segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Os movimentos independentistas fazem bem à saúde das relações?

  A Maria foi crescendo com a ideia, mais ou menos difusa, de que gostar muito de alguém – e pior, poder dizê-lo olhos nos olhos – é expor-se a uma vulnerabilidade a que uma mulher (ou um homem) do séc. XXI não se pode dar ao luxo. Foi sendo assim com os amigos, com os pais e com os amores. Não se lembra de, alguma vez, na adolescência, ter sido muito expressiva com a melhor amiga na hora de lhe dizer que aquela amizade era importante para ela ou de, numa formulação simples e clara, ter manifestado gratidão pelos inúmeros movimentos bondosos da amiga… como se os implícitos não precisassem da palavra e do ato para verem a luz do dia.
  Nas poucas vezes em que terá sido capaz de, numa formulação clara, dizer aos pais ou aos irmãos o quão fundamentais são na sua vida, sentiu-se tão exposta, tão ridícula, tão frágil que, nos meses seguintes, (quase) nada a fazia largar a máscara de durona.  
   Nos amores, habituou-se a fazer-se de difícil (quantas vezes… para lá do razoável!). Quantas vezes foi dizendo que não, na esperança secreta de que aquele homem tivesse superpoderes na arte de interpretar mensagens encriptadas ao ponto de perceber que aquele não queria afinal dizer: sim, a todo o vapor!
   Muito dona de si (no ar, pelo menos), morria de medo de ser dependente. Talvez por isso tivesse adotado o extraordinário verso do Jorge Palma: "a dependência é uma besta que dá cabo do desejo/a liberdade é uma maluca que sabe quanto vale um beijo”. Não tanto para pensar aquilo que ia sentindo (afirmando a sua autonomia), mas mais para racionalizar, não pensando (!), o seu medo da dependência. Como se a liberdade não emanasse da relação com o outro. Como se o medo paralisante de nos confiarmos na relação (a que a Psicanálise, em algumas circunstâncias, foi chamando angústia de separação)… não nos deixasse, a todos (!), mais dependentes… do medo de nos diluirmos ou, por outra, de nos partirmos em mil pedaços se a relação soçobrar. Como se o mundo só pudesse ser visto a preto e branco: ou não se confia (para se proteger) ou perde-se o sentido de si na relação, diluindo-se a identidade numa relação dependente, que adoece muito mais do que dá vida. Como se não nos tornássemos mais livres à medida que podemos confiar… apesar de todos os riscos! Como se a relação (que dá vida!), ao assumir a interdependência, não fosse, antes de mais, um exercício de autonomia e liberdade que nos ajuda a crescer com a diferença do outro significativo.
 
   A ser assim, talvez só a relação (seja ela amorosa, familiar, de amizade ou psicoterapêutica) próxima, transparente e autónoma (com espaço para o conflito e a diferença) possa reparar, devolvendo à vida, as dores (profundas, tantas vezes) abertas pelos desencontros e equívocos relacionais. Afinal de contas, muito mais do que um extra que podemos desligar com a facilidade com que se coloca no off uma app do smartphone… a relação não andará longe de ser uma feliz inevitabilidade humana! Talvez por isso, tal como a Maria, ainda que por razões diferentes, acho extraordinário o verso do Jorge Palma: a dependência é uma besta que dá cabo do desejo/a liberdade é uma maluca que sabe quanto vale um beijo”.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal

domingo, 28 de janeiro de 2018

Insónias e canções de embalar!

   Às 7h da manhã já se sentou em frente da máquina, que manobra com mestria. Será assim até às 16h, numa azáfama que o conforta. Ao toque de saída do turno, esperam-no os biscates com que, há muito, compõe as poupanças para acautelar o futuro. Termina o dia quase sempre depois das 21h00, numa correria para chegar a casa a tempo de ainda aconchegar o cobertor aos filhos. A mulher queria-o em casa mais cedo. As contas são apertadas, e sem os biscates talvez não houvesse lugar para poupanças, mas não há dinheiro que pague poder-se jantar em família, argumenta. O Luís sabe disso, mas acaba sempre por adiar o descanso, como se a ele não tivesse direito. Quando finalmente cai na cama, exausto, não consegue descansar. Tudo parece passar-se como se as angústias que, à custa de uma hiperatividade funcional (como lhe chamou Sami Ali), vai varrendo para debaixo do tapete, durante o dia, surgissem em catadupa quando apaga a luz. Quanto mais faz por dormir, mais o pensamento vai saltando de inquietação em inquietação. Tudo lhe parece vir à cabeça: do planeamento meticuloso do dia de trabalho ou da gestão financeira das suas poupanças, ao toque de culpa por, quase nunca, estar em casa a horas de brincar com os miúdos ou de lhes supervisionar os TPC. Quanto mais faz por dormir, mais se sente dominado pela angústia, dando por si a tomar como certo que, tarde ou cedo, os filhos o culparão pelas ausências; que, tarde ou cedo, a mulher se fartará de si e da sua dificuldade em parar… para desfrutar da vida. Quando já não aguenta mais o galopar da espiral ansiosa, levanta-se, vai direito à caixa dos medicamentos e, sucumbe ao comprimido que, contra a recomendação da sua médica assistente, acaba por tomar noite após noite.

   À semelhança do que parece acontecer em tantos outros contextos, também à boleia dos distúrbios de sono parece haver um consumo excessivo de medicação psicotrópica. Não que, evidentemente, a terapêutica medicamentosa não possa, mediante avaliação médica, ser útil em muitos casos. Mas talvez seja importante assumirmos que, em tantas e tantas circunstâncias, os Luíses e as Luísas precisam de espaços relacionais (psicoterapêuticos, porventura) que lhes permitam pensar e metabolizar a angústia que, dia após dia, lhes vai sugando o prazer e o descanso. Afinal de contas, talvez não deixemos nunca (!!!) de precisar de quem (ao nosso lado e dentro de nós) nos acolha a angústia sem soçobrar, nos ajude a configurá-la em palavras, a integrá-la em histórias que lhe deem um sentido na nossa história. A ser assim, talvez só nos vamos reconciliando verdadeiramente com o sono, à medida que formos sendo capazes de puxar para nós quem (ao nosso lado e dentro de nós!) nos aconchegue o sono e nos acarinhe o sonho… com histórias e cantigas de embalar!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 21 de janeiro de 2018

E as birras 4.0?

   Fecha a porta do escritório com a sensação de quem fechou um dia intenso de trabalho, para abrir umas quantas mais correrias. É preciso apanhar o Martim no ATL, ir comprar tecido para o vestido que a Madalena usará na peça da escola, deixar o Martim no treino, atravessar a cidade para ir buscar a Madalena ao ballet e, na volta, passar no supermercado. A Maria, quase sempre, se vai organizando, com eficácia e prazer, nas correrias familiares do dia-a-dia. Mas o internamento de urgência da sogra e a indisponibilidade do Pedro para a rotina familiar que isso desencadeou, para além, claro, da preocupação de todos, está a tornar a semana particularmente difícil.
 Aquilo que a Maria imaginou que seria uma visita supersónica ao supermercado para comprar leite e fruta para os miúdos, rapidamente se transformou no palco do melhor que o Martim sabe fazer em matéria de birras! Bem em frente ao videojogo (que, um par de dias antes, tinha concordado preterir em favor da bicicleta nova), começou por puxar do seu melhor olhar sedutor para tentar convencer a mãe a levar o jogo. Gorada a primeira ronda negocial foi endurecendo a luta: choramingando primeiro e, rebolando-se no chão, ao mesmo tempo que esperneava e gritava a plenos pulmões, depois.  

  As crianças saudáveis também fazem birras! Especialmente quando, por um ou outro motivo, estão mais inseguras ou, circunstancialmente, sentem os pais mais fragilizados ou indisponíveis. E – tenho para mim – não há mal nenhum nisso…desde que, naturalmente, os pais não deixem de exercer a autoridade que a educação também implica. De cada vez que os Martins ou as Franciscas conseguem, invariavelmente, fazer das birras uma estratégia negocial de sucesso garantido, até podem, num primeiro momento, sentir-se vaidosos – por conseguirem o chocolate ou o videojogo pelo qual lutaram – mas, tenho para mim, não deixarão de se sentir um bocadinho inseguros e inquietos. Afinal de contas, não é difícil imaginar que poderão, porventura, sentir, também o lado B da birra, numa lógica de: “se os meus pais, que são os meus pais, não têm a firmeza e a segurança necessária para me pararem nos meus caprichos e exageros, quem é que vai ter a força necessária para me segurar quando me sentir a cair?” Tudo parece passar-se como se, ao apelo ruidoso pelo brinquedo, pelo chocolate ou pelo videojogo, correspondesse um outro, mais profundo, por constância, firmeza, afeto e segurança. A ser assim, o sentimento de que os pais (independentemente da exuberância das birras) farão cumprir um conjunto de regras base, claras e coerentes, não deixará de contribuir, de forma muito significativa, para que se cresça melhor.
   A ser assim, talvez cresçamos melhor sempre que temos quem nos ajude a construir a tolerância à frustração. A ser assim, talvez cresçamos melhor sempre que temos quem nos assegure – muito mais por atos do que por palavras – ter a segurança necessária para, com afeto e firmeza, nos pôr no sítio sempre que exageramos nos caprichos.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Adolescência, conflito e outros abraços!

 A D. Isaura sempre se virou entre dois trabalhos e muita fibra. Nunca suportou a ideia de que pudessem faltar oportunidades ao filho que, desde sempre, criara sozinha. E, valha a verdade, para além de uma certa comodidade material (mesmo que à custa de uma ginástica financeira de que só D. Isaura parecia ser capaz), o João foi crescendo com o conforto de sentir que havia na mãe qualquer coisa de muito parecido com a capa do super-homem. Talvez por isso tenha sido tão difícil para si escolher a área das Ciências, no Secundário. A mãe, muito influenciada pela vida abastada do advogado para quem trabalha desde os 16 anos, sempre o “empurrou” para o Direito. Mas, no 9º ano, teve um Professor admirável que lhe mostrou como a Física o ajudava a entender melhor os motores e as motas de que tanto gostava. E isso terá sido determinante para subir exponencialmente a nota de Físico-Química, e fazer da área Científica uma escolha mais ou menos natural.
  A D. Isaura até já se tinha conformado com a ideia de que o seu João iria trocar o Direito pela Engenharia Mecânica, mas estava-lhe a custar muito vê-lo crescer. Não gostava da sua barba à hipster, e menos ainda do discurso inflamado com que o João punha em causa alguns dos referenciais religiosos e sociopolíticos com que o educara. Habituada que estava a que, em quase tudo, o João fizesse da sua palavra lei, sentia-se afrontada a cada opinião marcada do filho… que destoasse da sua. Como se sentisse que, com a adolescência, o João tivesse despromovido a mãe de mulher admirável com toques de super-herói a antiquada, desinformada e dispensável! Como se, de repente, ao pé da namorada e dos amigos do João, tivesse medo de não passar agora de uma 3ª ou 4ª figura. Ela, que sempre se virara entre dois trabalhos, para que nunca lhe faltasse nada…
  Na ânsia de procurar o seu lugar no mundo, o João exagerava (especialmente com a mãe) no tom com que vestia algumas das suas opiniões (exageramos mais quando estamos inseguros, não é?). Mas mais do que ter razão, talvez o que procurasse mesmo fosse a aprovação (e o orgulho!) da mãe por estar, de forma viva e afoita, a procurar o seu caminho (profissional, ideológico, amoroso, etc.). Mas mais do que ter razão, talvez o que procurasse mesmo fosse a sabedoria (e o colo!) da mãe para o amparar nesta conquista (encantadora e assustadora ao mesmo tempo) da autonomia. Mas mais do que ter razão, talvez o que precisasse mesmo fosse de perceber que sejam quais forem as suas escolhas (amorosas, ideológicas, profissionais, etc.), o colo da D. Isaura continuará sempre (!) a ter um lugar só seu!

  Talvez seja sempre um bocadinho assim. Se é desejável que os pais sonhem os filhos (investindo-os das expectativas que não deixarão de alimentar as suas competências), não é menos importante que abram espaços de autonomia para, no lugar de potenciais conflitos de lealdades (e culpas mais ou menos difusas por não assumirem como seus sonhos que outros sonharam por si), surgirem escolhas e projetos autónomos.
  Talvez precisemos todos (adolescentes e adultos) de perceber que nunca(!) os pais deixam de ser fundamentais, mas que crescer nunca(!) é decalcar o que esperam de nós!
 Talvez precisemos todos (adolescentes e adultos) de perceber que não há autonomia sem vinculação (segura), nem vinculação (segura) sem autonomia! Afinal de contas, nunca(!) se cresce à margem da diferença, da individualidade e da relação!


Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O melhor de nós não chega?

 O Marco é um tipo de coração grande e abraço sentido. Para lá de muitas outras qualidades, talvez essas tenham sido determinantes para construir um amor vivo (mas excessivamente medroso, a espaços) com a Maria. Inteligente e sensato é um profissional muito diferenciado. Apesar do gosto pelo trabalho e das competências que indubitavelmente tem, está muito longe de gerir a vida profissional com o prazer e a serenidade que gostaria (e que, de resto, as suas qualidades justificariam). Tudo se passa como se se sentisse, permanentemente, num conflito entre o desejo de arriscar, intervir, inovar… e o medo de que tudo possa falhar rotundamente.
 De cada vez que ousa sobrepor o desejo ao medo, as suas competências acabam por sobressair, valendo-lhe ganhos profissionais muitos significativos. Mas não, sem antes, sentir o coração apertado, muito para lá do razoável. Não, sem antes, dar mil voltas à cabeça, para se certificar que cumpriu escrupulosamente tudo o que são normas, diretrizes e regulamentos. Não, sem primeiro, antever os 1001 cenários (que nunca se confirmam!) em que as chefias lhe darão, abertamente, na cabeça ou, de forma disfarçada, o colocarão no lugar, lembrando-lhe que ainda tem que comer muitas rasas de sal, antes de poder ousar. Como lhe lembra a Maria, entre a firmeza e a ternura, tudo se parece passar como se sentisse na obrigação de estar, permanentemente, ora a pedir licença, ora a pedir desculpa… por ser bom!
    À boleia deste seu lado medroso, lembra vários episódios, mais ou menos longínquos, em que foi sentindo este seu lado criativo, audaz, consequente e corajoso… desvalorizado, apoucado, ridicularizado até. Recua ao campo pelado da sua infância, para falar da sua estreia em jogos oficiais. Não cabia em si de tão vaidoso que estava com as chuteiras que comprara de propósito para aquele dia, à custa das poupanças que conseguira com uma gestão muito apertada da semanada. Ao intervalo ainda estava 0-0 e o Marco, entre as parcas oportunidades e a pressão de fazer tudo bem e depressa, não tinha, ainda, conseguido destacar-se. O treinador tinha acabado de lhe aconselhar mais serenidade na hora de ter a bola no pé, mas tinha-lhe elogiado o espírito de luta. Nada de grave, portanto… até que o pai entra pelo balneário adentro e, sem mais, se abeira dele e o aconselha a dar o lugar a um colega, “que seja menos trapalhão. Já estás muito cansado. É melhor saíres”. Como se isso não bastasse para, num ápice, transformar o seu brilho nos olhos num olhar cabisbaixo e embaciado (de vergonha, desilusão e raiva contida), o pai continuou num tom jocoso: “ai achavas que eram as chuteiras que fazem os jogadores”? Escusado será dizer que, na 2ª parte, as inseguranças do Marco acerca das suas capacidades futebolísticas se multiplicaram por mil!
   Nada que o tenha feito sentir de modo tão diferente assim quando, uns bons anos mais tarde, tentava intervir - com a sua visão, porventura exagerada, mas atenta e interessada - nas tertúlias de política nacional em que algumas vezes se transformavam os jantares de família. Diz-me, comovido: “parece que ainda consigo ver o ar de desdém do meu pai, secundado pelo meu avô ou pela minha mãe. E aquele pfu, enquanto revirava os olhos, que antecedia o: tens muito que aprender. Cresce e aparece que me deixava furioso! Sabe, eu acho que não queria ter razão. No fundo, acho que só queria mostrar que já era crescido, que me interessava pelos mesmos assuntos que eles, que pensava e tinha opinião sobre as coisas! No fundo, no fundo… acho que só queria que eles se orgulhassem de mim!”

     Talvez seja sempre um bocadinho assim. Quanto mais o caldo afetivo e as oportunidades educativas o potenciam, mais os recursos se vão tornando robustos com o crescimento. Mas quando, ao mesmo tempo, se vai crescendo com a ideia de que o desejo de ousar (mesmo que se tenha de falhar muitas vezes, para fazer cada vez melhor!), está mais próximo de valer reprovação (mais ou menos aberta) do que encorajamento, talvez as pessoas se tornem mais inseguras em relação às suas qualidades! Quando o melhor das suas competências, dos seus sonhos e do seu desejo de crescer parecem valer mais crítica e apoucamento do que manifestações claras de orgulho, talvez as pessoas se tornem (todas!) um bocadinho menos afoitas, um bocadinho mais medrosas… na hora de fazer pela vida!
   Talvez por isso seja tão importante quem possa de fazer de Maria nas nossas vidas para, de uma assentada, se orgulhar de nós e nos ajudar a elaborar esta espécie de angústia de castração (como lhe foi chamando a Psicanálise) que, tantas vezes, vezes de mais, teima em inibir o melhor das nossas competências… e do nosso entusiasmo!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 5 de novembro de 2017

Para onde vai a tristeza?

   "Vinha estrada fora, a chorar desalmadamente. Não havia trânsito e conduzia em piloto automático. Liguei à Carla, a contar-lhe que 20 minutos antes o Pedro tinha acabado com o nosso casamento, com uma frieza no olhar que nunca lhe vira! Sim, o Pedro que ainda no fim de semana tinha estado comigo a jantar na casa dela, como se nada se passasse! Precisava de falar com alguém! A Carla gosta muito de mim. Muito mesmo. Mas ficou muito atrapalhada por me sentir assim. Fica sempre, nestas coisas. Disse-me para ter calma. Não falámos mais de cinco minutos. A seguir liguei à Francisca. Ouviu-me. Ouviu-me em silêncio. E chorou comigo. Sentia-a a chorar do outro lado, sabe? Parecia que a conseguia ver chorar. E ainda hoje lhe agradeço! Desapareceu-me a tristeza, e a raiva, e o desespero, e todo aquele sufoco de quem tinha acabado de perder o chão e já mal sabia o caminho para casa, quanto mais o que fazer à vida? Não, não desapareceu. Mas a Francisca aguentou a minha dor. Não se atrapalhou. Não me disse para ser forte nem para ter calma. Ficou ali, a ouvir-me e a chorar comigo! Sentiu comigo! Acho que lhe vou ser grata por isso, para sempre!"
  
   Mas porque é que damos tão pouco espaço à tristeza? Porque é que, perante a dor do outro, tantas e tantas vezes não nos sai mais do que um não penses mais nisso ou um tens de pensar positivo? Como se o otimismo florescesse por decreto; ou o que pensamos e sentimos pudesse, num passe de mágica, ser controlado por um qualquer botão on/off!
   Porque é que, perante a dor do outro, tantas e tantas vezes não nos sai mais do que um tens de ser forte, tens de reagir? Como se reagir não fosse, antes de mais, olhar o sofrimento nos olhos, equacionar a perda, senti-la, chorá-la, enraivecermo-nos com ela… para a podermos pensar. Como se este trabalho de luto não fosse crucial para alavancar os movimentos proactivos que permitam ir transformando o sofrimento em desejo e esperança, primeiro, e em projeto e ação intencional, depois.
   A ser assim, a tristeza (como a revolta) será uma reação natural (e saudável!) à dor que, inevitavelmente, algumas circunstâncias de vida acabam por despertar. Já a falta de um espaço relacional contentor (ao pé de quem é que podemos ficar abertamente tristes? A quem é que posso confiar a minha dor?) que a permita acolher, sentir e pensar será o terreno fértil para a inibição das suas manifestações abertas. Nestas circunstâncias, sempre que, reiterada e repetidamente, bloqueamos a expressividade do que sentimos, podemos estar a acumular, dentro de nós, uma espécie de “resíduo tóxico” (em que se vão transformando as emoções que fazemos por não pensar) que, à falta de espaços relacionais que o possam revitalizar, tenderá a colonizar mais e mais recursos saudáveis, deixando-nos, por isso, mais expostos à (psico)patologia.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 29 de outubro de 2017

Isso é tudo muito bonito, mas como é que a psicoterapia pode ajudar?

  Talvez o imaginário colectivo esteja, ainda, muito dominado por uma ideia positivista de ciência, e a ideia de saúde ainda muito acoplada a um modelo biomédico, de causalidade linear. A ser assim, o sofrimento mental só poderia resultar, de forma unívoca, de umas quantas reacções bioquímicas disfuncionais, afigurando-se a medicação psicotrópica como a única forma de corrigir estes desequilíbrios.
  Mas somos, felizmente, um bocadinho mais complexos do que isso! A actividade cerebral determina, em larguíssima medida, a nossa experiência, mas parece cada vez mais claro que a experiência e as relações humanas influenciam, elas próprias, aspectos muito importantes do funcionamento cerebral! É o que parece, por exemplo, decorrer de um estudo dirigido por Daniel Wiswesde, em que pacientes deprimidos melhoram significativamente os sintomas depressivos, normalizando, ao mesmo tempo, o funcionamento do sistema límbico (área cerebral muito associada ao processamento das emoções), depois de um punhado de meses de psicoterapia dinâmica.
  Quer isto dizer que a biologia cerebral não é fundamental no desenrolar da vida mental, ou que a medicação não pode ser muito útil para suster o sofrimento mental? De modo nenhum! Significará antes que a lógica da causalidade linear é curta na aproximação à complexidade humana.
  Há mais de 100 anos aprendíamos com Freud que a nossa vida é muito condicionada por emoções que fazemos por não pensar. Aprendíamos com o pai da Psicanálise que o normal e o patológico são, no essencial, quantidades diferentes das mesmas qualidades humanas. Os cognitivistas mostraram-nos como as experiências de vida podem moldar o modo como aprendemos a pensar nas mais diversas situações. Os modelos sistémicos aclararam a importância da comunicação, da complexidade e da causalidade circular. A Psicanálise contemporânea mostra-nos o lugar central da relação (desde a vida intrauterina, sabemo-lo hoje) na construção do funcionamento mental (em todos os seus aspetos mais e menos saudáveis).
  Se tentarmos intersectar todas estas portas de entrada, talvez possamos dizer que, em muitas circunstâncias, a ansiedade ou os sintomas depressivos, por exemplo, decorrerão tanto de equívocos e desencontros continuados na relação com o outro e com a verdade do que se sente (ou de experiências mais ou menos traumáticas) como de desequilíbrios bioquímicos (que, muitas das vezes, mais do que causa, serão, porventura, o correlato biológico do sofrimento).
  Será aqui que, a meu ver, entrará a utilidade da psicoterapia. Não apenas como uma oportunidade para as pessoas se sentirem genuinamente escutadas. Mas como um espaço relacional que acolhe as angústias de que vão procurando fugir (por as sentirem insuportáveis ou demasiado dolorosas, por exemplo), ao mesmo tempo que as legenda e liga com os aspectos essenciais das suas vidas. Esta nova relação, ao desconstruir alguns aspectos dos padrões relacionais (que, em boa medida, para o bem e para o mal, as trouxeram até ao ponto onde se encontram), funcionará, assim, como uma espécie de tubo de ensaio para uma relação mais clara e genuína com aquilo que sente (procurando pensar e gerir as emoções em vez de, continuadamente, as tentar silenciar), o que não deixará de se traduzir nas relações da “vida real” (tornando-as mais confiantes e confiáveis, mais criativas, assertivas e próximas) com as pessoas, o trabalho, as desilusões, a esperança ou o desejo.

(Texto originalmente publicado no P3)