domingo, 11 de setembro de 2016

E foram felizes para (nem) sempre…

   Talvez nunca, como hoje, tivéssemos podido sonhar com um grande amor (ou não fossem os casamentos por amor uma feliz “invenção” recente), uma família feliz (ou não fosse a generalização das manifestações abertas de afeto uma feliz “invenção” recente), uma rede próxima de amigos e um projeto profissional que permita casar realização com autonomia financeira. Apesar de todos os imensos males do mundo (da gravíssima crise humanitária dos refugiados, ao terrorismo, passando pelas crises económicas e pelo desemprego, pela xenofobia, violência e maus-tratos infantis, por exemplo), talvez nunca como hoje, na história da Humanidade, tivéssemos podido sonhar e reclamar para nós, de forma tão alargada e democrática, a Felicidade. E isso parece-me - apesar de todos os males do mundo – uma extraordinária conquista!
   Mas talvez às vezes, vezes de mais, a reclamemos com tanta ânsia e sofreguidão aqui, agora e já, arrebatadora e eterna, de preferência, que a procuremos enclausurar numa qualquer fórmula do tipo: “os 10 passos para a felicidade”. Sendo a vida um milagre (!), as fórmulas mágicas, mais ou menos instantâneas, não me parecem, de todo, a forma mais efetiva de a agarrar pelos colarinhos!
   Mas o que nos torna mais felizes, então? Um estudo de larga escala, dirigido por Robert Waldinger, um psiquiatra e psicanalista de Harvard, diz-nos que são as pessoas, a qualidade das relações com as pessoas da nossa vida! De forma não tão diferente assim – parece-me – do que os psicanalistas das relações de objeto vêm, há décadas, chamando a atenção: as vidas têm pessoas dentro! Umas atrapalham, assustam, assombram, tolhem, muito mais do que guiam. Incitam-nos a afastarmo-nos de nós próprios, da sabedoria do que sentimos. Outras, não deixando de ser importantes, não passarão de figurantes com mais ou menos pinta. As mais preciosas de todas, parece-me, serão aquelas que, com o seu amor e admiração, nos fazem sentir o special one, ao mesmo tempo que, de cada vez que abusamos na vaidade, nos põem no lugar e nos lembram que somos só um em milhões com o coração no sítio e os neurónios a funcionar. Serão, creio, autênticas estrelas guia a alumiar o caminho para o mais fundo de nós, para o mais fundo do outro. Quanto mais esta complexa rede de pessoas (tão diferentes) que moram dentro de nós nos permitirem, sem soçobrar, chorar as perdas ou zangarmo-nos abertamente com o que nos magoa, mais perto estaremos – creio – de confiar na vida. Quanto mais nos convidar a pormo-nos em causa e a aprender com os erros, mais próximos estaremos – creio – de sermos mais humildes, mais lutadores e mais afoitos. Quanto mais esta comunidade do nosso mundo interior (e exterior) confiar e exigir o melhor de nós, mais prontos estaremos – creio – para nos despojarmos para a relação. Talvez seja a forma como permitimos que este diálogo de Babel se torne cada vez mais fluído, inclusivo e transparente dentro de nós - pondo todas as personagens (tão diferentes entre si) da nossa vida à discussão – que faz realmente a diferença nas nossas vidas. Talvez isso seja determinante para termos fé nos vínculos (como lhe chamava Bion), na vida e no futuro. Talvez isso seja determinante para, à boa maneira do 2º Exótico Marigold Hotel, nunca deixarmos de confiar que no final tudo bate certo.
   Mas como é que se faz? Ou, como pergunta o Bob Dylan na sua Blowin´in the wind: How many roads must a man walk down before you can call him a man? 
 Ao aprendermos com os erros e a experiência, iluminados por quem, dentro de nós, não desiste de fazer de estrela guia, talvez tornemos o mapa para o mais fundo de nós, para o mais fundo do outro, um bocadinho mais claro de cada vez que somos capazes de parar para nos escutar… no outro.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Entre o desejo e o medo!

  Diz – num tom muito mais irritado do que displicente ou sobranceiro – que não consegue estudar. Foi por isso e pela “estúpida mania de bloquear nos exames” que teve um rotundo chumbo na prova que lhe permitiria terminar o Secundário e entrar no Curso que, de forma muito envergonhada, ambiciona. De forma tão envergonhada que se apressa a dizer: “nunca na vida vou conseguir entrar”, irritando-se de forma veemente se alguém lhe chama a atenção para as possibilidades reais que tem.
 Acabadinha de fazer 18 anos, a Maria é uma miúda afetuosa e toda despachada, com ar de quem não leva desaforos para casa. Tem um olhar vivo e inteligente. Move-se com mestria por entre vários grupos de amigos e tem, quase sempre, de forma muito natural, uma posição de liderança nas várias atividades extracurriculares em que está inserida. Apesar de todas as suas qualidades tem vindo a poupar nos desejos muito para lá do razoável. Até para si parece ter medo de os sussurrar. Como se, à cautela, preferisse poupar nos sonhos para poupar nas desilusões. Parece, apesar de todo o seu potencial, verdadeiramente bloqueada de medo. Talvez seja isso que a impede de desejar a plenos pulmões, em vez de ficar sempre a meio caminho entre o desejo e o medo. Diz que não se consegue concentrar para estudar. Senta-se com o livro à frente, e logo se levanta para ir afiar o lápis. Depois envia uma qualquer sms absolutamente inadiável. Faz uma passagem rápida pelo facebook (que acaba, claro, por durar mais de uma hora). Levanta-se, novamente, agora para arrumar a prateleira dos CDs. E agora? Agora já é hora de jantar! Como somos todos tão bons a inventar prioridades de última hora quando queremos “fugir” do que nos mete medo! Numa das suas deambulações pelo facebook encontrou um daqueles textos bem ao género de: “como deixar de procrastinar em 10 passos”. Apressa-se a dizer: “mas comigo não resulta! Eu devo ter défice de atenção. E dos graves!”. E bem, bem seletivo acrescentaria eu, ou não fosse a Maria uma miúda atenta a todos os pormenores na hora de ler os pais, os professores ou os amigos. Ou não fosse a Maria capaz de se concentrar em todas as tarefas intelectualmente exigentes com que tem que lidar em algumas das suas atividades extracurriculares. Talvez o que atormente a Maria não seja uma incapacidade mais ou menos estrutural de se concentrar. Talvez essa seja só a estratégia que vem construindo há muito para não ir a jogo, evitando, assim, confrontar-se com os medos mais ou menos irrealistas (quais moinhos de vento do D. Quixote) que, involuntariamente, foi alimentando. Se, por um lado, se sente uma rapariga cheia de capacidades, por outro parece sentir-se permanentemente assombrada por um medo difuso, mas omnipresente: o medo de falhar, de ser realmente incapaz, de ser uma desilusão para os pais, de ser o patinho feio lá de casa (não é fácil ouvir os professores dia sim dia não a evocarem o rol de 19 e 20 que o seu irmão mais velho foi colecionando antes de ir para a Faculdade), etc. etc.                       

 Mas não é só na Escola que tem perdido por falta de comparência! A sintonia com o Bernardo é indisfarçável e a troca de olhares verdadeiramente enternecedora. Embora resista em admiti-lo até para si, há muito que a Maria suspira pelo seu abraço. Mas qual livro de matemática, acaba sempre por boicotar qualquer hipótese de ficarem a sós. Acaba sempre por “chutar para canto” qualquer sms mais insinuante.    ´
                                                  
Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez fiquemos todos (!) um bocadinho menos aptos para pensar, para nos concentrarmos, para estudar, para trabalhar, para criar, para namorar, para nos divertirmos, para nos fazermos à vida… sempre que poupamos nos desejos (e nos meios para os configurar em projetos viáveis) para poupar nas desilusões.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Arrogantes (também) somos nós!

  Já nos conhecemos bem. Afinal, temos passado horas e horas a escutarmo-nos. O João é um tipo inteligente e com o coração no sítio. Veio para “desatar alguns nós que me atormentam”, disse-me, a primeira vez que se sentou comigo.
  Diz-me, com a voz trémula: sabe, acho que há um lado meu arrogante, que me tem tramado a vida. Acho que sempre o tive. Lembra-se daquela história do grupo de jovens? Eu era muito novo. Era o mais novo do grupo. Era para aí a 2ª reunião que ia. Estava inseguro. E sabe como é que é quando se está inseguro: metemo-nos em bicos de pés. Uma das raparigas, mais velha do que eu, não sabia quem era o Guterres. Ele era primeiro-ministro na altura. Bem, eu do alto do meu ar mais pedante disse-lhe qualquer coisa como: “Não sabes quem é o Guterres? Que falta de cultura política!” Fez-se um silêncio na sala. A rapariga riu-se e encaixou com uma categoria de fazer inveja. O meu irmão olhou-me com uns olhos de: foge-me da frente que nunca mais vou esquecer. No final, sozinhos, deu-me uma descasca, que ainda hoje lhe agradeço. E sabe, a rapariga, depois daquele meu laivo de arrogância sem fim, teve a bondade de ser minha amiga. Ainda hoje somos amigos. Ela até podia não saber quem era o Guterres, mas de pessoas, meu Deus, de pessoas, dava-me 5 a zero! Depois foi o que você sabe: no Liceu, entre as borbulhas e as Doc biqueira de aço, estava longe de me sentir um ás de trunfo. Eu acho que as pessoas até gostavam de mim, mas faltava-me a confiança para ir a jogo, à homem. Lá saber quem era o Guterres e o Clinton, lá isso eu sabia, mas já como ser acutilante com as miúdas… ainda tinha muito que aprender! A Faculdade foi um upgrade extraordinário na minha vida. Perceber que me conseguia sintonizar com pessoas com histórias tão diferentes da minha, acho que me ajudou a tornar um bocadinho mais seguro, um bocadinho mais humilde. Travou este meu lado mais arrogante, mas não o matou de vez. Que o diga a minha primeira namorada da Faculdade, a quem fiquei a dever alguns pedidos de desculpas, dívida que entretanto saldei. A insegurança dos primeiros anos de trabalho, acho que o reacendeu um bocadinho. Que o digam alguns operadores de call center, com quem tive verdadeiro vómitos violentos e arrogantes. Sabe, eu acho que tenho um lado verdadeiramente humilde. Sou amável com as pessoas e adoro misturar-me com elas, reconhecer-lhes o mérito e encantar-me com as suas qualidades. Mas, às vezes, meu Deus, às vezes, pareço um touro enraivecido, a espumar arrogância por todos os poros, como se o mundo se tivesse realmente unido para me tramar. Tenho pensado muito nisso, desde que, há umas semanas, acordei um dia tão azedo, mas tão azedo, que me zanguei com Deus (como poderia ele existir se a minha vida estava tão longe de ser a que sonhei?!), com os meus pais, com a minha namorada, consigo, com o céu estrelado e com tudo o que mexesse ou estivesse parado, acho eu! Sabe, entretanto, acho que houve duas coisas que me fizeram parar para pensar. O Bernardo [um grande amigo, de há muitos anos] disse-me, a propósito das lutas da vida, uma coisa que me ficou a martelar na cabeça: “A verdade é que, chegada a hora, não somos melhores do que ninguém”. A outra, tal como naquela vez, no grupo de jovens, foi o meu irmão que ma disse. Não foi muito mais do que um: “às vezes também tens de ter calma”. A princípio senti aquilo como castrador. Só aumentou o meu sentimento de cruzado contra o mundo. Mas a verdade é que, pouco depois, me fez cair em mim. Fez-me pensar em como, tantas e tantas vezes, me ponho numa posição sobranceira perante a vida, como se fosse a última bolacha do pacote. E a verdade é que não sou! Fiquei ali uns dias derreado, tristonho, metido comigo, envergonhado, muito envergonhado acho eu. Mas, a verdade é que foi libertador! Por mais paradoxal que possa parecer, perceber que não sou a última bolacha do pacote serenou-me! Por mais estranho que possa parecer, perceber que tenho de ser mais humilde deu-me esperança no futuro e força para o fazer acontecer! Engraçado como sermos mais humildes nos torna mais seguros. Lembrei-me do Bob Dylan quando, na sua Blowin´in the Wind, se pergunta: How many roads must a man walk down before we can call him a man?, percebi que ainda ando a aprender como é que se pode ser assertivo e humilde ao mesmo tempo, e acho que fiquei um bocadinho mais amigo da vida, de Deus, dos meus pais, da minha namorada, dos meus amigos, do céu estrelado, de tudo o que mexe e que está parado!

  Se, como nos ensina Bion, a arrogância (como a inveja destrutiva, a violência ou a indiferença) vem direitinha da parte psicótica da personalidade, esta capacidade extraordinária de nos escutarmos, de nos pormos em causa, de discorrermos sobre as nossas histórias, ligando-as, de repararmos erros, de nos perdoarmos e de aprendermos com a experiência, será – creio – a forma mais efetiva de, humildemente, nos encantarmos pela vida, agarrando-a pelos colarinhos!


Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 26 de junho de 2016

Um admirável mundo novo*!

   Depois de um ano de ansiedade miudinha, exames e estudo empenhado, o João entrou, finalmente, no curso que sonhara. Desde que, há uns anos, foi ver o cortejo académico do primo que sonhava com a vida de universitário, com as festas e as noitadas, com a autonomia e o mar de pessoas e oportunidades que a Faculdade lhe ia trazer. Nos últimos dias antes da partida para a cidade que escolhera, sentia-se mais apreensivo. Comoviam-no os conselhos e gestos protetores dos pais, mas não lhe saía muito mais do que um: “que melgas, eu já sou crescido!”, como que não querendo dar parte de fraco. O mesmo aconteceu (com uma intensidade ampliada pela proximidade do futuro) no dia em que, finalmente, os pais o levaram ao quarto que tinha alugado a dois passos da Universidade e do centro da cidade. Ao almoço, manteve, por fora, a postura de “homem crescido sem medos”. Com mais custo, mas aguentou-se, depois, enquanto a mãe lhe fazia 1001 recomendações acerca da roupa, da comida e das saídas à noite, e o pai lhe falava, entre o entusiasmado e o assustado, da necessidade de conciliar responsabilidade com boémia. Talvez o João quisesse dizer: “eu sei, eu sei que há muito que sonhava com isto. Eu sei, eu sei, que isto vai ser bom para mim, mas estou com tanto medo! Tenho tanto medo das praxes, de me acharem ridículo na Faculdade, de não estar à altura das matérias, de não ser tão fácil fazer amigos como sempre imaginei que era, etc, etc”. Talvez o João quisesse sossegar-se com um: “Vai correr bem, não vai?”, ao mesmo tempo que corria para os braços dos pais e lhes perguntava: “vão cá estar sempre para me segurar quando não correr bem, não vão? Mesmo quando eu, inflamado e um bocadinho arrogante, disser que sou um homem crescido, e que não tenho medo de nada?”… Mas só lhe saiu um: “Mãe!!! Eu já tenho 18 anos! Dah, isto foi o que eu sempre quis!”. Depois de uma despedida tão calorosa quanto esta postura sobranceiro-assustada permitiu, assim que os pais fecharam a porta da sua nova casa, o João deitou-se sobre a sua nova cama (como lhe pareciam estranhos a almofada, o cheiro e as esquinas da nova casa) e chorou. Chorou desalmadamente. De medo (do que aí vinha). De raiva (por não ter conseguido ser claro na hora de procurar, no colo dos pais,  a segurança que o poderia sossegar). Até que o telefone tocou. Enxugou as lágrimas, mas não conseguiu disfarçar a voz triste e arrastada. Eram os pais, em uníssono, a dizer: “Hei, João, a primeira noite é um bocadinho difícil. A 2ª e a 3ª talvez também ainda possam ser um bocadinho. Mas vai, evidentemente, correr bem!”. Desta vez o João não se conteve... e chorou. Nem a distância que o telefone impõe o impediu de sentir o colo dos pais, bem ali, para si, forte e seguro, para o que desse e viesse. E o medo avassalador transformou-se numa espécie de nervoso miudinho que, pouco a pouco, começou a abrir brechas para o encantamento de quem está prestes a agarrar um admirável mundo novo.

 Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez os medos se tornem bem menos assustadores sempre que somos capazes de os confiar a quem os acolhe e nos ajuda a transformá-los, abrindo espaço para o entusiasmo de quem quer agarrar o futuro com as duas mãos!

*Título de um romance de Auldous Huxley

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 12 de junho de 2016

Pode alguém ser quem não é*?!

  A Maria é Professora vai para mais de 10 anos. Foi por gosto que escolheu ensinar Português. Mas isso era dantes. Há muito que a paixão pela literatura (em que se foi “refugiando” desde muito nova) perdeu terreno para a angústia miudinha que toma conta de si a cada viagem para a Escola. Sente-se desrespeitada, atacada, desvalorizada pelos alunos. Está tão inflamada que sente a mínima interpelação provocatória como mais um atestado de incompetência. Sente-se incapaz de dar um murro na mesa e de mostrar quem é o Professor, quanto mais de pôr no bolso os 2 ou 3 alunos que parecem ter um gostinho especial em “picar” a Professora. Sente-se incapaz de se encantar com as obras que outrora a faziam sonhar, quanto mais de entusiasmar os alunos, ajudando-os a mergulhar nas histórias. Tentar falar com os colegas, pedir a sua ajuda, abrir aí um espaço de reflexão, está completamente fora de questão. Ou não entrasse em cada reunião dominada pela ideia aterrorizadora: “é desta que vão descobrir que sou uma absoluta incompetente e me vão encostar à parede”! Apesar de estar deslocada de casa, raramente entra nos jantares e noites de esplanada dos colegas. Fica tensa ao pé deles, sempre a medir as palavras. A Maria é uma mulher inteligente. Mas, ao pé dos colegas, de voz trémula, vai alternando as opiniões à medida do que imagina serem as suas expectativas. Se o Tomás - o Professor de Educação Física com quem fantasia noite após noite – está por perto, fica ainda mais calada do que o costume. Ao contrário do que muitas vezes imagina, a maioria dos colegas gostam dela (tanto que, apesar das suas desculpas recorrentes, não desistem de a convidar para os seus programas sociais). As opiniões camaleónicas (ao sabor do que imagina serem as expectativas dos outros) não deixam de ser irritantes, mas o olhar assustado e com um je ne sais quoi de bondoso e abandonado aproximam. Num desses jantares, depois de ter bebido 2 cervejas por pressão do grupo, não se aguentou e acabou a chorar com a Filipa, uma colega afetuosa que lhe elogiou as qualidades e lhe disse, de forma convicta, que uma mulher com as suas competências tinha que ser mais assertiva: com os alunos, a Direção da Escola, os colegas e o Amor. No dia seguinte, a Maria sentia-se dividida entre a vergonha de ter partilhado alguns dos seus “medos tontos” (como lhes chama), o medo de que a Filipa não os soubesse guardar, espalhando-os por toda a sala de Professores, e a esperança que brotou de se ter confiado um bocadinho a um “colo” afetuoso. Talvez tenha sido este o mote para pedir ajuda “para deixar de tentar ser quem não sou; para deixar de ter tanto medo de ser eu, como me dizia a Filipa”.
           
  Mas porque é que algumas pessoas parecem gastar tanta energia a tentar ser quem não são? Pode alguém ser quem não é?
Fomos aprendendo (com Winnicott e Sami-Ali, passando por Bion e tantos, tantos outros) que sermos mais iguais a nós próprios nos dá um sentido de coerência ao caminho, nos aproxima de quem puxa pelo melhor de nós e nos faz, mais vezes, felizes! Mas fomos aprendendo, também, que a assertividade, a autodeterminação e a autonomia se alimentam, desde muito cedo nas nossas vidas, de relações verdadeiras que, nunca deixando de nos mostrar os limites e de nos pôr no lugar, abrem espaço para o que somos, respeitando-nos os ritmos, validando-nos e ajudando-nos a legendar a intensidade do que sentimos, e nunca, nunca desistindo de puxar pelo melhor de nós. Em certo sentido, acho que nunca deve este deixar de ser, também, um dos pilares de uma relação terapêutica.


*Título de uma música do Sérgio Godinho

Nota: Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 22 de maio de 2016

Porque eu só estou bem aonde eu não estou!*

  Sempre foi bom a Física e a Matemática (ainda que a História nunca tivesse deixado de ser uma espécie de paixão platónica). Nos anos do Curso, numa área de interseção entre a Engenharia e as Novas Tecnologias (o sonho de qualquer mãe, portanto), foi conseguindo conciliar algoritmos com noitadas a saltitar entre o Bairro Alto e o Cais do Sodré. “Bebia-se muito. E estava-se bem. Quer dizer…”. O Pedro sentia, na altura como hoje, uma ansiedade de fundo, ora mais miudinha ora mais ruidosa, mas sempre à espreita. À boa maneira da canção do António Variações, só parecia estar bem onde não estava, saltitando de bar em bar, à procura sabe-se lá do quê. Acabava por não se divertir tanto assim. Estava sempre em grupo, como se precisasse disso para se perder nos seus pensamentos e inseguranças. Bebia. Bebia muito. Não tanto por prazer. Menos ainda para celebrar a alegria de estarem juntos. Na verdade, tanta vodka, parecia não ser muito mais do que uma forma de calar uma ansiedade difusa, mas omnipresente, ao mesmo tempo que lhe dava a desinibição que precisava para se aproximar das turistas nórdicas. Turistas, sempre turistas. Ou, quando muito, estudantes Erasmus. Desde que a Maria, no 3º ano de Faculdade, o deixou de coração partido, não mais se permitiu aproximar de ninguém que pudesse percorrer as ruas da mesma cidade no mês seguinte.
  Com o fim do curso, uma oportunidade de emprego trouxe-o de volta à cidade que o viu crescer. Deixou para trás as noitadas de estudo no Técnico e as deambulações desenfreadas no Bairro Alto. O trabalho intenso fazia, agora, as vezes da Faculdade. Os bares novos as vezes dos velhos. Mas faltava dimensão (e disponibilidade) ao grupo, que isto de se terem reuniões importantes logo pela manhã tem que se lhe diga. A ansiedade, essa parecia ser cada vez menos miudinha. Teimava, agora, em impor-se de rompante nas situações mais inconvenientes, acelerando a respiração e fazendo o coração querer saltar pela boca.

  Talvez, às vezes, façamos todos um bocadinho de Pedro. Talvez, às vezes, as pessoas sejam todas um bocadinho especialistas em (de fuga para a frente em fuga para a frente) tentar camuflar a angústia. Mas se isso até pode, numa ou noutra circunstância muito particular, ser útil num primeiro momento, tenho para mim que, quando cristaliza em movimentos mais enquistados, deixa as pessoas mais distantes dos seus recursos saudáveis e, por isso, mais sozinhas e com menos armas para fazerem face a uma angústia crescente. Talvez seja só quando as pessoas se começam a reencontrar com as histórias e as pessoas que moram bem dentro da sua história, ao mesmo tempo que puxam para si quem lhes faz bem, que a esperança e a vitalidade ganham (verdadeira e decisivamente) o protagonismo à angústia e ao desamparo.

*Título inspirado na música do António Variações

 Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 8 de maio de 2016

Agora não que me dói a cabeça!*

  Começou por não querer ir às visitas de estudo. Porque os meninos cantam canções foleiras no autocarro, explica. Deixou, depois, de querer ir ao intervalo. Porque os meninos são muito brutos a jogar à bola e podem magoá-lo, justifica. Depressa deixou de querer ir à Escola. Mas, como seria de esperar, o argumento básico do “não gosto” não colheu junto dos pais. Tentou, por isso, aprimorá-lo com um sedutor: “podia ir contigo para o escritório, mamã”. Por mais que a mãe se tivesse, secretamente, sentido um bocadinho vaidosa, o argumento continuou, naturalmente, a não colher. Só havia uma solução: endurecer a luta! Vieram as dores de barriga e de cabeça (chegando, mesmo, a fazer febres ligeiras num ou noutro dia), os episódios de angústia e as crises de choro à saída de casa e à porta da Escola.
  Talvez o que o João estivesse a querer dizer com a sua escalada de “efeitos especiais” não fosse tanto que não gosta da Escola, mas mais que não sabe o que fazer ao medo! Talvez o que mais o assuste nas visitas de estudo não seja bem a qualidade das canções, mas mais o medo de sentir a discrepância incómoda entre a descontração divertida dos colegas e a contração tensa de quem não sabe muito bem como fazer para se chegar aos outros. Talvez o que o assuste mais no futebol não sejam bem as caneladas. Talvez seja mais o medo de não saber bem como é que se pode competir, de igual para igual (de forma leal, franca e aberta), sem se ser atropelado pela dor da derrota (potencial). Talvez o que o assuste mais na Escola não sejam tanto as idas ao quadro ou os testes, mas mais a ideia de que pode soçobrar perante o insucesso (seja ele na matemática, no futebol, nas canções ou na relação com os colegas).

 Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez alguns movimentos altivos e sobranceiros (à boa maneira da parábola da raposa e das uvas) e a cristalização de alguns evitamentos fóbicos não sejam muito mais do que uma forma que crianças e adultos utilizam para fugir (não indo, invariavelmente, a jogo) do fantasma de poderem ser engolidos pela dor da derrota. Mas se, muito circunstancialmente, movimentos desta natureza até nos podem proteger de um ou outro “perigo” potencial, quando se tornam sistemáticos, tenho para mim, que da única coisa que nos protegem é do melhor de nós próprios! 

* título inspirado no Movimento Perpétuo Associativo dos Deolinada

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.