domingo, 23 de julho de 2017

Férias para que te quero?

 Muitos são os que, por esta altura, vão suspirando pelas férias, enquanto vagueiam pelas fotos de areias finas e águas cristalinas, que teimam em invadir as redes sociais.  
   Com o Xavier parece ser um bocadinho diferente. Casado e pai de duas filhas, não gosta das férias: “tirar férias é um tormento. Todos os anos vamos de férias para o Algarve. Quinze dias. A minha mulher e as miúdas querem ir para a praia, passear na marina à noite, fazer churrascos, essas coisas… Eu não aguento! No ano passado, tive de ir comprar uma pen para ter internet móvel. Tinha de trabalhar! As coisas ficavam atrasadas. Quinze dias sem fazer nada é muito tempo. E elas depois andam sempre de má cara porque quero ficar em casa a trabalhar. Não entendem”.
   O Xavier é um profissional de sucesso. Trabalhador incansável, tem uma vida financeira estável, que lhe permite manter uma boa casa, um carro familiar de alta cilindrada e um outro utilitário, uma casa de férias no Algarve, colégios caros e atividades extracurriculares para as filhas.
  Mas não só as férias que o inquietam. Os sábados passa-os a trabalhar. Aos domingos, depois do jogo de vólei das filhas (passado, claro, a responder a e-mails de trabalho no i-phone) e do almoço na casa dos pais ou dos sogros, esquiva-se para o escritório lá de casa, adiando, uma vez mais, o passeio de mão dada com a mulher, ao entardecer.
  À noite, por muito cansado que esteja, tem quase sempre grandes dificuldades em adormecer. Ao ar amuado da mulher por (quase) nunca o sentir ali, realmente perto dela, juntam-se as 1001 preocupações de trabalho. Estão sempre presentes, mas teimam em agudizar-se quando apaga a luz.

  Talvez o que o Xavier queira dizer com o seu apelo, mais ou menos encriptado, seja qualquer coisa como: transporto tanta angústia dentro de mim, que temo que a única forma de a ir fintando seja esta espécie de hiperatividade funcional (no sentido que Sami-Ali lhe dá). Parar (seja para estar na praia ou numa esplanada a gozar a brisa do entardecer) é ser, brutalmente, invadido por ela. Talvez o que o Xavier queira dizer com o seu apelo, mais ou menos encriptado, seja que este registo agitado e híper-funcional em que tem estado mergulhado, ao mesmo tempo que vai (cada vez menos) fintando a angústia, o vai afastando, cada vez mais, de quem (a mulher, as filhas, os pais, os amigos…) o pode ajudar a transformar a angústia em palavras, as palavras em histórias e as histórias em vida. Se o Xavier conseguisse ser mais claro, talvez tivesse dito: ajude-me a entender e a transformar toda esta angústia, para parar de, à boleia do trabalho, fugir dela e, com isso, afastar quem (a mulher, as filhas, os pais, os amigos, etc.) me pode ajudar a desfrutar do trabalho, da esplanada, do pôr-do-sol… da vida.

  Num mundo muito centrado na ideia de sucesso, corremos o risco desta espécie de hiperatividade funcional ser valorizada. Num primeiro momento até pode, de facto, representar ganhos de produtividade. Mas (à semelhança do que alguns dizem acerca da dívida de alguns países do sul da Europa) é insustentável a prazo. Correr por gosto não cansa. Já correr por medo (o medo de que à falta de um registo híper-funcional que a sustenha, a angústia tome conta de tudo), tenho para mim, dá maus resultados, a prazo. Talvez por isso o ócio (dos passeios de mão dada na brisa da tarde, às jantaradas de amigos, passando pelas reuniões familiares ou pelo dolce fare niente) seja fundamental para nos apaixonarmos pelo trabalho e, muito mais importante do que isso, pela vida!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais, está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 25 de junho de 2017

O teu bem faz-me tão mal!*

  Nunca, até olhar nos olhos do Pedro, se tinha permitido sentir borboletas na barriga. Daquelas à séria, que põem as pessoas a imaginar tontices (próprias de filmes de domingo à tarde) e quase fazem o coração sair pela boca. Mas durou pouco a Primavera…  Já o tinha ouvido, no bar, a insurgir-se contra a desregulação na alta finança. E, pior, para além da boémia (que conciliava bem com as sebentas) e do estilo alternativo, o Pedro andava nas manifestações, de megafone na mão, a gritar contra as propinas.
 Depressa as insónias tomaram conta das noites da Constança. Repetiam-se as vezes em que acordava, assustada, com a imagem do pai (secundado pelo acenar de cabeça da mãe) a dizer-lhe, com uma calma desconcertante: “A Universidade está cheia desses maltrapilhos. Vê lá o que arranjas para dar o nome aos teus filhos!” Deixou de ir ao bar e começou a evitar todo e qualquer espaço onde fosse provável dar de caras com o Pedro. Tinha de se concentrar nas sebentas. Afinal de contas, há muito que todos haviam decidido que ia ser uma advogada brilhante. Custou-lhe, ao início, mas foi-se habituando. Afinal, habituar-se ao que esperavam de si era o que fazia desde que se lembra. Foram-se os pesadelos, mas ficaram as insónias e, com elas, um olhar cada vez mais apagado.
  As notas brilhantes e os contactos familiares valeram-lhe um estágio, e depois um emprego num grande escritório de advogados. Acabou por casar com o filho de um amigo da família. Não que alguma vez, ao pé do marido, o coração lhe tenha querido saltar pela boca, como acontecera, há muitos anos, nos corredores da velhinha Faculdade de Direito.  Mas estava já em idade de casar e ter filhos…
  O ritmo frenético no trabalho, um casamento morno (funcional na aparência, mas sem vida nem rasgo) e a preocupação com os filhos foram-lhe preenchendo o tempo (e camuflando os vazios). Até que todo o longo e doloroso processo da doença do pai e, depois, a sua morte, precipitaram uma espécie de terramoto na estrutura que, durante anos e anos, se alicerçou na adaptação (quase sem falhas) ao que esperavam de si. “Como é que eu posso fazer o luto de alguém de quem eu nunca discordei? Como é que eu posso fazer o luto de alguém com quem nunca me zanguei?”, viria a perguntar-me (a perguntar-se, para ser mais exato), anos mais tarde.

  Precisamos de quem nos sonhe e nos invista de expectativas, para que, a partir delas, possamos, na diferença (e no conflito) que a relação implica, sonhar e empreender autonomamente a nossa vida. Já ter quem, invariavelmente, nos engula nos seus sonhos e nos seus ritmos, poderá deixar-nos reféns numa espécie de sequestro da subjetividade e da autonomia (próximos daquilo a que Winnicott chamou de falso self). Esta hiperadaptação funcional, ensina-nos Sami-Ali, faz-se acompanhar de um recalcamento da função do imaginário (posso sonhar-me se há quem, invariavelmente, me engula nos seus sonhos?) e de uma depressão caracterial (uma espécie de depressão contida, vazia de sintomas…e de vida), numa constelação que (como chamam a atenção a psicossomática de inspiração psicanalítica e a psiconeuroendocrinoimunologia), à medida que desvitaliza a vida mental parece fragilizar os equilíbrios biológicos do corpo.


Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 4 de junho de 2017

E se eu não passar de ano?

  O teste de Português fê-lo suar mais do que a partida de futebol contra o 5º B, no intervalo grande. Como, de resto, o de Ciências, História e Inglês. Vinha de uma Escola pequenina, mesmo ao lado do infantário onde entrara com 3 anos. Os primeiros tempos não foram muito fáceis. Os pavilhões pareciam-lhe muito grandes e a fila para a cantina cheia de miúdos mais velhos, a lembrar-lhe que, à falta de melhor argumento, a idade (e a envergadura física) pode ser um posto. Reservado, integrou-se, ainda assim, relativamente bem na nova turma. As habilidades que saiam do seu pé esquerdo deram uma ajuda, vindo a garantir-lhe mesmo alguma popularidade lá para os lados do campo de futebol da Escola. Já na sala de aula, está a (muitas) léguas de se sentir um Ronaldo. A tensão com que enfrenta cada aula parece provocar-lhe dores de pernas mais intensas do que todas as correrias de um jogo de futebol, no intervalo de almoço. Entre o medo de, a qualquer momento, ser chamado ao quadro e o fantasma de ser realmente incapaz em matérias escolares, é difícil para o Carlos concentrar-se nas explicações da Professora de História ou de Ciências. Se a isso acrescentarmos a fúria que sente em silêncio sempre que a Professora elogia a inteligência e empenho da sua prima Mónica (aluna brilhante, pois claro!), fica difícil, para o Carlos, libertar espaço mental para se focar na aprendizagem. Em casa, perante a insistência constante dos pais para que estude (não resistindo a dar, uma ou outra vez, a prima Mónica ou a irmã mais velha como exemplo), deixou cair, entre lágrimas, um sofrido: “oh mãe, tu sabes que eu não dou para a Escola!”, expressão que, meses antes, ouvira, acidentalmente, numa conversa entre a avó e a mãe, a respeito do seu rendimento escolar.

  Se aprendemos com Bruner que a aprendizagem tem de ser enquadrada no contexto sociocultural (ligando conceitos teóricos com a realidade sociocultural e pessoal das crianças);  com João dos Santos que muito dificilmente há dificuldades de aprendizagem sem dificuldades emocionais;  com Bion (Gibello e tantos outros) que o desenvolvimento cognitivo nunca se faz à margem do desenvolvimento afetivo; se o relatório do Programa Nacional de Saúde Escolar(relativo ao ano letivo de 2014/2015) parece reconhecer a relação estreita entre sofrimento emocional e insucesso e indisciplina escolar, talvez faça sentido olharmos para os resultados escolares menos como uma espécie de decorrência direta do potencial cognitivo da criança (que, em muitas circunstâncias, parece não se traduzir nas performances que poderia alavancar) e mais como um aferidor do papel da Escola e da família na promoção da saúde (mental) e, com ela, da curiosidade e do conhecimento. A ser assim, talvez o Carlos precise tanto de estratégias pedagógicas (fundamentais, naturalmente), como de quem se sintonize com ele e o ajude a pensar tudo aquilo que vai sentindo mais ou menos em silêncio - do medo de ser incapaz que o parece bloquear, ao fantasma de desiludir pais e professores, passando pela fúria contida ao imaginar que, aos olhos dos professores, mas principalmente dos pais e da avó, nunca vai chegar aos calcanhares da prima ou da irmã – para, a partir daí, retirar contrapartidas práticas que o façam ir à luta na sala de aula como nunca deixa de ir no campo de futebol.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 7 de maio de 2017

Anda uma mãe a criar um filho para isto!

As mães têm um dedo que adivinha e super-poderes de meter inveja a qualquer super-herói. É assim quando se é pequenino. Acho que é um bocadinho assim vida fora. Mesmo quando, com a necessidade de se marcar posição, se vocifera, entre dentes, que elas não entendem nada sobre nada.
  As mães são chatas, às vezes. É assim quando se é pequenino e obrigam a comer a sopa ou quando, na praia, fazem cumprir, até ao último segundo, as 3 longas e penosas horas de digestão. Acho que é um bocadinho assim vida fora, quando não se cansam de aconselhar mais uma camisola para o frio ou cuidado na viagem.
  As mães têm um colo do tamanho do mundo. Só delas. Versátil, ergonómico e aconchegado. É assim quando se é pequenino. Acho que é um bocadinho assim vida fora. Tanto mais quanto mais encoraja a perseguição entusiasmada de caminhos autónomos (amorosos, profissionais, etc.). Tanto mais quando nunca deixa de ser uma espécie de porto seguro, quando o mundo parece ficar de pernas para o ar.
  As mães (quase) nunca deixam de “meter o dedo no nariz” quando é preciso. É assim quando se é pequenino e se faz da birra de supermercado uma espécie de: “seguras-me mesmo quando eu faço todo este show off de meter todo o corredor dos brinquedos a olhar para nós?” em código Morse. Acho que é um bocadinho assim vida fora, se mais do que o mundo forem os filhos a insistirem em andar, mais do que a conta, de pernas para o ar. Afinal, “não anda uma mãe a criar um filho para isto”!

domingo, 23 de abril de 2017

Asas servem para voar!*

  Foi crescendo rodeada de gente. Para além dos pais e da irmã, a casa estava sempre cheia. Tios, avós, primos. Todos lhe iam gabando a beleza. Puxa à mãe, dizia a avó Amélia com orgulho, atropelada, invariavelmente, pelo pai que não se cansava de sublinhar a inteligência superior da irmã da Rita (que, evidentemente, só podia ter sido herdada de si). Talvez seja um bocadinho assim em algumas famílias. Ao mesmo tempo que dão o caldo afetivo para o crescimento, parece que precisam de acantonar as pessoas em prateleiras… como se, para a beleza, não contassem também a profundidade no olhar (de quem olha e de quem é olhado) e se, para a inteligência, não fizesse qualquer diferença para quê e, principalmente, com quem e para quem somos inteligentes!
  A Rita é efetivamente bonita. Mas é muitas outras coisas boas (inteligente e sensível, audaz e atenta ao outro) que talvez por serem tão poucas vezes olhadas por quem as poderia ajudar a florescer, foi emperrando, dentro de si. Entre o buliço das festas familiares e os grupos de amigos em que se movia, parece ter havido sempre um lado seu que nunca (!) deixou de se sentir numa espécie de solidão assistida. Especialmente depois da morte da avó Amélia, que olhava a sua beleza bem dentro dos olhos e parecia a única capaz de pôr travão aos excessos do pai. Também a mãe sempre se foi chegando à Rita (não deixando, com isso, morrer o melhor dos seus recursos). Mas foi-lhe faltando a vivacidade da avó para pôr o pai no sítio.  Claro que o pai sempre gostou da Rita! Mas raras foram as vezes em que encontrou a fórmula para a olhar dentro. Lembra, com a voz embargada, como o pai arranjava sempre forma de lhe roubar o protagonismo nos aniversários ou na festa de final de curso. Não se lembra de um único: “estou orgulhoso de ti”! E dos abraços mais apertados apenas tem memória de um, aquando da morte do seu avô paterno. Por mais que o que mais quisesse fosse puxar o pai para si, foi-se afastando ao ponto de, praticamente, não falarem se não no conforto do grupo ou por intermédio da mãe. E assim foi alimentando a ideia de que do pai podia apenas esperar dinheiro para o curso, as viagens e o carro. E o pai a ideia de que a Rita de si só queria o dinheiro para o curso, as viagens e o carro. E, de equívoco em equívoco, foi crescendo a distância entre quem suspira pela proximidade!
  Ainda assim, mais crescida agora, a Rita fez alguns movimentos de aproximação. Qual leoa, defendeu, com unhas e dentes, o pai quando o jornal local (e a destilaria de ódio pronto a cavalgar o lado negro das redes sociais) lhe caiu em cima. Entre o orgulhoso e o atrapalhado o pai, mais por falta de hábito do que por ingratidão, não foi capaz de agarrar o apelo. Como não fora meses mais tarde: a Rita rejubila com o projeto profissional que conseguira. Podia não ser, ainda, a oportunidade de realização profissional com que sonhara, mas era um passo. E era sobretudo, a oportunidade de mostrar a si própria e ao mundo (e muito em especial ao pai!)  que também sabe ser inteligente, trabalhadora e competente. Mas o orgulho que ia acumulando com os olhares orgulhosos da mãe e das tias… num ápice se transformou em sabor a vitória amarga! Os Parabéns orgulhosos que mais ansiava: os do pai, foram, afinal, dolorosamente substituídos por uma espécie de insinuação de que só conseguira o projeto… porque é bonita.

  Para primeira formulação, não está difuso de todo o seu pedido de ajuda: anda muito desistente e paralisada perante a ideia de futuro e as escolhas que teme não conseguir fazer. Anda triste. Profunda e dolorosamente triste. Apesar do grupo de amigos com quem sai à noite para os copos, sente-se sozinha. Profunda e dolorosamente sozinha.
  Com o decorrer tempo – ou, para ser mais preciso, à medida que, devagar devagarinho, nos vamos sentindo, e ligando enredos onde antes havia muito mais fuga para a frente do que pensamento – o apelo da Rita (e com ele a construção de soluções!) fica cada vez mais claro: Mas se eu tenho tantas saudades de conversas e relações profundas porque é que vou deixando morrer as amizades que me interpelam e vão ficando apenas aquelas mais feitas de memórias de infância e solidões assistidas (em noites agitadas de copos) do que de vínculos e cumplicidades? Mas se eu tenho tantas saudades de relações profundas porque é que fiz tudo para afastar os amores que me interpelaram até à medula e, agora mais do que nunca, estão bem vivos dentro de mim? Mas se eu não me quero deixar acantonar na imagem de mulher bonita, mas autocentrada e superficial (ter um closet pode ser um capricho engraçado, não é? Mas como metáfora de projeto de vida, de facto, não é lá grande coisa!) e quero, definitivamente, ser a mulher inteira, arrojada, sensível, cuidadora, competente, viva e lutadora que a minha avó Amélia via em mim, porque é que às vezes insisto nos tiques de diva e fico à espera que as amizades e os amores voltem num passe de mágica, sem reparação nem garra, como se merecesse tudo de mão beijada só por seu eu?! Ou, pior, como se não tivesse o direito a lutar pelo que realmente quero (!) e tivesse de me contentar com a memória e a saudade para preencher o closet! Sabe, acho que estou a precisar – qual Randall do This is us – de escrever num papel as 32 razões porque estou profundamente magoada com o meu pai (e, já agora as 8 ou 9 porque estou zangada com a minha mãe e as 14 ou 15 porque estou fula com a minha irmã) e de lhas dizer uma a uma, olhos nos olhos. E, a seguir, de lhe dizer que, por tudo isso, mereço muito mais pai! E que, para começar, quero, pelo menos, um abraço apertado por cada uma das razões da lista! E, depois disso, dizer-lhe que pode ter muito orgulho em mim porque apesar dos meus 23457 defeitos, estou decidida a virar o mundo do avesso para ser a mulher inteira que quero ser!
PS:Sim, ainda quero um closet! Mas a três dimensões porque a beleza está mais na profundidade do olhar de quem olha e é olhado do que no brilho dos vestidos!

*Título inspirado na Asas, dos GNR

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 2 de abril de 2017

(Não) quero tantas coisas que já (não) sei o que quero!

 O João está a conseguir, no 11º ano, manter a média bem acima dos 18. É barra a biologia, mas é a física e a matemática que mais o encantam. É neto de um médico diferenciado. Desde que começou a brincar com o estetoscópio do avô que todos lhe vaticinaram, mais ou menos em surdina, o futuro: seria nada mais nada menos que um médico brilhante. Essa sempre foi uma meta assumida por si. Sempre até há um par de meses, quando começaram a surgir as dúvidas. A paixão por aviões (não há modelo da Boeing ou da Airbus que não descreva com uma enorme naturalidade) e por máquinas em geral têm-no feito vacilar: a Engenharia Aeroespacial ou a Engenharia Mecânica têm, timidamente, vindo a surgir como hipóteses. Para além disso, diz o João: “eu até me via a investigar Biologia Molecular, por exemplo, mas ser médico mesmo, aquela vertente mais clínica de estar o dia todo a ouvir pessoas, levar com histórias desgraçadas, não sei se é para mim”.
  
 A Joana, da mesma turma, sente-se perdida. Foi, vagamente, alimentando a ideia de enveredar por Enfermagem ou, talvez, tentar Medicina em Espanha. Mas, tem vindo a descobrir que o estudo da biologia humana (que implicaria a Enfermagem ou a Medicina) não a encanta por aí além. Talvez o que mais a seduza num percurso muito ligado à saúde seja a dimensão de relação humana, a ideia de poder ajudar o outro, olhos nos olhos. Mas não morre de amores pelo frenesim de um Hospital ou de um Centro de Saúde. A psicóloga da Escola falou-lhe da área social (com Educação Social ou Serviço Social, por exemplo), como uma possibilidade para concretizar esta sua apetência para funções que possam implicar a relação como instrumento de trabalho.
            
 O percurso profissional é, ainda, fonte de sustento, como sempre foi. Mas é, cada vez mais, fonte de (in)satisfação e (não)realização pessoal. Tenho para mim, por isso, que quando se escolhe uma área profissional que compatibilize paixão e apetência, se estará mais próximo do trilho do sucesso e, mais importante, do caminho da realização e da satisfação profissional.
 Tenho, por isso, a ideia de que, em muitas circunstâncias, uma orientação vocacional cuidadosa e aprofundada é muito mais do que um capricho. Será, tenho para mim, uma ajuda valiosa para sustentar uma opção demasiado relevante para ser deixada ao acaso ou ao sabor de um impulso de momento. Sê-lo-á especialmente para todos aqueles para quem, no meio de tantas escolhas possíveis, não parece emergir, de dentro, uma convicção segura acerca do caminho a seguir. Será, tenho para mim, uma ajuda tão mais valiosa quanto mais puder cruzar interesses e apetências vocacionais com características de personalidade e variáveis cognitivas. Afinal de contas, é fácil imaginar que um arquiteto que case rigor com abstração espacial e criatividade estará mais perto de ser um bom arquiteto. Ou que um engenheiro que compatibilize raciocínio lógico, abstração espacial e raciocínio mecânico estará mais próximo de se poder destacar. Ou que um professor será muito mais facilmente um bom professor se, para além do domínio científico das matérias, tiver interesse e apetência para gerir relações interpessoais. Ou que um enfermeiro ou um médico, para além do domínio científico e de todo o raciocínio analítico complexo (que permite, por exemplo, chegar a um diagnóstico certeiro) tenderá a ser tão melhor médico ou enfermeiro quanto mais apetência tiver para gerir relações interpessoais e estabelecer relações de ajuda. 
Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 19 de março de 2017

Em nome do pai!

  O “olha que eu digo ao teu pai e ele diz-tas” foi condensando, por demasiado tempo, um modelo de parentalidade (e de relação entre homens e mulheres e entre estes e as crianças) mais ou menos clivado: a mãe protegia, cuidava e dava colo. O pai punha o pão na mesa e era o rosto da Lei e da ordem familiar. A mãe era dócil, afetuosa e tinha um colo do tamanho do mundo. O pai era duro, distante e nunca se comovia. Afinal, “homem que é homem não chora” e emoções, se as tinha, era sua obrigação escondê-las atrás de um ar grave e sisudo.
  A Psicologia e a Psicanálise Clássicas desbravaram avenidas na compreensão das relações humanas, da parentalidade e das relações familiares. Mas, por mais que, em tantos e tantos aspetos, tenham estado à frente do seu tempo (dando um empurrão ao mundo criativo que pula e avança), não deixaram (inevitavelmente!) de também beber influências de uma ideia clivada de família, organizada em torno de um “polícia bom” que protegia e cuidava, e de um “polícia mau” e distante que garantia a Lei. Talvez por isso, o pai foi sendo conceptualizado como o terceiro, que abria a relação (mais ou menos fusional) mãe-filho à diferença e à realidade. Não sendo avanço pequeno na ciência nem função pouco importante a do pai, não deixava, ainda assim, de secundarizar o seu papel no desabrochar das extraordinárias competências do bebé… Mas, num mundo que pula e avança, há muito que muitos modelos da Psicologia e da Psicanálise Contemporâneas (com conceitos como o de “tríade originária” de Chbani e Perez-Sanchez, por exemplo) me parecem sugerir que modelos integrados de família (e de sociedade) são mais amigos da saúde e do crescimento.
  Num mundo que pula e avança as mulheres foram trabalhar e, felizmente, exigem a justíssima igualdade de direitos (por mais que, em pleno séc. XXI, ainda hajam deputados do Parlamento Europeu a questionar estes princípios básicos). Num mundo que pula e avança, felizmente, os homens exigem, cada vez mais, o direito de cuidar, de se comoverem e de serem próximos e afetuosos (lembrando, aos mais distraídos, que o seu coração também bate do lado esquerdo, ou que a condição masculina não é, por si só, sinónimo de menos competências parentais na hora, por exemplo, de regular responsabilidades parentais, em caso de separação). Neste contexto (como em muitos outros), menos clivagem será – tenho para mim – mais saúde. Nesta lógica, tal como o colo e a abertura à diferença e à realidade deve ser a multiplicar por cada um dos pais, também a Lei Familiar deverá – parece-me - resultar de um consenso mínimo entre eles, tendo, evidentemente, os dois a obrigação de a fazer aplicar.

  Quanto mais abraçarmos a diferença, com a consciência de que, no essencial (sejamos homens ou mulheres, muçulmanos ou cristãos, do norte da Europa ou da África Subsariana) somos todos feitos da mesma massa (como muito bem lembrava um slogan muito feliz na luta contra a xenofobia: “Todos diferentes, todos iguais!”), mais inclusiva, integradora e amiga da saúde e do crescimento será a família (na sua composição tradicional ou nas “novas” composições que resultam do crescente respeito pela orientação sexual das pessoas).