segunda-feira, 15 de março de 2021

Um toca e foge à espera de quem o segure!

   A inteligência, o jeito despachado e a competência têm-lhe vindo a garantir a progressão profissional que ambiciona. Mas, na vida pessoal, tudo lhe parece emperrar muito mais do que a conta. Passou meses a suspirar, em surdina, pelo Francisco, o colega da secretária do lado, de quem se foi aproximando. Os fins de dia passava-os a espreitar o telemóvel a cada cinco minutos, como se olhando mais vezes, aumentasse a probabilidade de cair uma mensagem do Francisco. As noites, essas, passava-as enroladinha em posição fetal, a fantasiar com ele, até adormecer. Até ao dia em que o Francisco, num sopro de arrojo, se chegou à frente! Mas, perante o momento que tantas vezes fantasiara, a Maria não foi capaz de mais do que um chega para lá assustado, numa espécie de repetição (de formatos vários) do toca e foge com que, vezes de mais, foi entorpecendo a sua vida amorosa. 
    Com os amigos e com a família não parece ser tão diferente assim. Gosta genuinamente deles. É muito sociável, cria bom ambiente, mas quando dá por si a deixar-se levar (pelo que sente), e a confiar a alguém dos mais próximos, um ou outro aspeto da sua intimidade fica, invariavelmente, muito assustada, acabando, logo de seguida, por se distanciar, por uns tempos. 

   Precisamos, como de pão para a boca, de relações sólidas e profundas (aprendemo-lo com a psicanálise das relações de objeto ou com os teóricos da vinculação, por exemplo). É na relação com o Outro significativo (na vida lá fora, e no nosso mundo interno) que damos significado à intensidade do que vamos sentindo, que aplacamos (e transformamos!) angústias. É na relação com o Outro significativo (na vida lá fora, e no nosso mundo interno) que verdadeiramente construímos humanidade. 
   A proximidade consistente com o Outro significativo é tudo o que nos pode aproximar do melhor de nós. Mas é, também, em muitas circunstâncias, tudo o que nos coloca perante o risco de nos confiarmos a um colo ou a um abraço que, muito mais do que segurar, desampara! Talvez seja quando (à boleia da história relacional) ganha espaço este medo de se ser engolido pela proximidade, ou de não se aguentar a dor e o desamparo de uma proximidade falhada, que se estará mais perto de um impasse nem contigo, nem sem ti. Não se pode estar sem o Outro, nem com ele verdadeiramente!  A distância (e a separação) é insuportável...  mas a proximidade (e a presença) queima! 
   Quando vão repetindo (com roupagens várias) - com os amores, a família ou os amigos - o registo toca e foge a que se foram habituando, talvez não haja muito como as pessoas não se sentirem a desvitalizar aos bocadinhos. Talvez não haja muito como não se sentirem crescentemente dominadas pela angústia e pela solidão (mesmo quando mascaradas por uma intensa vida social e/ou profissional).  E, assim, se vai delapidando a esperança, mais ou menos secreta, de que alguém possa olhá-las suficientemente dentro (por mais que desviem o olhar!), e segurá-las, com firmeza e afeto (por mais que usem e abusem do chega para lá, em resposta à proximidade) ... “exigindo-lhes” que façam diferente, com a diferença que introduzem. Até que (na psicoterapia, ou na vida lá fora), alguém insista em olhar por si adentro de forma segura, consistente, firme e afetuosa. Até que (na psicoterapia, ou na vida lá fora), alguém insista em ajudar a descodificar, a legendar e a transformar estes movimentos... Afinal de contas, o toca e foge será assim uma espécie de fantasma à espera de quem o segure, pense e transforme! 

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 7 de março de 2021

Quem disse que não existem (caça) fantasmas?

 Há muito que não ia a um Festival de Verão. Não que tivesse deixado de gostar de música. Mas o último tinha sido tão dolorosamente inesquecível que, nos anos seguintes, só os outdoors a anunciar as bandas a deixavam de cabelos em pé. Passaram cincos anos desde que se desunhou para surpreender o João com dois bilhetes para o esgotadíssimo concerto da banda que tinham adotado como a “oficial” do seu amor. Se a reação frouxa do João não deixou de intensificar umas quantas luzes de alerta que, há muito, vinham crescendo dentro da Maria, o pior estava para vir. Toda a gente parecia envolvida pela atmosfera intensa do concerto. Toda a gente menos a Maria e o João. Ele já não disfarçava o enfado. Mas a Maria não desarmava. Abraçou-o. Deu-lhe a mão. Mas nada encaixava. Há muito que pareciam dois corpos estranhos. Nessa mesma noite, o João já não dormira em casa.
   Já a viver um amor terno e intenso com o Carlos, a Maria estava prestes a voltar ao festival que selara o fim da sua relação com o João. O Carlos tinha movido montanhas para conseguir dois bilhetes para o esgotadíssimo concerto da banda que tinham adotado como a “oficial” do seu amor. De gesto em gesto, o Carlos arrebatava a Maria como o João nunca fora capaz de fazer. E ela andava tão de bem com a vida que não mais se lembrara do João. Não até ao dia do concerto, em que, sem saber bem porquê, acordou a pensar nele. A leveza tinha dado lugar a uma angústia difusa, que não mais a largou nesse dia. Estava implicativa com o Carlos: em casa, no caminho para o festival, no concerto. Mas ele não desarmou. Puxou-a para si, abraçou-a e perguntou-lhe o que é que se passava. Mas a Maria, que costumava sentir o abraço do Carlos como o melhor lugar do mundo, estava assustadiça. E esquivou-se com um seco: não se passa nada. O que é que se havia de passar, refugiando-se, de novo, na implicância. 
   Tudo parecia passar-se como se, de repente, aos olhos da Maria, o Carlos tivesse, por momentos, deixado de ser o poço de charme por quem se mantém profundamente apaixonada, para se transformar numa espécie de fiel depositário de algumas das suas dores e medos mais recônditos. Tudo parecia passar-se como se, por momentos, aos olhos da Maria, o Carlos tivesse deixado de ser o homem profundamente apaixonado e apaixonante, para se tornar abandonante... como os "Joões" desta vida. 

  Talvez não haja muito como (para o bem e para o mal) não projetarmos no outro significativo os aspetos essenciais da nossa história relacional. Esta aparente inevitabilidade (a que, há mais de 100 anos, Freud chamou de transferência), quando massiva, pode aproximar-nos do risco de reduzir o outro a uma espécie de prolongamento do nosso mundo interno. Mas é também ela, ao atualizar feridas antigas em novas (e velhas) relações, que abre a porta para a reparação, para a criatividade, para o pensamento e para a vida. Não desistamos nós de encontrar quem faça diferente! Não desistamos nós de encontrar quem faça melhor! Não desistamos nós de ver o outro (na sua diferença e autonomia) para lá dos holofotes da nossa projeção. Não desista o outro de fazer diferente! Não desista o outro de fazer melhor! Por mais que, mesmo sem querer, às vezes o “empurremos” (na secreta esperança de que não o faça!) para a repetição de alguns dos aspetos mais dolorosos da nossa história!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Crescimento e performance: as notas são assim tão importantes?

   A Escola é extraordinária. Abre janelas para o conhecimento e para o mundo. E, com elas, portas para a diferença e para o pensamento. Garante muito mais igualdade de condições e oportunidades do que aquela que existe lá fora, ajudando a esbater um bocadinho o fosso das desigualdades sociais e económicas. Servirá, no essencial, para ajudar a conhecer o mundo, o outro e a si mesmo. E, por isso e muito mais é, claro, fundamental no crescimento de qualquer criança ou adolescente.

   É, neste contexto, natural que se faça das performances dos alunos um indicador importante do que corre bem e de tudo aquilo que precisa de ser repensado. As notas serão, de facto, indícios importantes de bem-estar individual e coletivo das comunidades escolares (e das famílias e comunidades em que estão inseridas). Funcionarão, também, como uma espécie de primeiro barómetro do quão a Escola (e, em última análise, a sociedade no seu todo) está a conseguir abrir janelas de crescimento às gerações mais novas. Já não fará grande sentido – parece-me - empolar a sua relevância, seja para lhes conferir o estatuto de objetivo dos objetivos de qualquer crescimento, seja para lhes dar o papel de selo dos selos de qualidade (ou de falhanço) do desenvolvimento. 
   Quer isto dizer que tirar boas notas não é importante? De modo nenhum! Significará antes que tão ou mais (!) importante do que alcançar bons resultados escolares é aprender a respeitar o Outro, e a exigir-lhe respeito. É poder amedrontar-se e, ainda assim, entusiasmar-se com o conhecimento de si, do outro e do mundo. É reconhecer que o pensamento, a inteligência e o conhecimento são muito mais processos relacionais do que bafejos de sorte, que presenteiam uma casta de privilegiados: sim, todos (!) pensamos (muito) melhor com quem nos sente, com que nos escuta, com quem pensa connosco. (E, (também) por isso, os professores são extraordinariamente importantes!) É ter a vivacidade de ir a jogo com tudo (na matemática, nos amores ou no futebol), na convicção de que a hipótese de derrota não desiludirá, de morte, quem realmente importa. É perceber que a forma como se tolera a dor da falha (da negativa ou da desilusão amorosa, por exemplo), e se reage a ela – de modo mais humilde e vigoroso, ou mais sobranceiro e desistente - nunca é independente de quem (no mundo interno, e na vida lá fora) a ajuda a metabolizar. É aprender que, para se acreditar verdadeiramente nas próprias competências, se precisa de quem, por si, acredite primeiro! É aprender a conhecer e a lidar com um corpo que, tantas vezes, se sente mais como uma construção precária do que como uma casa sólida e confortável. É ter as experiências relacionais que permitam construir a convicção de que se é “gostável” (pelos pais, no grupo de amigos, nos amores, pelos professores, etc.), muito para lá das falhas ou dos feitos. É aprender a sentir com o coração inteiro, e a expressá-lo de forma clara.
   A ser assim, fará sentido intervir no insucesso escolar? Sem dúvida! Se o tomarmos como um sinal de alarme de que aquela criança ou adolescente se está a desencontrar das suas competências cognitivo-emocionais, sem nunca perder de vista o papel extraordinariamente relevante que podem ter as condições socioeconómicas, o envolvimento e a dinâmica familiar, assim como a própria dinâmica das relações em contexto escolar. 

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Autoestima: o Outro que mora em mim!

   Sente-se profundamente culpado. Inferior. Com defeito. Por não conseguir controlar a ansiedade. Nem a raiva ou o desamparo. Por não conseguir controlar milimetricamente o que sente e o que pensa. Por se sentir inseguro ou, como costuma dizer, por ter baixa autoestima. Insiste na ideia de que: se eu não gostar de mim, quem gostará?, ao mesmo tempo que dá a entender que ninguém o pode ajudar, para além dele próprio... gostando de si. 
   O Mário é um homem inteligente, sensível e sagaz. Mas assustado, muito assustado. E dominado por um profundo e difuso sentimento de desamparo. Mais depressa se pune por tudo o que não consegue, do que se permite sentir prazer ou orgulho por tudo o que foi construindo, sem alguma vez ter estado certo de com quem podia contar para lhe embalar o medo, aplacar os fantasmas ou parar os exageros. E, não menos importante: para o olhar dentro, com aquela profundidade de amor e orgulho capaz de fazer qualquer um sentir-se nada mais nada menos que o special one ... do mundo de alguém. 

   Sem dúvida que é importante sintonizarmo-nos com as nossas qualidades! E puxarmos por elas. Mas, frases batidas como: Ama-te a ti mesmo ou se eu não gostar de mim, quem gostará?, funcionando muito bem como slogans, (ainda que bem intencionados) correm o risco de se desencontrarem anos-luz daquilo que as pessoas sentem. Porque, ao contrário do que dão a entender, a relação com o outro é fundamental na forma como nos sintonizamos com o melhor das nossas qualidades. Como aprendemos com Winnicott, o olhar do outro significativo é determinante na forma como nos olhamos e olhamos o mundo. Ser amado será, assim, condição essencial para o ser humano se sentir amável e poder amar... de coração inteiro!
   A ser assim, muito mais do que apelar a uma autossuficiência (cúmplice da solidão e do desamparo), que o ser humano (felizmente!) nunca alcançará, estaremos a promover autoestima (e humanidade!) sempre que não desistimos de insistir em puxar para nós quem nos olhe dentro! 

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 31 de janeiro de 2021

Passa ao outro e não ao mesmo: culpa e pandemia.

  Com teste positivo para a COVID-19 nos primeiros dias de Janeiro, a que se sucederam testes positivos a toda a família nuclear, depressa as fortes dores de cabeça e de corpo tomaram conta do Manuel. Mas, por mais que as dores o incomodassem muito, o que mais lhe doía era mesmo a ideia de poder ter sido ele a contaminar a família. Por mais que todos estivessem, apenas, com sintomas ligeiros, era difícil não se deixar engolir por uma angústia avassaladora que, ora em lume brando, ora a todo o vapor, o transportava para um crescendo de cenários catastróficos, que não conseguia parar: as filhas, apesar de saudáveis, poderiam, azar dos azares, acabar agarradas a um ventilador? E a mulher? O que poderia acontecer à mulher? E se as perdesse? E ele, o que aconteceria se ele fosse mais um a engrossar os números de internados? Apesar de ter sido, sempre, muito rigoroso no cumprimento das recomendações das Autoridades de Saúde, não conseguia deixar de se sentir consumido por uma culpa insuportável. E revisitava, de modo obsessivo, todas as vezes em que se poderá ter descuidado, um bocadinho que fosse. E encontrou, claro, um par de situações em que, apesar de todos os cuidados, pode ter facilitado. Mas será razoável pensar que é possível não haver um descuido em 11 meses de cuidados pandémicos? 

   A situação é, de facto, dramática. Vivemos em sobressalto, assombrados por um fantasma de morte que, a qualquer momento, nos pode tirar pessoas, empregos, rendimentos, futuro... Vivemos tristes, pelas perdas de pessoas, de abraços, de estilo de vida, de emprego, de rendimento económico, etc. E a culpa? De quem é a culpa? A culpa não pode morrer solteira! Ora é dos governos, que não tomam medidas. Ora dos incumpridores que crucificamos nas redes sociais. Passa a outro e não ao mesmo, que a dor é, muitas vezes, mais intensa do que aquilo que seria suportável. E será muito em reação a esta insuportabilidade do sofrimento que se procuram bodes expiatórios que possam abrigar a culpa. Quer isto dizer que as medidas dos governos não são criticáveis numa altura destas, ou que não existem comportamentos de tal modo irresponsáveis que mais não são do que casos de polícia? De modo nenhum! Quererá antes dizer que projetar massivamente a angústia em culpados de geometria variável (governos – por mais que, evidentemente, as suas medidas possam ser criticáveis;  incumpridores – por mais que, naturalmente, comportamentos irresponsáveis mereçam penalização adequada; negacionistas – por mais que a sua denegação massiva e perigosa diga muito mais do seu mundo interno do que da realidade) até pode, numa ou noutra circunstância, ser a única forma de aliviar, momentaneamente, uma dor insuportável mas, seguramente, não nos deixa mais perto de combater eficazmente a pandemia. 
    A ser assim, talvez seja importante, lembrarmos a todos os Manuéis, as vezes que forem precisas, que são vítimas e não culpados! Que é da responsabilidade de cada um de nós protegermo-nos o melhor que pudermos, cumprindo escrupulosamente as indicações das Autoridades de Saúde; mas que, ainda assim, podemos infetar e ser infetados. E a culpa não é nossa! É do vírus! E é à boleia da destruição que tem causado que não haverá muito como (e ainda bem!) não sentirmos medo, tristeza, culpa e raiva! Saibamos nós não desistir de aproximar quem (nas relações amorosas, familiares, comunitárias ou profissionais) nos possa ajudar a transformar a intensidade de tudo aquilo que vamos sentindo, em gestos de relação e vida na luta contra a morte. Ou não fossemos, antes de tudo o mais, seres relacionais. 

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 17 de janeiro de 2021

Sim, estamos cheios de medo (outra vez) ... e ainda bem!

 Sim, estamos cheios de medo! De adoecer, de morrer, de perder pessoas rigorosamente imprescindíveis. De, sem querer, disseminarmos o mal. Sim, estamos cheios de medo! Da possibilidade das imagens trágicas de hospitais em rutura que nos chegaram de Itália, Espanha e tantas outras geografias se repetirem connosco. Sim, estamos cheios de medo! Da avalanche económica que todos já percebemos colossal. E estamos tristes. Pela vida mais ou menos suspensa por mil e um constrangimentos; pelos longos e penosos 10 meses sem tocar, cheirar, abraçar, beijar alguns dos que mais gostamos. Pior, porque muitos de nós, dramaticamente, já perderam pessoas preciosas. E estamos zangados, muito zangados! Um vírus, vindo do nada, virou-nos a vida do avesso e deu corpo a um batalhão de fantasmas! A realidade (dramática!) dos hospitais entra-nos casa adentro, e amplia mais e mais a intensidade do que vamos sentindo. 

  Por mais que muitos de nós nunca tenham tirado os pés do chão e a cabeça da consciência do perigo, o alívio nos números do mês de Dezembro, a viragem simbólica do ano (num registo mais ou menos mágico de que a pandemia era coisa do malfadado 2020) e a esperança (real!) na vacina que nos há de ajudar a vencer a pandemia, terão, porventura, alimentado a ideia de que o pior já tinha passado. Mas, com o ano novo, qual murro impiedoso no estômago, veio uma degradação assustadora da situação. E, com ela, a intensificação do medo, da tristeza e da raiva. E ainda bem! 
  O medo é protetor perante situações ameaçadoras. Será muito à boleia do medo (e do sentido comunitário) da rutura dos hospitais, do medo de adoecer, de morrer, de perder pessoas rigorosamente imprescindíveis e de, sem querer, disseminarmos o mal, que nos motivamos para cumprir escrupulosamente as indicações das Autoridades de Saúde. Será muito à conta da raiva que toda a situação inevitavelmente desperta, que vamos fazendo das tripas coração para dar vida à luta contra uma pandemia que insiste em dar corpo ao fantasma de morte. Será com a contribuição da tristeza (naquilo a que Melanie Klein chamou de posição depressiva) que podemos olhar para dentro, elaborar as perdas para, a partir daí, dar vida à luta pela vida! 

  Mas o medo, a raiva e a tristeza não podem atrapalhar? Podem! Muito! 
Quanto mais profundas as fragilidades pessoais e menos o espaço relacional, familiar, comunitário e social, para acolher e transformar a intensidade de tudo o que vamos sentindo nestes tempos teimosamente difíceis, mais o medo dará lugar ao pânico, a raiva ao ódio e à violência, e a tristeza ao desamparo e ao desespero. E mais perto estaremos de um pânico paralisante, de uma clivagem arcaica do mundo em “nós” (bons) vs “eles” (maus), e de uma denegação maníaca do medo e da própria realidade (terreno fértil para perigosos comportamentos de risco, teorias da conspiração e discursos que mais não fazem do que projetar a angústia nos mais diversos bodes expiatórios). 
  Queiramos ou não, estamos juntos na tempestade (bem sei que em barcos de resistência e conforto muito desiguais). E não temos como escapar à interdependência (afetiva, social, económica, de saúde, etc.) da natureza humana: sim(!), na nossa autonomia dependemos todos uns dos outros! Não parece, por isso, haver reação de vida a esta emergência (sanitária, antes de tudo, mas também afetiva, social e económica) que não seja a da humanidade de não desistir de transformar a intensidade de tudo aquilo que vamos sentindo em gestos de relação e vida!

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Para que serve a inveja?

  Estava entusiasmada. Mas nervosa. Afinal ia defender, perante uma plateia que admirava muito, o trabalho em que mergulhara com alma nos últimos anos. Começou a medo, com a voz trémula e o coração acelerado. Mas, com o passar dos minutos, foi-se soltando e explanando o trabalho com consistência, entusiasmo e qualidade, muita qualidade. Correu-lhe manifestamente bem e, no final, não cabia em si de contente. Até que a colega, com quem partilhara parte do projeto, a decidiu congratular com um sorridente: disseste tantos portantos. Atordoada com o golpe num primeiro momento, depressa pensou: és tão invejosa! Se pensas que me vais roubar o momento estás muito enganada! Mas a verdade é que o comentário da colega ficou a ecoar-lhe no pensamento. O suficiente para lhe esmorecer o orgulho, nota a Maria, ao mesmo tempo que evoca as vezes em que das suas conquistas resultaram reparos e mas a mais e Parabéns! abertos e rasgados a menos. Ou, pior, todas as vezes em que silenciou os seus sucessos (e o prazer deles decorrente) por intuir que não teria quem consigo os celebrasse, de peito aberto e abraço grande. Ou, ainda, todas as vezes em que os viveu numa espécie de culpa e vergonha, como se, com eles, pudesse atropelar algumas das pessoas de quem mais gosta. Em jeito de síntese, a Maria recupera o refrão de uma canção dos Deolinda para dizer que, às vezes, uma ou outra pessoa importante para si lhe fazia sentir, de forma mais velada ou mais aberta: o teu bem faz-me tão mal! Recorda, mais tarde, uma colega com quem trabalhara há muitos anos e com quem praticamente não falava desde então. Até ao dia em que, do nada, recebeu uma mensagem sua, a dar-lhe os Parabéns pela altíssima qualidade dos seus relatórios técnicos. Pontua com um enfático: Foi de uma bondade, não lhe sei explicar! Acho que a Marta não tem a noção do quão foi importante para mim aquela manifestação espontânea e desinteressada! A Marta é, de facto, uma pessoa muito especial! No início das nossas carreiras, quando trabalhámos juntas, concorremos as duas a um prémio para jovens profissionais. Eu tive a sorte de ganhar! E ela ficou em segundo. Mal saíram os resultados ela ligou-me e disse, palavra por palavra: sacana, ganhaste tu! Ai que inveja! Parabéns! Agora, por castigo e celebração, vá tudo junto, tens de pagar o jantar! Eu ganhei-lhe e ela foi capaz de celebrar comigo! Acho que é isso que eu ando à procura: de quem celebre comigo!

   Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez o que magoe e afaste não seja bem a natureza do que se sente (quem nunca sentiu inveja que atire a primeira pedra!) , mas muito mais a forma como se procura esconder (do outro e de si!), branqueando-o ou expressando-o, em bruto, de forma retorcida e impulsiva. A ser assim, talvez as únicas emoções “negativas” (que afastam e amachucam) sejam mesmo as que ficam por pensar e comunicar e que, por isso, encontram no agir impulsivo (violento e destrutivo, muitas vezes) a única forma de expressão. A ser assim, talvez o grande desafio seja mesmo o de pensarmos as emoções, de as vestirmos de palavras, histórias e relação (naquilo a que Bion chamou função α), para as podermos comunicar com toda a clareza e afeto de que formos capazes. 

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.