domingo, 7 de maio de 2017

Anda uma mãe a criar um filho para isto!

As mães têm um dedo que adivinha e super-poderes de meter inveja a qualquer super-herói. É assim quando se é pequenino. Acho que é um bocadinho assim vida fora. Mesmo quando, com a necessidade de se marcar posição, se vocifera, entre dentes, que elas não entendem nada sobre nada.
  As mães são chatas, às vezes. É assim quando se é pequenino e obrigam a comer a sopa ou quando, na praia, fazem cumprir, até ao último segundo, as 3 longas e penosas horas de digestão. Acho que é um bocadinho assim vida fora, quando não se cansam de aconselhar mais uma camisola para o frio ou cuidado na viagem.
  As mães têm um colo do tamanho do mundo. Só delas. Versátil, ergonómico e aconchegado. É assim quando se é pequenino. Acho que é um bocadinho assim vida fora. Tanto mais quanto mais encoraja a perseguição entusiasmada de caminhos autónomos (amorosos, profissionais, etc.). Tanto mais quando nunca deixa de ser uma espécie de porto seguro, quando o mundo parece ficar de pernas para o ar.
  As mães (quase) nunca deixam de “meter o dedo no nariz” quando é preciso. É assim quando se é pequenino e se faz da birra de supermercado uma espécie de: “seguras-me mesmo quando eu faço todo este show off de meter todo o corredor dos brinquedos a olhar para nós?” em código Morse. Acho que é um bocadinho assim vida fora, se mais do que o mundo forem os filhos a insistirem em andar, mais do que a conta, de pernas para o ar. Afinal, “não anda uma mãe a criar um filho para isto”!

domingo, 23 de abril de 2017

Asas servem para voar!*

  Foi crescendo rodeada de gente. Para além dos pais e da irmã, a casa estava sempre cheia. Tios, avós, primos. Todos lhe iam gabando a beleza. Puxa à mãe, dizia a avó Amélia com orgulho, atropelada, invariavelmente, pelo pai que não se cansava de sublinhar a inteligência superior da irmã da Rita (que, evidentemente, só podia ter sido herdada de si). Talvez seja um bocadinho assim em algumas famílias. Ao mesmo tempo que dão o caldo afetivo para o crescimento, parece que precisam de acantonar as pessoas em prateleiras… como se, para a beleza, não contassem também a profundidade no olhar (de quem olha e de quem é olhado) e se, para a inteligência, não fizesse qualquer diferença para quê e, principalmente, com quem e para quem somos inteligentes!
  A Rita é efetivamente bonita. Mas é muitas outras coisas boas (inteligente e sensível, audaz e atenta ao outro) que talvez por serem tão poucas vezes olhadas por quem as poderia ajudar a florescer, foi emperrando, dentro de si. Entre o buliço das festas familiares e os grupos de amigos em que se movia, parece ter havido sempre um lado seu que nunca (!) deixou de se sentir numa espécie de solidão assistida. Especialmente depois da morte da avó Amélia, que olhava a sua beleza bem dentro dos olhos e parecia a única capaz de pôr travão aos excessos do pai. Também a mãe sempre se foi chegando à Rita (não deixando, com isso, morrer o melhor dos seus recursos). Mas foi-lhe faltando a vivacidade da avó para pôr o pai no sítio.  Claro que o pai sempre gostou da Rita! Mas raras foram as vezes em que encontrou a fórmula para a olhar dentro. Lembra, com a voz embargada, como o pai arranjava sempre forma de lhe roubar o protagonismo nos aniversários ou na festa de final de curso. Não se lembra de um único: “estou orgulhoso de ti”! E dos abraços mais apertados apenas tem memória de um, aquando da morte do seu avô paterno. Por mais que o que mais quisesse fosse puxar o pai para si, foi-se afastando ao ponto de, praticamente, não falarem se não no conforto do grupo ou por intermédio da mãe. E assim foi alimentando a ideia de que do pai podia apenas esperar dinheiro para o curso, as viagens e o carro. E o pai a ideia de que a Rita de si só queria o dinheiro para o curso, as viagens e o carro. E, de equívoco em equívoco, foi crescendo a distância entre quem suspira pela proximidade!
  Ainda assim, mais crescida agora, a Rita fez alguns movimentos de aproximação. Qual leoa, defendeu, com unhas e dentes, o pai quando o jornal local (e a destilaria de ódio pronto a cavalgar o lado negro das redes sociais) lhe caiu em cima. Entre o orgulhoso e o atrapalhado o pai, mais por falta de hábito do que por ingratidão, não foi capaz de agarrar o apelo. Como não fora meses mais tarde: a Rita rejubila com o projeto profissional que conseguira. Podia não ser, ainda, a oportunidade de realização profissional com que sonhara, mas era um passo. E era sobretudo, a oportunidade de mostrar a si própria e ao mundo (e muito em especial ao pai!)  que também sabe ser inteligente, trabalhadora e competente. Mas o orgulho que ia acumulando com os olhares orgulhosos da mãe e das tias… num ápice se transformou em sabor a vitória amarga! Os Parabéns orgulhosos que mais ansiava: os do pai, foram, afinal, dolorosamente substituídos por uma espécie de insinuação de que só conseguira o projeto… porque é bonita.

  Para primeira formulação, não está difuso de todo o seu pedido de ajuda: anda muito desistente e paralisada perante a ideia de futuro e as escolhas que teme não conseguir fazer. Anda triste. Profunda e dolorosamente triste. Apesar do grupo de amigos com quem sai à noite para os copos, sente-se sozinha. Profunda e dolorosamente sozinha.
  Com o decorrer tempo – ou, para ser mais preciso, à medida que, devagar devagarinho, nos vamos sentindo, e ligando enredos onde antes havia muito mais fuga para a frente do que pensamento – o apelo da Rita (e com ele a construção de soluções!) fica cada vez mais claro: Mas se eu tenho tantas saudades de conversas e relações profundas porque é que vou deixando morrer as amizades que me interpelam e vão ficando apenas aquelas mais feitas de memórias de infância e solidões assistidas (em noites agitadas de copos) do que de vínculos e cumplicidades? Mas se eu tenho tantas saudades de relações profundas porque é que fiz tudo para afastar os amores que me interpelaram até à medula e, agora mais do que nunca, estão bem vivos dentro de mim? Mas se eu não me quero deixar acantonar na imagem de mulher bonita, mas autocentrada e superficial (ter um closet pode ser um capricho engraçado, não é? Mas como metáfora de projeto de vida, de facto, não é lá grande coisa!) e quero, definitivamente, ser a mulher inteira, arrojada, sensível, cuidadora, competente, viva e lutadora que a minha avó Amélia via em mim, porque é que às vezes insisto nos tiques de diva e fico à espera que as amizades e os amores voltem num passe de mágica, sem reparação nem garra, como se merecesse tudo de mão beijada só por seu eu?! Ou, pior, como se não tivesse o direito a lutar pelo que realmente quero (!) e tivesse de me contentar com a memória e a saudade para preencher o closet! Sabe, acho que estou a precisar – qual Randall do This is us – de escrever num papel as 32 razões porque estou profundamente magoada com o meu pai (e, já agora as 8 ou 9 porque estou zangada com a minha mãe e as 14 ou 15 porque estou fula com a minha irmã) e de lhas dizer uma a uma, olhos nos olhos. E, a seguir, de lhe dizer que, por tudo isso, mereço muito mais pai! E que, para começar, quero, pelo menos, um abraço apertado por cada uma das razões da lista! E, depois disso, dizer-lhe que pode ter muito orgulho em mim porque apesar dos meus 23457 defeitos, estou decidida a virar o mundo do avesso para ser a mulher inteira que quero ser!
PS:Sim, ainda quero um closet! Mas a três dimensões porque a beleza está mais na profundidade do olhar de quem olha e é olhado do que no brilho dos vestidos!

*Título inspirado na Asas, dos GNR

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 2 de abril de 2017

(Não) quero tantas coisas que já (não) sei o que quero!

 O João está a conseguir, no 11º ano, manter a média bem acima dos 18. É barra a biologia, mas é a física e a matemática que mais o encantam. É neto de um médico diferenciado. Desde que começou a brincar com o estetoscópio do avô que todos lhe vaticinaram, mais ou menos em surdina, o futuro: seria nada mais nada menos que um médico brilhante. Essa sempre foi uma meta assumida por si. Sempre até há um par de meses, quando começaram a surgir as dúvidas. A paixão por aviões (não há modelo da Boeing ou da Airbus que não descreva com uma enorme naturalidade) e por máquinas em geral têm-no feito vacilar: a Engenharia Aeroespacial ou a Engenharia Mecânica têm, timidamente, vindo a surgir como hipóteses. Para além disso, diz o João: “eu até me via a investigar Biologia Molecular, por exemplo, mas ser médico mesmo, aquela vertente mais clínica de estar o dia todo a ouvir pessoas, levar com histórias desgraçadas, não sei se é para mim”.
  
 A Joana, da mesma turma, sente-se perdida. Foi, vagamente, alimentando a ideia de enveredar por Enfermagem ou, talvez, tentar Medicina em Espanha. Mas, tem vindo a descobrir que o estudo da biologia humana (que implicaria a Enfermagem ou a Medicina) não a encanta por aí além. Talvez o que mais a seduza num percurso muito ligado à saúde seja a dimensão de relação humana, a ideia de poder ajudar o outro, olhos nos olhos. Mas não morre de amores pelo frenesim de um Hospital ou de um Centro de Saúde. A psicóloga da Escola falou-lhe da área social (com Educação Social ou Serviço Social, por exemplo), como uma possibilidade para concretizar esta sua apetência para funções que possam implicar a relação como instrumento de trabalho.
            
 O percurso profissional é, ainda, fonte de sustento, como sempre foi. Mas é, cada vez mais, fonte de (in)satisfação e (não)realização pessoal. Tenho para mim, por isso, que quando se escolhe uma área profissional que compatibilize paixão e apetência, se estará mais próximo do trilho do sucesso e, mais importante, do caminho da realização e da satisfação profissional.
 Tenho, por isso, a ideia de que, em muitas circunstâncias, uma orientação vocacional cuidadosa e aprofundada é muito mais do que um capricho. Será, tenho para mim, uma ajuda valiosa para sustentar uma opção demasiado relevante para ser deixada ao acaso ou ao sabor de um impulso de momento. Sê-lo-á especialmente para todos aqueles para quem, no meio de tantas escolhas possíveis, não parece emergir, de dentro, uma convicção segura acerca do caminho a seguir. Será, tenho para mim, uma ajuda tão mais valiosa quanto mais puder cruzar interesses e apetências vocacionais com características de personalidade e variáveis cognitivas. Afinal de contas, é fácil imaginar que um arquiteto que case rigor com abstração espacial e criatividade estará mais perto de ser um bom arquiteto. Ou que um engenheiro que compatibilize raciocínio lógico, abstração espacial e raciocínio mecânico estará mais próximo de se poder destacar. Ou que um professor será muito mais facilmente um bom professor se, para além do domínio científico das matérias, tiver interesse e apetência para gerir relações interpessoais. Ou que um enfermeiro ou um médico, para além do domínio científico e de todo o raciocínio analítico complexo (que permite, por exemplo, chegar a um diagnóstico certeiro) tenderá a ser tão melhor médico ou enfermeiro quanto mais apetência tiver para gerir relações interpessoais e estabelecer relações de ajuda. 
Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 19 de março de 2017

Em nome do pai!

  O “olha que eu digo ao teu pai e ele diz-tas” foi condensando, por demasiado tempo, um modelo de parentalidade (e de relação entre homens e mulheres e entre estes e as crianças) mais ou menos clivado: a mãe protegia, cuidava e dava colo. O pai punha o pão na mesa e era o rosto da Lei e da ordem familiar. A mãe era dócil, afetuosa e tinha um colo do tamanho do mundo. O pai era duro, distante e nunca se comovia. Afinal, “homem que é homem não chora” e emoções, se as tinha, era sua obrigação escondê-las atrás de um ar grave e sisudo.
  A Psicologia e a Psicanálise Clássicas desbravaram avenidas na compreensão das relações humanas, da parentalidade e das relações familiares. Mas, por mais que, em tantos e tantos aspetos, tenham estado à frente do seu tempo (dando um empurrão ao mundo criativo que pula e avança), não deixaram (inevitavelmente!) de também beber influências de uma ideia clivada de família, organizada em torno de um “polícia bom” que protegia e cuidava, e de um “polícia mau” e distante que garantia a Lei. Talvez por isso, o pai foi sendo conceptualizado como o terceiro, que abria a relação (mais ou menos fusional) mãe-filho à diferença e à realidade. Não sendo avanço pequeno na ciência nem função pouco importante a do pai, não deixava, ainda assim, de secundarizar o seu papel no desabrochar das extraordinárias competências do bebé… Mas, num mundo que pula e avança, há muito que muitos modelos da Psicologia e da Psicanálise Contemporâneas (com conceitos como o de “tríade originária” de Chbani e Perez-Sanchez, por exemplo) me parecem sugerir que modelos integrados de família (e de sociedade) são mais amigos da saúde e do crescimento.
  Num mundo que pula e avança as mulheres foram trabalhar e, felizmente, exigem a justíssima igualdade de direitos (por mais que, em pleno séc. XXI, ainda hajam deputados do Parlamento Europeu a questionar estes princípios básicos). Num mundo que pula e avança, felizmente, os homens exigem, cada vez mais, o direito de cuidar, de se comoverem e de serem próximos e afetuosos (lembrando, aos mais distraídos, que o seu coração também bate do lado esquerdo, ou que a condição masculina não é, por si só, sinónimo de menos competências parentais na hora, por exemplo, de regular responsabilidades parentais, em caso de separação). Neste contexto (como em muitos outros), menos clivagem será – tenho para mim – mais saúde. Nesta lógica, tal como o colo e a abertura à diferença e à realidade deve ser a multiplicar por cada um dos pais, também a Lei Familiar deverá – parece-me - resultar de um consenso mínimo entre eles, tendo, evidentemente, os dois a obrigação de a fazer aplicar.

  Quanto mais abraçarmos a diferença, com a consciência de que, no essencial (sejamos homens ou mulheres, muçulmanos ou cristãos, do norte da Europa ou da África Subsariana) somos todos feitos da mesma massa (como muito bem lembrava um slogan muito feliz na luta contra a xenofobia: “Todos diferentes, todos iguais!”), mais inclusiva, integradora e amiga da saúde e do crescimento será a família (na sua composição tradicional ou nas “novas” composições que resultam do crescente respeito pela orientação sexual das pessoas). 

domingo, 5 de março de 2017

Vai-te embora... mas eu preciso de um abraço!

A Maria vai todos os dias à Faculdade beber café. Os claustros são bonitos e é lá que encontra boa parte dos seus amigos. Mas às aulas não tem ido muito. Especialmente desde o semestre passado quando, pela primeira vez na vida, chumbou num exame. Deixou de estar a par das cadeiras, dos livros, das sebentas e dos apontamentos. Sai todas as noites, em grupos alternados. Nenhum deles aguenta o seu ritmo imparável. Acorda quase todos os dias ressacada dos packs de vodka ou dos shots com que procura adormentar mágoas e medos. Alguns amigos gabam-lhe a pedalada tal a agilidade com que salta de bar em bar, de copo em copo, de ganza em ganza… numa agitação que parece não ter fim. Mas há muito que a Catarina percebera que a Maria talvez ande mais movida a angústia do que a desejo. Especialmente desde o jantar de curso em que a Maria, num pranto desamparado, falou, de forma mais ou menos desconexa, dos pesadelos com que acorda, invariavelmente, a chorar; do modo como se sente feia e desinteressante; da relação distante com a mãe desde que perdeu o pai; da culpa e do medo de não ser capaz de investir o curso ou da catadupa de envolvimentos amorosos em que se foi, invariavelmente, sentindo usada e humilhada. E a Maria sociável, popular, confiante e despreocupada aos olhos mais desatentos era agora olhada, pela primeira vez em muito tempo, para lá do show off dos seus decotes e do seu nariz levantado. No dia seguinte, com os olhos ainda vermelhos de tanto chorar, apressou-se a justificar o desamparo com o último shot de tequila que “bateu mal”. Mas a Catarina não desarmou. Levou-a consigo de fim-de-semana, à sua aldeia Trás-os-Montes. O fim-de-semana no campo teve um sabor agridoce para a Maria.  Confortou-a, muito mais do que se atrevera a imaginar, haver alguém que, tanto tempo depois, não desiste de espreitar para dentro de si. Tanto que deu por si a confiar à Catarina uma ou outra “paranoia” (como lhes chama) que nunca se atrevera a confiar a ninguém. Mas dilacerava-a a distância colossal entre o calor relacional que sentia na vida da Catarina e a marca de superficialidade e indiferença das suas próprias relações pessoais e familiares. Talvez tenha este sido um fim-de-semana decisivo para, pela primeira vez em muito tempo, equacionar a proximidade relacional (que tolerava mal, ainda) como alternativa à sucessão de fugas para a frente a que há muito se entregara. Talvez a Catarina a tenha ajudado a largar a semente para, meses mais tarde, ousar pedir ajuda no contexto de uma relação terapêutica a que viria, paulatinamente, a confiar-se.


Talvez a sucessão de fugas para a frente, mascaradas, tantas vezes, numa hiperatividade boémia (mas, também, de trabalho por exemplo, como nos workaholic) não seja muito mais do que uma tentativa desesperada de adormentar uma angústia (e um desamparo…) profunda e mais ou menos generalizada. A superficialidade relacional que, tantas e tantas vezes, acompanha este registo (numa solidão acompanhada tão bem cantada pelo Jorge Palma, na sua Frágil: dou-me com toda a gente, mas não me dou a ninguém), parece, porventura, funcionar como a barreira que faltava à proximidade das relações. Tudo parece passar-se como se, nestas pessoas, há muito viesse a definhar a esperança de haver alguém ao pé de quem seja possível sentir a dor sem claudicar. E, com ela, por maioria de razão, se fosse estilhaçando também a fé no poder transformador (e redentor!) da relação (a que Bion chamava fé nos vínculos).  Mas, quem, desta forma ainda muito encriptada é certo, consegue ainda assim soltar uma espécie de: “vai-te embora… que eu preciso de um abraço”… terá todas as competências para, aos poucos, resgatar os “super-poderes” transformadores da relação. Assim tenha quem não desiste de a olhar dentro. Assim tenha quem não desista de ajudar a configurar, com palavras e com histórias a dor… e o desejo!


Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

(Felizmente) o Amor não é um conto de fadas!

   Ainda andava às voltas com a ressaca do divórcio. Sem saber bem como, o mundo desabou. Assim, de uma assentada (por mais que há muito as brechas se viessem a aprofundar). A cama era, agora, grande demais para tanto vazio. Só o Bernardo, nos fins-de-semana e 4ª feiras que ficava com o pai lhe conseguia arrancar um sorriso rasgado. Muitos meses depois vieram, finalmente, as férias. E com elas uma espécie de Verão teenager (como lhe chamara). Na ressaca de uma vertigem de festas, exageros alcoólicos e relações de ocasião, o Pedro estava, agora, mais metido consigo. Depois de um Verão de mais “anestesia” do que de “reconstrução”, era tempo de ligar os pensamentos.
   A Joana, com a vivacidade, a audácia e o medo de quem trata a vida por tu, insistiu em pôr-se no seu caminho. O Pedro hesitou. E voltou a hesitar. Uma e outra e outra vez. Intuía que não poderia passar por aquele brilho nos olhos com a leviandade com que passara pelo Verão. E isso fascinava-o. Fascinava-o, mas assustava-o de morte. Ainda estavam bem vivas as feridas do divórcio. E, feitas as contas, “gato escaldado até de água fria tem medo”. Incrível, a Joana, cerrou fileiras e não desarmou. E isso foi serenando o Pedro. “Meu Deus, nunca tinha visto uma mulher a olhar para mim daquela maneira. Era um olhar de espanto. Um olhar de espanto perante o amor”. Com a Joana tinha, agora, uma “sintonia maior” (como lhe chamara) que, na verdade, nunca chegara a ter com a Marta em 5 anos de casamento. E tinham sonhos, feitos projetos comuns. Mas veio a crise, a troika e a deslocalização de pessoal do departamento financeiro para a sucursal de Paris. E vieram as pontes aéreas e os sonhos feitos projetos para um reencontro a curto prazo. Agora sim, a história tinha os contornos de um amor épico, à filme! Os reencontros eram apaixonados, mas a distância crescentemente insuportável para a Joana. De volta à Paris que a viu crescer, foi desistindo, aos poucos, do “espanto do amor”. Sem nunca conseguir ser clara, manteve um registo: “nem contigo, nem sem ti” muito para lá do razoável. O Pedro cerrou fileiras e não desarmou… mas o amor é sempre a dois (a multiplicar por cada uma das vidas que mora bem dentro de cada um dos amantes) e virar o mundo do avesso não foi suficiente para resgatar, na Joana, aquele olhar de espanto perante o amor. Com uma última carta de amor, o Pedro empurrou, finalmente, a porta que a Joana teimava em não abrir (nem fechar). Estava zangado com as mulheres e com o amor. Pensava, para si, que era hora de dar um tempo ao amor e de apostar as fichas todas no trabalho. Mas, fosse quando se sentava para retomar os sites que tinha em carteira ou quando, à noite, a cama lhe parecia demasiado grande para tanto vazio, batia a saudade. E uma tristeza funda. E a desconfiança no seu valor: “Se eu sou tão especial como me imagino, porque é que, chegada a hora da verdade, fico invariavelmente sozinho?”. E a culpa por um lado intempestivo, que sempre o atormentou: “a verdade é que, às vezes, consigo ser uma besta”. E o medo. O medo de nunca mais se sintonizar com ninguém da forma mágica como, em tempos, se sintonizara com a Joana. E o temor de, na improbabilidade de se voltar a sintonizar, o Amor ter, uma vez mais, prazo de validade.
  Sempre com um sentimento de perda como pano de fundo, o Bernardo e o gozo que o trabalho lhe dava iam-lhe preenchendo a vida. Até que, sem saber bem como, choca de frente com os olhos brilhantes da Maria. Radiante e apavorado ao perceber que, afinal, o coração ainda bate, lança-se numa sofreguidão urgente, própria de quem morre de medo e de esperança, tudo ao mesmo tempo. A Maria, mulher sensata, incandesce-se, num primeiro momento. Mas trava a fundo, logo de seguida. Há muito que a vida lhe ensinara que as fugas para a frente não aproximam as pessoas. E irrita-se. Irrita-se solenemente: “como é que este tipo, de olhar bonito e profundo, estraga assim tudo antes mesmo de começar?” … Mas volta a incandescer-se: afinal de contas, o sôfrego Pedro também é capaz de um acesso de sensatez quando lhe metem o dedo no nariz! E vêm os cafés, os jantares e as horas a fio ao telefone (só agora descobriram que aqueles pacotes ilimitados de telecomunicações, afinal têm um número limitado de minutos!). Tudo os parece ligar, como se se conhecessem desde sempre! Cresce o entusiasmo e o espanto. Mas com eles segue, também, o medo. Afinal de contas, lado a lado com o saber de experiência feito, moram, bem dentro de cada um deles, cicatrizes várias que a proximidade vem desnudar. À boleia duma dessas cicatrizes, quando nada o fazia prever, o Pedro tem um verdadeiro acesso de mau feitio, daqueles tão seus. A Maria, atónita, grita-lhe: “tu não me falas assim!” Nesse exato momento, o Pedro cai em si, pede desculpa e tenta, por todos os meios, reparar os estragos. Mas aquele casal, que até há poucas horas incandescia na ilusão de que se conhecia desde sempre estava, agora, a milhas de distância! A Maria estava muito assustada. O poço de charme, afeto e firmeza que via no Pedro parecia-lhe, agora, uma reedição (de muito má qualidade) de todas as pessoas por quem se foi sentindo mais ou menos amesquinhada. O Pedro, dividido entre a culpa e a ideia difusa de que também a Maria não entendia que os acessos de mau feitio mais não eram do que um mix de medo e desamparo em versão show off, não encontrava a fórmula mágica para se chegar a ela. Mas, muitas lágrimas, linhas vermelhas e inconfidências depois, lá se agarraram num abraço sem fim. Meses (e alguns encontros e desencontros) depois, numa daquelas tardes ternurentas de sofá, a Maria olha bem dentro do Pedro e diz-lhe: “tu és um falso bruto!”. Ele olha-a, desconcertado, e ela insiste: “sim, tu és um falso bruto! Berras e tal, mas se eu te meto o dedo no nariz, cais logo em ti! És um falso bruto! É só show off, para pedir mimo!” E comovem-se os dois, num abraço do tamanho do mundo! Talvez nunca o Pedro tenha ouvido (numa formulação tão simples, tão verdadeira…) nada tão integrador (e poderoso a serenar cicatrizes)!

  Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez o Amor definhe um bocadinho de cada vez que nos deixamos ofuscar com a superfície plana dos show off. Mas, talvez se expanda (vários universos!), de cada vez que insistimos em olhar o outro… para lá das luzes!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Maria (já não) vai com as outras: adolescer entre o medo e o entusiasmo

   Uma infeção respiratória não tornou muito fáceis os primeiros meses da Maria. Primeira filha e primeira neta, merecia as atenções preocupadas de todos. O primo que se lhe seguiu, 9 meses mais novo, viria, anos mais tarde, a fazer furor no infantário, que isto de começar a ler aos 4 anos não é para todos. A Maria não lia, ainda. Brincava! Brincava muito! E crescia bem: com o olhar vivo e a sensibilidade apurada, o imaginário a expandir e o corpo a mexer (É para isto que devem servir os infantários, não é?). Da infeção respiratória sobrava apenas, lá ao longe, uma espécie de fantasma parental de que talvez a Maria precisasse de mais “bengalas” do que os outros. Talvez um bocadinho por isso; talvez um bocadinho para “compensar” a distância nas competências académicas para o primo leitor precoce (que, com o passar dos anos, não existia de todo na realidade dos factos, mas parecia bem viva no medo dos pais), a mãe da Maria sempre fez por estudar com (por) ela.
  Aos 14 anos, a Maria é uma adolescente viva, inteligente e afetuosa. Autónoma nas opiniões e na gestão das amizades, continua, apesar das boas notas, a ter na mãe a bengala para o estudo, sem a qual se vai imaginando mais ou menos incapaz. A época de testes é vivida como uma espécie de tortura. Na semana anterior já não consegue dormir bem. Agitada, muda, constantemente, o “centro de estudos” do quarto para a sala, da sala para o escritório do pai, voltando ao quarto para recomeçar o ciclo. Nenhum lugar lhe parece aconchegar o medo. Pior do que os testes, só mesmo as apresentações de Inglês. Por mais que treine, vezes sem conta, cada vírgula da apresentação custa-lhe horrores não ter a pronúncia “british” que vai, de forma muito, muito exagerada, reconhecendo em cada um dos seus colegas. Pior do que isso, só mesmo, a sensação de quase rebentar de tão vermelha que fica, ou o quão se sente ridícula quando a voz teima em embargar. Como se tudo isto não bastasse, as dores de barriga e os nós na garganta são, também, um habitué destas andanças.

  Mas porque é que uma adolescente viva, inteligente e cheia de qualidades parece desconfiar tanto das suas competências?

  A Maria começou a estudar sozinha. Muito a medo (tal como aconteceu com os seus pais, viriam a confessar mais tarde), ou não fosse a primeira vez que enfrentavam o “fantasma” de que o esforço e as competências da Maria talvez não fossem suficientes para garantir boas notas. A Maria morria de medo de, finalmente, comprovar, por A+B, que era incapaz e de, com isso, desiludir todos aqueles de quem gostava. Os pais morriam de medo de, feitas as contas, ter gerado uma filha com bom coração, mas “sem rasgo para a aprendizagem”. As notas baixaram, de facto, num primeiro momento. Mas, à medida que a Maria ia sentindo que quem mais importa começava a acreditar verdadeiramente em si, ao mesmo tempo que começou a discorrer sobre os medos, a encontrar espaço relacional para eles, a compreendê-los e pensá-los (vestindo-os de palavras, na sua história), foram-se esbatendo as insónias, a tensão e as dores de barriga, ao mesmo tempo que ganhavam espaço a confiança e a “adrenalina” das apresentações, o gozo da criatividade e do conhecimento. E, com eles, os resultados escolares começaram a aparecer, depressa superando as performances da “Maria da bengala”.  

  Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez as competências em bruto (que todos temos!) nunca sejam suficientes por si só. À semelhança daquele célebre (e muito, muito bonito) vídeo do Europeu de Futebol em que o Ronaldo “obriga” o Moutinho a marcar o penálti, enfatizando que se falhar "que se lixe" (numa linguagem um bocadinho mais carregada de “alma”), talvez precisemos – sempre (!) – de quem (na nossa vinda interior e no mundo lá fora) acredite em nós, ajudando-nos a sintonizar com as nossas qualidades e a tirar partido delas, ao mesmo tempo que nos assegura que se falharmos ... “que se lixe”!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.