domingo, 5 de novembro de 2017

Para onde vai a tristeza?

   "Vinha estrada fora, a chorar desalmadamente. Não havia trânsito e conduzia em piloto automático. Liguei à Carla, a contar-lhe que 20 minutos antes o Pedro tinha acabado com o nosso casamento, com uma frieza no olhar que nunca lhe vira! Sim, o Pedro que ainda no fim de semana tinha estado comigo a jantar na casa dela, como se nada se passasse! Precisava de falar com alguém! A Carla gosta muito de mim. Muito mesmo. Mas ficou muito atrapalhada por me sentir assim. Fica sempre, nestas coisas. Disse-me para ter calma. Não falámos mais de cinco minutos. A seguir liguei à Francisca. Ouviu-me. Ouviu-me em silêncio. E chorou comigo. Sentia-a a chorar do outro lado, sabe? Parecia que a conseguia ver chorar. E ainda hoje lhe agradeço! Desapareceu-me a tristeza, e a raiva, e o desespero, e todo aquele sufoco de quem tinha acabado de perder o chão e já mal sabia o caminho para casa, quanto mais o que fazer à vida? Não, não desapareceu. Mas a Francisca aguentou a minha dor. Não se atrapalhou. Não me disse para ser forte nem para ter calma. Ficou ali, a ouvir-me e a chorar comigo! Sentiu comigo! Acho que lhe vou ser grata por isso, para sempre!"
  
   Mas porque é que damos tão pouco espaço à tristeza? Porque é que, perante a dor do outro, tantas e tantas vezes não nos sai mais do que um não penses mais nisso ou um tens de pensar positivo? Como se o otimismo florescesse por decreto; ou o que pensamos e sentimos pudesse, num passe de mágica, ser controlado por um qualquer botão on/off!
   Porque é que, perante a dor do outro, tantas e tantas vezes não nos sai mais do que um tens de ser forte, tens de reagir? Como se reagir não fosse, antes de mais, olhar o sofrimento nos olhos, equacionar a perda, senti-la, chorá-la, enraivecermo-nos com ela… para a podermos pensar. Como se este trabalho de luto não fosse crucial para alavancar os movimentos proactivos que permitam ir transformando o sofrimento em desejo e esperança, primeiro, e em projeto e ação intencional, depois.
   A ser assim, a tristeza (como a revolta) será uma reação natural (e saudável!) à dor que, inevitavelmente, algumas circunstâncias de vida acabam por despertar. Já a falta de um espaço relacional contentor (ao pé de quem é que podemos ficar abertamente tristes? A quem é que posso confiar a minha dor?) que a permita acolher, sentir e pensar será o terreno fértil para a inibição das suas manifestações abertas. Nestas circunstâncias, sempre que, reiterada e repetidamente, bloqueamos a expressividade do que sentimos, podemos estar a acumular, dentro de nós, uma espécie de “resíduo tóxico” (em que se vão transformando as emoções que fazemos por não pensar) que, à falta de espaços relacionais que o possam revitalizar, tenderá a colonizar mais e mais recursos saudáveis, deixando-nos, por isso, mais expostos à (psico)patologia.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 29 de outubro de 2017

Isso é tudo muito bonito, mas como é que a psicoterapia pode ajudar?

  Talvez o imaginário colectivo esteja, ainda, muito dominado por uma ideia positivista de ciência, e a ideia de saúde ainda muito acoplada a um modelo biomédico, de causalidade linear. A ser assim, o sofrimento mental só poderia resultar, de forma unívoca, de umas quantas reacções bioquímicas disfuncionais, afigurando-se a medicação psicotrópica como a única forma de corrigir estes desequilíbrios.
  Mas somos, felizmente, um bocadinho mais complexos do que isso! A actividade cerebral determina, em larguíssima medida, a nossa experiência, mas parece cada vez mais claro que a experiência e as relações humanas influenciam, elas próprias, aspectos muito importantes do funcionamento cerebral! É o que parece, por exemplo, decorrer de um estudo dirigido por Daniel Wiswesde, em que pacientes deprimidos melhoram significativamente os sintomas depressivos, normalizando, ao mesmo tempo, o funcionamento do sistema límbico (área cerebral muito associada ao processamento das emoções), depois de um punhado de meses de psicoterapia dinâmica.
  Quer isto dizer que a biologia cerebral não é fundamental no desenrolar da vida mental, ou que a medicação não pode ser muito útil para suster o sofrimento mental? De modo nenhum! Significará antes que a lógica da causalidade linear é curta na aproximação à complexidade humana.
  Há mais de 100 anos aprendíamos com Freud que a nossa vida é muito condicionada por emoções que fazemos por não pensar. Aprendíamos com o pai da Psicanálise que o normal e o patológico são, no essencial, quantidades diferentes das mesmas qualidades humanas. Os cognitivistas mostraram-nos como as experiências de vida podem moldar o modo como aprendemos a pensar nas mais diversas situações. Os modelos sistémicos aclararam a importância da comunicação, da complexidade e da causalidade circular. A Psicanálise contemporânea mostra-nos o lugar central da relação (desde a vida intrauterina, sabemo-lo hoje) na construção do funcionamento mental (em todos os seus aspetos mais e menos saudáveis).
  Se tentarmos intersectar todas estas portas de entrada, talvez possamos dizer que, em muitas circunstâncias, a ansiedade ou os sintomas depressivos, por exemplo, decorrerão tanto de equívocos e desencontros continuados na relação com o outro e com a verdade do que se sente (ou de experiências mais ou menos traumáticas) como de desequilíbrios bioquímicos (que, muitas das vezes, mais do que causa, serão, porventura, o correlato biológico do sofrimento).
  Será aqui que, a meu ver, entrará a utilidade da psicoterapia. Não apenas como uma oportunidade para as pessoas se sentirem genuinamente escutadas. Mas como um espaço relacional que acolhe as angústias de que vão procurando fugir (por as sentirem insuportáveis ou demasiado dolorosas, por exemplo), ao mesmo tempo que as legenda e liga com os aspectos essenciais das suas vidas. Esta nova relação, ao desconstruir alguns aspectos dos padrões relacionais (que, em boa medida, para o bem e para o mal, as trouxeram até ao ponto onde se encontram), funcionará, assim, como uma espécie de tubo de ensaio para uma relação mais clara e genuína com aquilo que sente (procurando pensar e gerir as emoções em vez de, continuadamente, as tentar silenciar), o que não deixará de se traduzir nas relações da “vida real” (tornando-as mais confiantes e confiáveis, mais criativas, assertivas e próximas) com as pessoas, o trabalho, as desilusões, a esperança ou o desejo.

(Texto originalmente publicado no P3)

domingo, 8 de outubro de 2017

(Des)atentos também somos (todos) nós!

  Para além de um ar mais ou menos entediado, o Francisco trazia, por intermédio dos pais, um role de queixas. De entre as que mais os preocupavam talvez a irrequietude e a falta de atenção, (na escola e na hora de fazer os TPC) fossem as que mais se destacassem.
  Era só a segunda vez que o atendia. Como na primeira, entrou na sala com um monumental ar de frete. Irrequieto e de olhar fugidio, parecia não ouvir uma palavra do que eu lhe dizia. Na tentativa de (estimulando a competitividade) esbater um bocadinho esta distância, propus-lhe uma partida de futebol (no campo improvisado em que, rapidamente, transformámos a sala). Tinha pinta e pés de jogador da bola, mas jogava com a mesma displicência com que fingia não ouvir uma palavra do que lhe dizia. A dada altura, na tentativa de subir a fasquia da competitividade (empatando o jogo), facilitei, de forma bem disfarçada (achava eu!) a entrada de um golo seu. Nesse exato momento, o Francisco agarra a bola com as mãos, aproxima-se de mim, olha-me nos olhos e diz-me: “tu deixaste entrar o golo de propósito”!

    A irrequietude e a desatenção terão sempre o mesmo valor?
  A vivacidade irrequieta e a desatenção da criança que, invariavelmente, “se despista” nos exercícios de matemática sempre que está para acontecer, no recreio, o dérbi do futebol escolar deverá mesmo merecer preocupação de maior?
  Se é expectável que um adulto numa situação de stresse intenso (a eminência do desemprego ou a espera pelo resultado de um exame médico muito importante, por exemplo) possa não parar quieto corredor acima, corredor abaixo, sem cabeça para mais nada, é assim tão estranho que uma criança possa reagir com irrequietude e desatenção face a fontes de stresse mais ou menos continuadas?
  Se, antecipando uma apresentação que poderá valer a promoção há muito desejada, é plausível que um adulto tenha dificuldade em concentrar-se numa ou noutra tarefa, não será compreensível que uma criança possa ficar agitada e desatenta perante o medo avassalador, mais ou menos omnipresente e muito pouco realista (!), de poder ser incompetente para a aprendizagem?
  Não será mais difícil para todos, crianças e adultos, estar sereno e atento quando, por algum motivo, se está angustiado? Ter quem nos ajude a conter e a traduzir em palavras essa angústia não nos tornará, a todos, mais competentes para a atenção?

  Os manuais de diagnóstico têm vindo a tornar-se cada vez mais precisos na organização de sinais e sintomas em diagnósticos. Serão, por isso, uma ferramenta valiosa para qualquer técnico de saúde mental. Já a transferência, mais ou menos direta, de alguns conceitos e diagnósticos (como a “perturbação da hiperatividade/défice de atenção”, por exemplo) para o imaginário coletivo sem a mediação de um enquadramento compreensivo que os possa balizar, parece-me contribuir muito pouco (até pelo risco de multiplicação de equívocos de que daí poderá resultar) para que conheçamos e ajudemos as crianças (os adolescentes ou os adultos) a crescer melhor!
  Se há, hoje, um consenso alargado de que o modelo biomédico, marcadamente positivista, é curto na aproximação à complexidade humana, talvez possamos considerar que tão importante como estar atento a sintomas (como a hiperatividade e a desatenção), será compreender o que poderão significar nas dinâmicas interna e relacional daquela criança e daquela família (escola ou comunidade).

 Afinal de contas, como (re)aprendi naquele dia, com o Francisco: por mais desatentos que possamos parecer à primeira vista, somos todos(!) muito sensíveis ao pormenor!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 24 de setembro de 2017

Um estranho que conhecemos bem!

   O João acabara de sair de casa, para a Faculdade. Com a sua partida, e a dos dois irmãos mais velhos, que lhe precedera, a casa parecia, agora, grande demais para a Maria e para o Pedro. O crescimento dos filhos, os projetos profissionais e o buliço do dia-a-dia foram-lhes ocupando a vida. Já mal se lembravam do que é ter espaços a dois. Na verdade, nunca se sentiram no direito de deixar os filhos com os avós para tirarem para si um fim-de-semana que fosse, como se investir na relação de casal (e na realização pessoal) não fosse, ao mesmo tempo, investir na parentalidade. A princípio ainda saiam para jantar fora no aniversário de casamento. Mas, com o passar dos anos, até isso se foi perdendo. E agora, 25 anos depois do nascimento do primeiro filho, viam-se, novamente, a sós. As noites interrompidas pelo pesadelo do João, pela febre do Bernardo ou pela tosse do Lucas foram sendo substituídas, à medida que cresciam, pela azáfama de acordar três adolescentes birrentos pela manhã; pelas correrias para as atividades extracurriculares ou pelas chamadas de atenção (mais ou menos inflamadas) com o tempo que gastavam ao computador ou ao telemóvel. E agora, 25 anos depois, viam-se, de novo, a sós. Com tempo para irem ao cinema ou verem filmes enroscados no sofá; com a possibilidade de jantarem fora e até de reservarem um ou outro fim-de-semana romântico. Mas já nem a Maria nem o Pedro sabiam bem como se fazia. Há muito que o abraço não saía naturalmente. E, quando saía, parecia não encaixar, deixando-os, a ambos, mais desconfortáveis do que enternecidos. Tudo se ia passando como se, sem o buliço da gestão diária da educação dos filhos, se sentissem, a cada dia, um bocadinho mais uns estranhos que já se conheceram bem. Com mais espaço a sós, a verdade é que as conversas (cada vez mais raras) se cingiam às preocupações com os filhos e à gestão da vida financeira da família. Começaram por desencontrar ritmos de sono, com a Maria e o Pedro a ficarem, à vez, até tarde entre a tv e o computador para, rapidamente, o desencontro se estender até ao ponto de mal falarem e nunca dormirem juntos.

  Talvez as relações (todas as relações) sejam sempre um bocadinho assim. Morrem mais um pedaço, de cada vez que as omissões se tornam a regra que, aos poucos, vai transformando o outro num estranho que já conhecemos bem.
  Talvez as relações (todas as relações) sejam sempre um bocadinho assim. Expandem-se vários universos (tornando-se mais sólidas e próximas) sempre que não se poupa nas palavras e nos gestos para olhar bem dentro do outro (como, de forma muito bonita, nos lembra o Principezinho).

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 3 de setembro de 2017

Norma 4.0: o insustentável peso do dever!

  Sempre recaíram sobre si grandes expectativas e, em boa verdade, uma espécie de pressão alta para não manchar o bom nome da família. Talvez por isso, a Sofia foi crescendo mais habituada aos quadros de honra e aos elogios de professores e contínuos, do que às correrias do recreio. Não viriam a ser muito diferentes os tempos da Faculdade: dominava as sebentas e os apontamentos, mas sobre a organização do curso (contestada por muitos dos seus colegas), a subida das propinas ou o corte nas bolsas, que atirou alguns dos seus colegas para fora da Universidade, não tinha muito a dizer. Apesar de ser a distribuidora oficial de resumos impecavelmente organizados e, de com isso, ter aproximado muitos dos seus colegas (que, de resto, a olhavam com um certo respeito) parecia guardar sempre uma distância de segurança. Era agora (que estava longe dos pais), mais do que nunca, assolada por uma espécie de fantasma mais ou menos omnipresente: O que é que as pessoas iam dizer? Como se não se sentisse no direito de ir além, um bocadinho que fosse, do escrupuloso cumprimento das expectativas que, desde cedo, se habituou a seguir sem (aparentemente!) questionar.
  A conclusão do mestrado levou-a a uma empresa de renome. E a nunca menos de 12 horas de trabalho diário, mal remunerado (bem-vinda a este enorme “avanço” civilizacional em que se tem transformado o mercado de trabalho para jovens, no século XXI). Sempre disponível (muito mais do que qualquer um dos colegas com quem entrara na empresa) – para trabalhos (não remunerados) ao fim-de-semana, tarefas extra e telefonemas fora de horas, vivia exausta. Dava, ainda assim, por si a ser a primeira a oferecer-se para qualquer tarefa suplementar. E a zangar-se furiosamente (para dentro, claro está!), de cada vez que não sentia o seu esforço reconhecido. Toda esta ira, todavia, rapidamente se transformava num misto de contentamento e culpa (e em maior disponibilidade para o trabalho…), sempre que surgia um elogio das chefias; ou num sentimento de exaltação, sempre que os pais expunham, junto de tios e primos, o seu percurso académico e profissional sem mácula (ainda que, claro, não lhe pagasse as contas…). O ciclo (vicioso) ia-se renovando a cada ano, até que, o afastamento da Filipa (única amiga que ia mantendo por perto) a promoção da Carla (para a função que ela própria ambicionava) e a transferência do Francisco para a mesma função (bem remunerada, agora) numa empresa da concorrência, parecem ter ajudado a precipitar uma queda depressiva que a todos surpreendeu. A todos menos à Sofia que (fosse com as insónias; as constantes dores musculares e de cabeça que nenhuma condição médica, felizmente, justificara; o olhar cada vez mais mortiço; o distanciamento dos amigos e colegas; a hiperatividade laboral ou a ausência de fontes de prazer) há anos dela dava sinais mais ou menos encriptados. A todos menos à Sofia que (fosse com a distância de segurança que, ao deixá-la cada vez mais sozinha, em bom rigor, a foi expondo mais do que protegendo do sofrimento; fosse com o modo como foi pondo sempre o cumprimento da norma e da expectativa à frente da subjetividade e da autonomia, ou com a exaltação narcísica que retirava de cada elogio ao seu percurso certinho) há anos dela procurava fugir.

  Talvez seja sempre um bocadinho assim quando, invariavelmente, nos “protegemos” do que nos magoa e assusta com aquilo que, ao mesmo tempo, nos afasta do melhor das nossas competências. Esta espécie de patologia da adaptação (com que Sami-Ali enfatizou os perigos da substituição do imaginário e da subjetividade pela norma e pelo banal) ou de falso self (com que Winnicott enfatizou a força patogénica da adaptação excessiva à norma) até pode aportar, num primeiro momento, ganhos académicos e profissionais (e injeções de autoestima a eles associados). Mas parece, a prazo, desvitalizar a relação com o outro e com o mundo, deixando as pessoas mais à mercê do imenso e profundo vazio que este ciclo vicioso parece ir, paulatinamente, cavando (e que quaisquer circunstâncias dolorosas de vida acabarão, provavelmente, por desnudar). A ser assim, talvez só as relações que (re)criam mais do que repetem (a norma e a expectativa) possam preencher esse vazio com (inter)subjetividade, imaginário, espontaneidade, autonomia, conflito, diferença, desejo, esperança, projeto e ação intencional, preenchendo de vida (e de Amor!) as vidas!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 23 de julho de 2017

Férias para que te quero?

 Muitos são os que, por esta altura, vão suspirando pelas férias, enquanto vagueiam pelas fotos de areias finas e águas cristalinas, que teimam em invadir as redes sociais.  
   Com o Xavier parece ser um bocadinho diferente. Casado e pai de duas filhas, não gosta das férias: “tirar férias é um tormento. Todos os anos vamos de férias para o Algarve. Quinze dias. A minha mulher e as miúdas querem ir para a praia, passear na marina à noite, fazer churrascos, essas coisas… Eu não aguento! No ano passado, tive de ir comprar uma pen para ter internet móvel. Tinha de trabalhar! As coisas ficavam atrasadas. Quinze dias sem fazer nada é muito tempo. E elas depois andam sempre de má cara porque quero ficar em casa a trabalhar. Não entendem”.
   O Xavier é um profissional de sucesso. Trabalhador incansável, tem uma vida financeira estável, que lhe permite manter uma boa casa, um carro familiar de alta cilindrada e um outro utilitário, uma casa de férias no Algarve, colégios caros e atividades extracurriculares para as filhas.
  Mas não só as férias que o inquietam. Os sábados passa-os a trabalhar. Aos domingos, depois do jogo de vólei das filhas (passado, claro, a responder a e-mails de trabalho no i-phone) e do almoço na casa dos pais ou dos sogros, esquiva-se para o escritório lá de casa, adiando, uma vez mais, o passeio de mão dada com a mulher, ao entardecer.
  À noite, por muito cansado que esteja, tem quase sempre grandes dificuldades em adormecer. Ao ar amuado da mulher por (quase) nunca o sentir ali, realmente perto dela, juntam-se as 1001 preocupações de trabalho. Estão sempre presentes, mas teimam em agudizar-se quando apaga a luz.

  Talvez o que o Xavier queira dizer com o seu apelo, mais ou menos encriptado, seja qualquer coisa como: transporto tanta angústia dentro de mim, que temo que a única forma de a ir fintando seja esta espécie de hiperatividade funcional (no sentido que Sami-Ali lhe dá). Parar (seja para estar na praia ou numa esplanada a gozar a brisa do entardecer) é ser, brutalmente, invadido por ela. Talvez o que o Xavier queira dizer com o seu apelo, mais ou menos encriptado, seja que este registo agitado e híper-funcional em que tem estado mergulhado, ao mesmo tempo que vai (cada vez menos) fintando a angústia, o vai afastando, cada vez mais, de quem (a mulher, as filhas, os pais, os amigos…) o pode ajudar a transformar a angústia em palavras, as palavras em histórias e as histórias em vida. Se o Xavier conseguisse ser mais claro, talvez tivesse dito: ajude-me a entender e a transformar toda esta angústia, para parar de, à boleia do trabalho, fugir dela e, com isso, afastar quem (a mulher, as filhas, os pais, os amigos, etc.) me pode ajudar a desfrutar do trabalho, da esplanada, do pôr-do-sol… da vida.

  Num mundo muito centrado na ideia de sucesso, corremos o risco desta espécie de hiperatividade funcional ser valorizada. Num primeiro momento até pode, de facto, representar ganhos de produtividade. Mas (à semelhança do que alguns dizem acerca da dívida de alguns países do sul da Europa) é insustentável a prazo. Correr por gosto não cansa. Já correr por medo (o medo de que à falta de um registo híper-funcional que a sustenha, a angústia tome conta de tudo), tenho para mim, dá maus resultados, a prazo. Talvez por isso o ócio (dos passeios de mão dada na brisa da tarde, às jantaradas de amigos, passando pelas reuniões familiares ou pelo dolce fare niente) seja fundamental para nos apaixonarmos pelo trabalho e, muito mais importante do que isso, pela vida!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais, está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

domingo, 25 de junho de 2017

O teu bem faz-me tão mal!*

  Nunca, até olhar nos olhos do Pedro, se tinha permitido sentir borboletas na barriga. Daquelas à séria, que põem as pessoas a imaginar tontices (próprias de filmes de domingo à tarde) e quase fazem o coração sair pela boca. Mas durou pouco a Primavera…  Já o tinha ouvido, no bar, a insurgir-se contra a desregulação na alta finança. E, pior, para além da boémia (que conciliava bem com as sebentas) e do estilo alternativo, o Pedro andava nas manifestações, de megafone na mão, a gritar contra as propinas.
 Depressa as insónias tomaram conta das noites da Constança. Repetiam-se as vezes em que acordava, assustada, com a imagem do pai (secundado pelo acenar de cabeça da mãe) a dizer-lhe, com uma calma desconcertante: “A Universidade está cheia desses maltrapilhos. Vê lá o que arranjas para dar o nome aos teus filhos!” Deixou de ir ao bar e começou a evitar todo e qualquer espaço onde fosse provável dar de caras com o Pedro. Tinha de se concentrar nas sebentas. Afinal de contas, há muito que todos haviam decidido que ia ser uma advogada brilhante. Custou-lhe, ao início, mas foi-se habituando. Afinal, habituar-se ao que esperavam de si era o que fazia desde que se lembra. Foram-se os pesadelos, mas ficaram as insónias e, com elas, um olhar cada vez mais apagado.
  As notas brilhantes e os contactos familiares valeram-lhe um estágio, e depois um emprego num grande escritório de advogados. Acabou por casar com o filho de um amigo da família. Não que alguma vez, ao pé do marido, o coração lhe tenha querido saltar pela boca, como acontecera, há muitos anos, nos corredores da velhinha Faculdade de Direito.  Mas estava já em idade de casar e ter filhos…
  O ritmo frenético no trabalho, um casamento morno (funcional na aparência, mas sem vida nem rasgo) e a preocupação com os filhos foram-lhe preenchendo o tempo (e camuflando os vazios). Até que todo o longo e doloroso processo da doença do pai e, depois, a sua morte, precipitaram uma espécie de terramoto na estrutura que, durante anos e anos, se alicerçou na adaptação (quase sem falhas) ao que esperavam de si. “Como é que eu posso fazer o luto de alguém de quem eu nunca discordei? Como é que eu posso fazer o luto de alguém com quem nunca me zanguei?”, viria a perguntar-me (a perguntar-se, para ser mais exato), anos mais tarde.

  Precisamos de quem nos sonhe e nos invista de expectativas, para que, a partir delas, possamos, na diferença (e no conflito) que a relação implica, sonhar e empreender autonomamente a nossa vida. Já ter quem, invariavelmente, nos engula nos seus sonhos e nos seus ritmos, poderá deixar-nos reféns numa espécie de sequestro da subjetividade e da autonomia (próximos daquilo a que Winnicott chamou de falso self). Esta hiperadaptação funcional, ensina-nos Sami-Ali, faz-se acompanhar de um recalcamento da função do imaginário (posso sonhar-me se há quem, invariavelmente, me engula nos seus sonhos?) e de uma depressão caracterial (uma espécie de depressão contida, vazia de sintomas…e de vida), numa constelação que (como chamam a atenção a psicossomática de inspiração psicanalítica e a psiconeuroendocrinoimunologia), à medida que desvitaliza a vida mental parece fragilizar os equilíbrios biológicos do corpo.


Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.