Como se, quando assim é, não estivéssemos todos (crianças e adultos) muito mais próximos do sucesso e da destreza cognitiva. 


Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.