domingo, 12 de fevereiro de 2017

(Felizmente) o Amor não é um conto de fadas!

   Ainda andava às voltas com a ressaca do divórcio. Sem saber bem como, o mundo desabou. Assim, de uma assentada (por mais que há muito as brechas se viessem a aprofundar). A cama era, agora, grande demais para tanto vazio. Só o Bernardo, nos fins-de-semana e 4ª feiras que ficava com o pai lhe conseguia arrancar um sorriso rasgado. Muitos meses depois vieram, finalmente, as férias. E com elas uma espécie de Verão teenager (como lhe chamara). Na ressaca de uma vertigem de festas, exageros alcoólicos e relações de ocasião, o Pedro estava, agora, mais metido consigo. Depois de um Verão de mais “anestesia” do que de “reconstrução”, era tempo de ligar os pensamentos.
   A Joana, com a vivacidade, a audácia e o medo de quem trata a vida por tu, insistiu em pôr-se no seu caminho. O Pedro hesitou. E voltou a hesitar. Uma e outra e outra vez. Intuía que não poderia passar por aquele brilho nos olhos com a leviandade com que passara pelo Verão. E isso fascinava-o. Fascinava-o, mas assustava-o de morte. Ainda estavam bem vivas as feridas do divórcio. E, feitas as contas, gato escaldado até de água fria tem medo. Incrível, a Joana, cerrou fileiras e não desarmou. E isso foi serenando o Pedro. “Meu Deus, nunca tinha visto uma mulher a olhar para mim daquela maneira. Era um olhar de espanto. Um olhar de espanto perante o amor”. Com a Joana tinha, agora, uma “sintonia maior” (como lhe chamara) que, na verdade, nunca chegara a ter com a Marta em 5 anos de casamento. E tinham sonhos, feitos projetos comuns. Mas veio a crise, a troika e a deslocalização de pessoal do departamento financeiro para a sucursal de Paris. E vieram as pontes aéreas e os sonhos feitos projetos para um reencontro a curto prazo. Agora sim, a história tinha os contornos de um amor épico, à filme! Os reencontros eram apaixonados, mas a distância crescentemente insuportável para a Joana. De volta à Paris que a viu crescer, foi desistindo, aos poucos, do “espanto do amor”. Sem nunca conseguir ser clara, manteve um registo: “nem contigo, nem sem ti” muito para lá do razoável. O Pedro cerrou fileiras e não desarmou… mas o amor é sempre a dois (a multiplicar por cada uma das vidas que mora bem dentro de cada um dos amantes) e virar o mundo do avesso não foi suficiente para resgatar, na Joana, aquele olhar de espanto perante o amor. Com uma última carta de amor, o Pedro empurrou, finalmente, a porta que a Joana teimava em não abrir (nem fechar). Estava zangado com as mulheres e com o amor. Pensava, para si, que era hora de dar um tempo ao amor e de apostar as fichas todas no trabalho. Mas, fosse quando se sentava para retomar os sites que tinha em carteira ou quando, à noite, a cama lhe parecia demasiado grande para tanto vazio, batia a saudade. E uma tristeza funda. E a desconfiança no seu valor: “Se eu sou tão especial como me imagino, porque é que, chegada a hora da verdade, fico invariavelmente sozinho?”. E a culpa por um lado intempestivo, que sempre o atormentou: “a verdade é que, às vezes, consigo ser uma besta”. E o medo. O medo de nunca mais se sintonizar com ninguém da forma mágica como, em tempos, se sintonizara com a Joana. E o temor de, na improbabilidade de se voltar a sintonizar, o Amor ter, uma vez mais, prazo de validade.
  Sempre com um sentimento de perda como pano de fundo, o Bernardo e o gozo que o trabalho lhe dava iam-lhe preenchendo a vida. Até que, sem saber bem como, choca de frente com os olhos brilhantes da Maria. Radiante e apavorado ao perceber que, afinal, o coração ainda bate, lança-se numa sofreguidão urgente, própria de quem morre de medo e de esperança, tudo ao mesmo tempo. A Maria, mulher sensata, incandesce-se, num primeiro momento. Mas trava a fundo, logo de seguida. Há muito que a vida lhe ensinara que as fugas para a frente não aproximam as pessoas. E irrita-se. Irrita-se solenemente: “como é que este tipo, de olhar bonito e profundo, estraga assim tudo antes mesmo de começar?” … Mas volta a incandescer-se: afinal de contas, o sôfrego Pedro também é capaz de um acesso de sensatez quando lhe metem o dedo no nariz! E vêm os cafés, os jantares e as horas a fio ao telefone (só agora descobriram que aqueles pacotes ilimitados de telecomunicações, afinal têm um número limitado de minutos!). Tudo os parece ligar, como se se conhecessem desde sempre! Cresce o entusiasmo e o espanto. Mas com eles segue, também, o medo. Afinal de contas, lado a lado com o saber de experiência feito, moram, bem dentro de cada um deles, cicatrizes várias que a proximidade vem desnudar. À boleia duma dessas cicatrizes, quando nada o fazia prever, o Pedro tem um verdadeiro acesso de mau feitio, daqueles tão seus. A Maria, atónita, grita-lhe: “tu não me falas assim!” Nesse exato momento, o Pedro cai em si, pede desculpa e tenta, por todos os meios, reparar os estragos. Mas aquele casal, que até há poucas horas incandescia na ilusão de que se conhecia desde sempre estava, agora, a milhas de distância! A Maria estava muito assustada. O poço de charme, afeto e firmeza que via no Pedro parecia-lhe, agora, uma reedição (de muito má qualidade) de todas as pessoas por quem se foi sentindo mais ou menos amesquinhada. O Pedro, dividido entre a culpa e a ideia difusa de que também a Maria não entendia que os acessos de mau feitio mais não eram do que um mix de medo e desamparo em versão show off, não encontrava a fórmula mágica para se chegar a ela. Mas, muitas lágrimas, linhas vermelhas e inconfidências depois, lá se agarraram num abraço sem fim. Meses (e alguns encontros e desencontros) depois, numa daquelas tardes ternurentas de sofá, a Maria olha bem dentro do Pedro e diz-lhe: “tu és um falso bruto!”. Ele olha-a, desconcertado, e ela insiste: “sim, tu és um falso bruto! Berras e tal, mas se eu te meto o dedo no nariz, cais logo em ti! És um falso bruto! É só show off, para pedir mimo!” E comovem-se os dois, num abraço do tamanho do mundo! Talvez nunca o Pedro tenha ouvido (numa formulação tão simples) nada tão integrador (e poderoso a serenar cicatrizes)!

  Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez o Amor definhe um bocadinho de cada vez que nos deixamos ofuscar com a superfície plana dos show off. Mas, talvez se expanda (vários universos!), de cada vez que insistimos em olhar o outro… para lá das luzes!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Maria (já não) vai com as outras: adolescer entre o medo e o entusiasmo

   Uma infeção respiratória não tornou muito fáceis os primeiros meses da Maria. Primeira filha e primeira neta, merecia as atenções preocupadas de todos. O primo que se lhe seguiu, 9 meses mais novo, viria, anos mais tarde, a fazer furor no infantário, que isto de começar a ler aos 4 anos não é para todos. A Maria não lia, ainda. Brincava! Brincava muito! E crescia bem: com o olhar vivo e a sensibilidade apurada, o imaginário a expandir e o corpo a mexer (É para isto que deve servir o jardim de infância, não é?). Da infeção respiratória sobrava apenas, lá ao longe, uma espécie de fantasma parental de que talvez a Maria precisasse de mais “bengalas” do que os outros. Talvez um bocadinho por isso; talvez um bocadinho para “compensar” a distância nas competências académicas para o primo leitor precoce (que, com o passar dos anos, não existia de todo na realidade dos factos, mas parecia bem viva no medo dos pais), a mãe da Maria sempre fez por estudar com (por) ela.
  Aos 14 anos, a Maria é uma adolescente viva, inteligente e afetuosa. Autónoma nas opiniões e na gestão das amizades, continua, apesar das boas notas, a ter na mãe a bengala para o estudo, sem a qual se vai imaginando mais ou menos incapaz. A época de testes é vivida como uma espécie de tortura. Na semana anterior já não consegue dormir bem. Agitada, muda, constantemente, o “centro de estudos” do quarto para a sala, da sala para o escritório do pai, voltando ao quarto para recomeçar o ciclo. Nenhum lugar lhe parece aconchegar o medo. Pior do que os testes, só mesmo as apresentações de Inglês. Por mais que treine, vezes sem conta, cada vírgula da apresentação custa-lhe horrores não ter a pronúncia “british” que vai, de forma muito, muito exagerada, reconhecendo em cada um dos seus colegas. Pior do que isso, só mesmo, a sensação de quase rebentar de tão vermelha que fica, ou o quão se sente ridícula quando a voz teima em embargar. Como se tudo isto não bastasse, as dores de barriga e os nós na garganta são, também, um habitué destas andanças.

  Mas porque é que uma adolescente viva, inteligente e cheia de qualidades parece desconfiar tanto das suas competências?

  A Maria começou a estudar sozinha. Muito a medo (tal como aconteceu com os seus pais, viriam a confessar mais tarde), ou não fosse a primeira vez que enfrentavam o “fantasma” de que o seu esforço e competências talvez não fossem suficientes para garantir boas notas. 
 A Maria morria de medo de, finalmente, comprovar, por A+B, que era incapaz e de, com isso, desiludir todos aqueles de quem gostava. Os pais morriam de medo de, feitas as contas, ter gerado uma filha com bom coração, mas “sem rasgo para a aprendizagem”. 
 As notas baixaram, de facto, num primeiro momento. Mas, à medida que a Maria ia sentindo que quem mais importa começava a acreditar verdadeiramente em si, ao mesmo tempo que começou a discorrer sobre os medos, a encontrar espaço relacional para eles, a compreendê-los e pensá-los (vestindo-os de palavras, na sua história), foram-se esbatendo as insónias, a tensão e as dores de barriga, ao mesmo tempo que ganhavam espaço a confiança e a “adrenalina” das apresentações, o gozo da criatividade e do conhecimento. E, com eles, os resultados escolares começaram a aparecer, depressa superando as performances da “Maria da bengala”.  

  Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez as competências em bruto (que todos temos!) nunca sejam suficientes por si só. À semelhança daquele célebre (e muito, muito bonito) vídeo do Europeu de Futebol em que o Ronaldo “obriga” o Moutinho a marcar o penálti, enfatizando que se falhar "que se lixe" (numa linguagem um bocadinho mais carregada de “alma”), talvez precisemos – sempre (!) – de quem (na nossa vinda interior e no mundo lá fora) acredite em nós, ajudando-nos a sintonizar com as nossas qualidades e a tirar partido delas, ao mesmo tempo que nos assegura que se falharmos ... “que se lixe”!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Inveja, gratidão* e outros abraços!

  Todos esperavam que seguisse Medicina. O percurso brilhante no Secundário permitia-o. A tradição familiar deixava-o antever. O pai, homem arejado e afável, sempre lhe disse que devia seguir o que o fizesse feliz. Ainda assim, não deixava, de quando em quando, de lhe enviar para o e-mail uns artigos de Harvard, não fosse o Miguel esquecer-se que cresceu numa família com pergaminhos na Medicina. Talvez por isso o 12º ano tenha sido tão difícil para ele. Não tanto pela pressão da média, mas mais por se sentir dividido entre a paixão pela Economia e o que sentia ser uma espécie de obrigação implícita de receber do pai o estetoscópio que, por sua vez, tinha herdado do avô. Cheio de dúvidas e angústias, num sopro de vida, agarrou a Economia com unhas e dentes! Afinal de contas (como lhe dizia o avô vezes sem conta): “nunca podemos deixar fugir uma paixão!”
  Poucos meses depois de terminar o Curso, abre-se-lhe, agora, a janela de oportunidade que tanto queria agarrar: a possibilidade de um doutoramento em Inglaterra, com um economista inovador, que muito admirava. Teria, no entanto, de competir pela vaga com o seu melhor amigo da Faculdade! O amigo com quem partilhava discussões sobre macroeconomia e desigualdades sociais, mas também sonhos e inseguranças, histórias de amores e desamores. Com tanto de inteligente e arrebatado, como de medroso, continuava a ser difícil para o Miguel competir de igual para igual. Mais a mais com alguém de quem gosta com o coração cheio.
   A publicação dos resultados não enganava. O Miguel tinha conseguido a vaga. O seu grande amigo não tinha ido além de um honroso 2º lugar. Feliz com a conquista, mas receoso do impacto que poderia ter numa relação tão preciosa, apressou-se a marcar um jantar com o amigo. Diz-me, emocionado: “Sabe, acho que não foi muito diferente de quando escolhi o curso. Aí tinha medo de estar a “trair” o meu pai e o meu avô. Agora tinha medo de estar a “trair” o Bernardo. Mas sabe, quando o Bernardo chegou ao pé de mim, deu-me um grande abraço e disse-me: - meu sacana, estou com uma inveja tua! E aquilo que podia muito bem ter sido um momento fraturante na nossa amizade, aproximou-nos ainda mais. E eu ser-lhe-ei eternamente grato por isso. Por isso e por me ter mostrado, num passe de alquimia, como se pode fazer da inveja um sentimento que aproxima muito mais do que destrói! Por isso, e por me ter mostrado, de uma forma ainda mais clara que o meu pai ou o meu avô foram capazes de fazer, que eu tenho o direito (e o dever!) de lutar sempre (!) por uma paixão. De forma franca e leal, mas com unhas e dentes, à homem!”

   Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez o que afaste as pessoas não seja tanto a natureza do que possam verdadeiramente sentir, mas mais a forma como o procuram esconder (do outro e de si), branqueando-o ou expressando-o, em bruto, de forma impulsiva e retorcida. Talvez o grande desafio seja mesmo pensar as emoções, vesti-las de palavras e histórias, comunicando-as com toda a clareza e afeto que formos capazes (naquilo a que Bion chamou função α). Nesta leitura, talvez as únicas emoções “negativas” (que afastam…) sejam as que ficam por pensar e comunicar, encontrando no agir impulsivo (violento e destrutivo, no limite) a única forma de expressão.

*Título inspirado no título do artigo: “Inveja e gratidão”, de Mélanie Klein (1957)

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Ano Novo e outros desejos!

Gosto da ideia de se festejar o ano novo. Gosto de tudo o que sirva de mote para as pessoas celebrarem juntas! Mas a passagem de ano será muito mais do que uma festa qualquer. Tem uma dimensão simbólica (mais ou menos mágica) que a associa à possibilidade de recomeço. Afinal de contas: “ano novo, vida nova!”

12 badaladas, 12 passas, 12 desejos!
Pedir desejos é bom! Resgata a esperança. Ajuda a configurá-la. Mas não chega para conquistar o futuro! Os desejos precisam de ser acarinhados, polidos com paciência até, com uma pontinha de sorte, se transformarem em projetos viáveis.
Sim, desejar é bom! Na verdade, os desejos nunca são irrealizáveis! Ganhar o euromilhões ou comprar uma ilha no Pacífico não serão bem desejos, parece-me. Desejos megalómanos não serão bem desejos, parece-me. Servirão, quando muito como refúgio mágico para quem, tolhido pelo medo, se recusa a projetar o futuro. No fundo, não será tão diferente assim (ainda que por linhas travessas) de quando se poupa nos desejos (e nos rasgos de vida) para se poupar nas desilusões. 
Tenho para mim que o desejo será, assim, uma espécie de ligação, pela esperança, entre o imaginário e as possibilidades que a realidade oferece. Numa espécie de 2 em 1, será o caminho mais efetivo para agarrar o futuro, servindo, ao mesmo tempo como vacina que ajuda a metabolizar a desilusão. Uma dor condensada num falhanço (a partir do qual é possível tirar ilações e crescer com a experiência) será - tenho para mim - mais facilmente metabolizável do que a dor difusa, mas omnipresente, de quem, invariavelmente, não vai a jogo (evitando desejar ou precipitando-se numa catadupa de desejos megalómanos). 

Um Ano Novo cheio de desejos feitos projeto!

domingo, 11 de dezembro de 2016

Talvez o Natal seja só quando o Homem puder... querer!

   As luzes dão um brilho especial à Baixa da Cidade. Os mercadinhos de Natal, a pista de gelo, as ruas cheias de gente, os vendedores de castanhas e a árvore estrategicamente posicionada bem no meio da praça completam o cenário. Mas nem a vista privilegiada que a grande janela do seu escritório abre para toda esta beleza ajuda a Maria a reconciliar-se, um bocadinho que seja, com o Natal. Tudo a irrita nesta época: as filas intermináveis para o trabalho (que culpa tem ela que o escritório seja mesmo no centro da cidade?!), o entusiasmo da Marta (a sua colega da secretária em frente) com o espirito natalício, os filmes que invadem todos os canais de televisão. Chega o 1º de dezembro e já só suspira por janeiro!
    A magia do Natal parece, para ela, ter morrido com a avó paterna, quando tinha apenas 10 anos. A lareira enorme e os presentes ajudavam, mas eram as rabanadas da avó (“nunca mais comi umas rabanadas assim”! recorda com a voz embargada) e o seu colo (sobretudo o seu colo!) que faziam renascer, a cada ano, o espírito natalício. Depois disso, o Natal foi perdendo cor… muito à boleia da tristeza profunda da mãe que, ano após ano, fazia da consoada uma espécie de romagem de saudade à memória dos avós da Maria. O seu pai, talvez por ficar sempre muito atrapalhado com a tristeza do outro, parecia refugiar-se, cada vez mais, numa distância mais ou menos impenetrável. Anos mais tarde, os Natais na família do ex-marido eram bem mais parecidos com os que via nos filmes, em miúda. A casa estava sempre cheia: de gente, de comida e de presentes. Mas talvez o que mais a impressionasse fosse mesmo sentir a casa cheia da alegria de estarem juntos. Uma alegria em que todos (a começar pelo ex-marido) se esforçavam para a incluir. “Sabe, o ambiente era mesmo de alegria. Eu não tinha o direito de o estragar. Mas… o Afonso (ex-marido) parecia um miúdo com os olhos a brilhar. Pareciam todos. Eu fazia um esforço… mas irritava-me tanto não estar feliz. Eu acho que me irritava a capacidade do Afonso para se encantar. Ele era assim: encantava-se com o Natal, as viagens, as festas de família, o futebol, a música, os filmes… Até as habilidades do Madjer (o labrador que adotaram no canil municipal) o encantavam! Acho que foi por isso que o meu casamento acabou: há muito que não me conseguia encantar”!
   Este ano o Martim ia passar o Natal com o pai. Sem a única pessoa que a faz investir tempo e imaginação num presente (todos os outros são corridos a vales da Fnac e da Zara) os Natais são ainda mais dolorosos. Como se não bastasse ter o filho a 200 Km de distância, este ano teve de partilhar a mesa da consoada com a prima do Algarve com quem a mãe sempre a comparou. À boleia desta “intrusa”, pela primeira vez em anos, toda a família foi à missa do Galo e, depois, à festa comunitária que irradia alegria a partir de uma fogueira enorme, bem no centro da aldeia dos pais. O sorriso da mãe tantos Natais depois (resgatado pela prima do Algarve… e não por si ou pelo seu Martim), as correrias das crianças, as famílias a celebrar reencontros, os casais de mão dada… era tudo o que lhe faltava para desabar num desamparo sem fim. Chorou, desalmadamente, noite dentro até, por fim, sucumbir ao cansaço num sono sobressaltado.
   De regresso ao trabalho, foram o brilho e as histórias da Marta a fazer rebentar o dique uma vez mais. Caiu num choro desamparado mesmo ali, bem no meio do escritório com vista privilegiada para o cenário festivo da praça. Mas, desta vez, não chorou sozinha. “Chorei no abraço da Marta. E soube-me tão bem. Sabe, acho que foi o melhor abraço que tive em anos … Fez-me lembrar o abraço da minha avó”.

   Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez precisemos (todos) de quem nos mostre que, muito mais do que nunca ficar triste, vale a pena não desistir de encontrar o caminho para os abraços onde se pode chorar sem perder o chão. Talvez, assim, fiquemos (todos) muito mais aptos para nos reconciliarmos com o Natal... e com a vida! 

Feliz Natal!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 20 de novembro de 2016

A saúde mental faz bem ao PIB!

  A Maria faz parte dos quadros da função pública há mais de 20 anos. Não está na secretaria por estes dias. Já conta com 3 baixas psiquiátricas no currículo. Depressão diz o relatório. O Inácio, mais sonolento a cada dia que passa, não dorme 3 horas seguidas vai para um ano. À noite, apaga a luz e acende-se a angústia. As preocupações, que o cansaço e a ocupação vão adormentando durante o dia, vêm em catadupa na hora de dormir. Parte da fatura tem sido paga pelas máquinas industriais: a rapidez e eficiência com que sempre as reparou e afinou têm vindo a diminuir a olhos vistos. As linhas de produção ressentir-se-ão em breve. E, com elas, a faturação da empresa.  Vinha correndo bem a vida ao jovem Bernardo. O MBA numa Business School de renome abriu-lhe as portas de uma multinacional de sucesso. Os contratos avultados de exportação que conseguiu fechar aceleraram-lhe o futuro promissor na gestão. Mas a ascensão meteórica está agora entalada. No 1º semestre do ano, não conseguiu um único novo cliente internacional. Não, não perdeu a visão estratégica nem o tato para o negócio. Mas as horas antes das reuniões com os clientes passaram a ser ocupadas por 1001 estratégias para não ter de lhes apertar a mão. As horas depois, com 1001 estratégias para que ninguém percebesse que as ocupava, quase na totalidade, a lavar as mãos com tudo o que é desinfetante.

  A promoção da saúde mental (através da intervenção psicológica e das psicoterapias, nomeadamente) é, antes de mais, uma questão de humanidade e equidade social – justificação muito mais do que suficiente para a implementação de uma estratégia sustentada de saúde mental. Mas, na era em que tudo cabe num indicador económico, é bom lembrar o relatório da OCDE sobre esta matéria (ou, num outro plano, o estudo sobre o custo-efetividade de intervenções psicológicas em cuidados de saúde, realizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses). Dele parece decorrer que os gastos com uma estratégia sustentada de promoção da saúde mental não são bem custos. Serão antes investimento com retorno. Às poupanças com as baixas e com prestações sociais, junta-se um aumento da produtividade do trabalho. Nós não andávamos a precisar de apanhar boleia na expansão económica dos últimos trimestres, para continuar a fazer crescer o PIB?!

Nota:  Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 6 de novembro de 2016

Lados lunares e outros recursos!

Sempre foi um exemplo. Para os colegas. Os primos. Os vizinhos. Na escola, no ballet, na música ou na catequese. Foi crescendo com a ideia de que o erro era coisa de fracos e que, a repetir-se, poderia, no limite, levar à prescrição: afinal de contas, dos fracos não reza a História! Talvez por isso, se fosse sentindo sempre muito mais confortável num mundo de regras. O importante era fazer direitinho. Cumprir e cumprir... por cumprir. Sem questionar ou levantar ondas. Cada teste escolar (por mais que dominasse a matéria de trás para a frente) era uma espécie de prova dos nove do seu valor enquanto pessoa. Passava sempre com distinção: na escola, no ballet, na música ou na catequese. Mas sentia, ainda assim, que ficava sempre aquém. Como se a possibilidade de errar a perseguisse por todo o lado, sem que os sucessos fossem capazes de estancar o medo, para lá do regozijo do momento.
  Nunca se portava mal. Nem fazia birras. Talvez desconfiasse (sempre) da ideia de haver alguém capaz de acolher o seu “lado lunar”. Na dúvida, tentava esconde-lo. Como se, ao camuflá-lo, ele deixasse, magicamente, de existir. Mas, se isso lhe foi assegurando os ganhos secundários de um lado excessivamente certinho, parece ter-lhe condicionado em demasia a capacidade espontânea e descontraída de se chegar aos outros. 
  E, mais ou menos de rompante, começaram a surgir os medos: de cães, primeiro. De dormir ou de estar sozinha à luz do dia, no quarto, depois. Dos meninos do recreio, na escola nova. De ir sozinha ao quintal. Dos melros que fizeram ninho na roseira do jardim. Das motas que passavam na estrada. Dos senhores do café do fundo da rua, etc, etc. Com os medos vieram, também,  ataques de fúria (que nunca ninguém lhe tinha visto!) cada vez mais frequentes, intercalados, ainda assim, com períodos em que voltava a exibir orgulhosamente a medalha olímpica do bom comportamento.
 
  Por mais que todos gostemos de medalhas de bom desempenho e de bom comportamento, talvez nem todas mereçam festejos e regozijos!
 Talvez o grande desafio seja mesmo o de compatibilizar regras (que balizem o crescimento) com espontaneidade; exigência com oportunidades de expressão (do “lado lunar” também...). 
 Talvez a tristeza, o medo, a raiva ou a inveja nunca se possam mesmo transformar em forças criativas à margem de um olhar que as acolha e ajude a transformar. Talvez estes sentimentos que, tantas vezes, vamos interpretando como “maus” não passem, tantas e tantas vezes, de “pensamentos à procura de um pensador” (recordando Bion) que vão corroendo, por dentro, sempre que não encontram acolhimento e transformação na relação.
 Afinal de contas, ninguém cresce saudável a tentar amordaçar o que sente, em favor do que acha que devia sentir! Ou não fosse o coração feito para sentir por inteiro… em relações que balizam os exageros, ao mesmo tempo que acolhem e transformam (também o "lado lunar"...)!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.